{"id":1159,"date":"2021-04-29T17:44:03","date_gmt":"2021-04-29T20:44:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/?p=1159"},"modified":"2025-10-13T13:19:11","modified_gmt":"2025-10-13T16:19:11","slug":"entre-a-potencia-e-a-existencia-notas-sobre-representacoes-cinematograficas-da-condicao-humana-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/entre-a-potencia-e-a-existencia-notas-sobre-representacoes-cinematograficas-da-condicao-humana-contemporanea\/","title":{"rendered":"Entre a Pot\u00eancia e a Exist\u00eancia: notas sobre  representa\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas da condi\u00e7\u00e3o humana contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n\n\n<h5 style=\"text-align: left\"><strong>Yago Ramalho Silva<sup>[2]<\/sup><\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">No cerne das mudan\u00e7as sociais, pol\u00edticas e culturais advindas com o fim da era de ouro, visualiza-se uma transforma\u00e7\u00e3o de forma gradual e de ordem estrutural, que se caracteriza por um processo de subjetiva\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica (DARDOT; LAVAL, 2016) e, mais recentemente, individualiza\u00e7\u00e3o autorrespons\u00e1vel e positiva (HAN, 2017), conceitos que ser\u00e3o esclarecidos posteriormente. De acordo com Hobsbawm (1995), o fim da era de ouro marca um per\u00edodo em que as pessoas perderam seus referenciais, mesmo com o surgimento de novos entendimentos e posturas quanto a antigos problemas. Com menor relev\u00e2ncia na obra do autor \u00e9 que aparece o cen\u00e1rio cultural, especialmente no \u00e2mbito da cultura popular, e como essas transforma\u00e7\u00f5es refletiam e ainda refletem a psicologia pr\u00f3pria do indiv\u00edduo \u201cp\u00f3s-era de ouro\u201d. \u00c9 a esta reflex\u00e3o que este pequeno texto se dedica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse sentido, objetiva-se, no presente texto, discorrer sobre algumas inst\u00e2ncias dentro do cinema em que a presen\u00e7a de um personagem fragmentado e alienado lan\u00e7a luz sobre dilemas antigos; por extens\u00e3o, a mesma discuss\u00e3o ser\u00e1 carregada no horizonte temporal at\u00e9 o presente, com uma an\u00e1lise das obras e seus respectivos contextos. Em particular, os filmes \u201cTaxi Driver\u201d (1976), \u201cParasite\u201d (2019) e \u201cJoker\u201d (2019) servem como norteadores centrais da discuss\u00e3o, com um plano de fundo te\u00f3rico que traz argumentos apresentados por Byung Chul-Han em \u201cSociedade do Cansa\u00e7o\u201d. Al\u00e9m disso, conv\u00e9m salientar que <em>o meio n\u00e3o \u00e9 a mensagem<\/em>, e que o mesmo exerc\u00edcio poderia ser feito com outras representa\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Desde h\u00e1 muito que a arte tem representado \u00e2nsias sociais, \u00eaxtases est\u00e9ticos e dilemas pessoais. Dos registros do cotidiano de nossos ancestrais ca\u00e7adores-coletores em Lascaux<strong><sup>[3] <\/sup><\/strong>\u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas dos trabalhos de Schubert<strong><sup>[4]<\/sup><\/strong>, pode-se localizar padr\u00f5es, formas prontas, temas, par\u00f3dias etc. em um prof\u00edcuo di\u00e1logo entre autores, apreciadores, suas hist\u00f3rias e contextos. Nessa din\u00e2mica, a tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do s\u00e9culo XIX \u00e9 de interesse para o argumento que se segue, o que exige uma breve nota. O coment\u00e1rio social e pol\u00edtico, embora j\u00e1 presente em obras ficcionais pret\u00e9ritas, torna-se um tropo nesse per\u00edodo, gra\u00e7as ao trabalho de autores como Dickens<strong><sup>[5]<\/sup><\/strong><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><\/a>, sempre a discutir a pobreza e a mis\u00e9ria do povo ingl\u00eas de ent\u00e3o. Com o tempo e o advento de tend\u00eancias modernistas, simbolistas, dentre outras, tais intera\u00e7\u00f5es tem\u00e1ticas tornam-se progressivamente mais complexas, sutis e psicol\u00f3gicas. Por exemplo, t\u00eam-se o terreno que daria origem \u00e0s narrativas kafkaescas, a personagens ap\u00e1ticos como Bartleby, ou aos <em>insights <\/em>espirituais de Dostoi\u00e9vski. Esse trato continuaria at\u00e9 a contemporaneidade, especialmente na literatura p\u00f3s-moderna de cunho experimental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aproximando essa tend\u00eancia para a segunda metade do s\u00e9culo XX e in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, \u00e9 poss\u00edvel observar a j\u00e1 consagrada (e simples) tese de Ricardo Piglia<strong><sup>[6] <\/sup><\/strong>de que, conforme uma forma deixa de ser a grande contadora de hist\u00f3rias de seu tempo, abre-se um espa\u00e7o para a inova\u00e7\u00e3o e o experimento. No caso do romance de fic\u00e7\u00e3o, \u00e9 f\u00e1cil identificar o cinema e a televis\u00e3o como os grandes substitutos na imagina\u00e7\u00e3o popular. No entanto, o que acontece quando esse mesmo cinema passa a experimentar com sua pr\u00f3pria forma? Come\u00e7ando com a <em>Nouvelle Vague <\/em>francesa nos anos 60, observa-se uma gradual prefer\u00eancia por metatextualidade, mon\u00f3logos interiores, cortes abruptos, etc. \u00c9 o surgimento de uma forma mais autoral e pessoal de se produzir filmes. Esse detalhe \u00e9 essencial, pois permite inferir algumas considera\u00e7\u00f5es mais subjetivas sobre o per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 neste ponto no tempo que se insere uma das obras seminais de Martin Scorsese, \u201cTaxi Driver\u201d. Lan\u00e7ado em 1976, o filme <em>neo-noir<\/em> narra uma das mais incisivas representa\u00e7\u00f5es de decad\u00eancia espiritual e moral da sociedade ap\u00f3s o fim da era de ouro do capitalismo. Pretende-se descrever essa condi\u00e7\u00e3o e argumentar como ela reverbera na contemporaneidade, usando para tanto dois outros filmes: o sul-coreano <em>Parasite<\/em> e o americano <em>Joker<\/em>, ambos lan\u00e7ados em 2019, que tamb\u00e9m discutem, \u00e0 sua maneira, temas pr\u00f3ximos. No entanto, antes de adentrar nesse argumento e na descri\u00e7\u00e3o dessas tr\u00eas obras, vale uma breve nota sobre o que foi a Era de Ouro e como se deu seu decl\u00ednio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A Era de Ouro pode ser descrita como um per\u00edodo de intenso crescimento econ\u00f4mico e grandes transforma\u00e7\u00f5es estruturais. As mudan\u00e7as eram profundas em todos os sentidos: pol\u00edticos, econ\u00f4micos, sociais e culturais. Como bem coloca Hobsbawm (1995), t\u00eam-se de um lado a expans\u00e3o da escolaridade, especialmente entre as mulheres, a morte do campesinato, uma explos\u00e3o da produtividade; por outro lado, um maior senso de individualidade, novos padr\u00f5es de comportamento, do primeiro disco de rock \u00e0 politiza\u00e7\u00e3o de toda preocupa\u00e7\u00e3o. Num certo sentido, o auge do sonho americano se expressando como o auge do individualismo:<\/p>\n<blockquote>\n<h6 style=\"text-align: justify\"><em>A revolu\u00e7\u00e3o cultural de fins de s\u00e9culo XX pode assim ser mais bem entendida como o triunfo do indiv\u00edduo sobre a sociedade, ou melhor, o rompimento dos fios que antes ligavam os seres humanos em texturas sociais. Pois essas texturas consistiam n\u00e3o apenas nas rela\u00e7\u00f5es de fato entre seres humanos e suas formas de organiza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m nas rela\u00e7\u00f5es de fato entre seres humanos e os padr\u00f5es esperados de comportamento das pessoas umas com as outras. (HOBSBAWM, 1995, p. 328).<\/em><\/h6>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">No entanto, o que n\u00e3o se esperava \u00e9 que tudo isso fosse uma verdadeira bomba rel\u00f3gio. J\u00e1 em 1973 o sistema come\u00e7ava a apresentar sinais de esgotamento, e velhos problemas passaram a fazer parte do cotidiano mais uma vez. Desemprego em massa (especialmente pela substitui\u00e7\u00e3o do trabalho humano por m\u00e1quinas), a desigualdade, a incerteza quanto ao futuro, entre tantos outros problemas, povoavam o imagin\u00e1rio popular &#8211; mem\u00f3rias ainda recentes da Grande Depress\u00e3o sinalizavam que tudo aquilo talvez ainda pudesse ocorrer uma vez mais. Da inefici\u00eancia do Estado em suprimir os problemas at\u00e9 o surgimento de novas formas independentes e especializadas de fazer pol\u00edtica, \u00e9 ineg\u00e1vel que todos esses processos reverberam em preocupa\u00e7\u00f5es ainda atuais.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas quem seriam essas pessoas sem referenciais, j\u00e1 t\u00e3o individualizadas e, paradoxalmente, \u00e0 merc\u00ea da pr\u00f3pria impessoalidade? Scorsese talvez tenha respondido isso em 1976, com seu personagem Travis Bickle. Veterano da guerra do vietn\u00e3, desiludido, \u201c<em>God\u2019s lonely man<\/em>\u201d e uma \u201c<em>walking contradiction<\/em>\u201d, o protagonista de Taxi Driver \u00e9 um sujeito esquisito, n\u00e3o reage adequadamente ao seu entorno (seria Estresse P\u00f3s-Traum\u00e1tico (TEPT) ou alguma condi\u00e7\u00e3o pret\u00e9rita?), parece projetar sua frustra\u00e7\u00e3o em \u00f3dio a grupos minorit\u00e1rios. Na verdade, mais que isso, ele \u00e9 t\u00e3o despido dos grandes dotes intelectuais de seus antecessores espirituais, os existencialistas europeus, que mal parece conseguir expressar o que sente de forma coesa, l\u00f3gica e direta. Se Chul-Han (2017) fala de uma sociedade movida pelo slogan positivo <em>yes, we can, <\/em>Bickle preconiza o <em>Anytime, Anywhere<\/em>, uma aliena\u00e7\u00e3o que impele \u00e0 a\u00e7\u00e3o em qualquer contexto, ao trabalho sem dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Durante boa parte do filme s\u00f3 h\u00e1 Bickle e sua pr\u00f3pria solid\u00e3o: quando lhe dirigem a palavra, ele cala; quando ele fala, n\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo. Mon\u00f3logos sem muito sentido s\u00e3o repetidos v\u00e1rias vezes (parecidos com as tentativas frustradas de Fabiano em Vidas Secas<strong><sup>[7]<\/sup><\/strong>), enquanto o protagonista se prepara, planeja e avan\u00e7a ideias amb\u00edguas e certamente violentas. Nunca fica muito claro se o que o move \u00e9 sua sa\u00fade mental deteriorada (note que ele mal consegue expressar que est\u00e1 deprimido, resumindo isso a ter \u201calgumas ideias muito ruins na cabe\u00e7a\u201d), a solid\u00e3o em si, a pobreza, ou o estado geral da Nova York na d\u00e9cada de 70. Fato \u00e9 que, quase em tom de homenagem, outro filme seria lan\u00e7ado em 2019 com premissa bem derivativa, embora menos amb\u00edgua: trata-se de Joker, do diretor Todd Phillips (e as semelhan\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o novidade para ningu\u00e9m).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Situado na d\u00e9cada de 80, ou seja, um pouco depois do per\u00edodo at\u00e9 ent\u00e3o discutido, Joker apresenta os mesmos temas, de forma mais bruta e direta. Temos um homem e seu sentimento de inadequa\u00e7\u00e3o, prestes a explodir em uma revolta interior e a cometer atos de extrema brutalidade. Mais interessante que as similaridades \u00e9 notar que, a despeito de tratar de velhos problemas, o telespectador contempor\u00e2neo consegue compreender o personagem e sua dor, \u00e9 capaz de tra\u00e7ar poss\u00edveis motiva\u00e7\u00f5es para suas a\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o raro at\u00e9 mesmo simpatizar. Arthur Fleck s\u00f3 queria provar para si mesmo que existia de fato, e encontra essa prova num c\u00e1lculo mental que racionaliza o assassinato de pessoas vistas por ele como vis, por mais niilista e inconsequente que esses atos pare\u00e7am para ele mesmo: perdidas as amarras, j\u00e1 n\u00e3o se tem nada a perder. Se lembrarmos de Rask\u00f3lnikov<strong><sup>[8] <\/sup><\/strong>a justificar seus planos de assassinato em cima de grandes figuras hist\u00f3ricas, \u00e9 poss\u00edvel fazer uma analogia em que essas figuras, na vida de Arthur, s\u00e3o aquelas que sempre o desprezaram por sua condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Do medo anterior ao lan\u00e7amento de que talvez o personagem pudesse inspirar atentados (dizia-se at\u00e9 mesmo que se tratava de um filme irrespons\u00e1vel) a s\u00edmbolo de revolta no Chile, o essencial \u00e9 notar que toda essa problem\u00e1tica ainda persiste no tempo. E neste mesmo ano de 2019, outro filme viria a trabalhar essa problem\u00e1tica de forma quase invertida: trata-se de <em>Parasita<\/em>, do sul-coreano Bong Joon-Ho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aqui, a contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 explorar esses meandros psicol\u00f3gicos numa sociedade que por todos os \u00edndices e indicadores \u00e9 vista como avan\u00e7ada, desenvolvida e rica. Na obra, a fam\u00edlia Kim, pobre e que vive num apartamento subterr\u00e2neo sujeito a todo tipo de inunda\u00e7\u00e3o e sujeira, ascende socialmente enquanto engana aqueles que est\u00e3o socialmente acima (a fam\u00edlia Park, rica) e aqueles que est\u00e3o em p\u00e9 de igualdade com eles, como a governanta. Se o tom inicial \u00e9 bem humorado, quase caricato, t\u00edpico de<em> k-dramas<\/em>, o roteiro cria uma ruptura inesperada em sua segunda metade, quando da revela\u00e7\u00e3o de um homem que por muitos anos viveu em um bunker da mans\u00e3o dos Park.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em entrevista, o diretor Bong Joon-Ho afirma que a universalidade desse sentimento especificamente coreano, retratado no filme, adv\u00e9m de um elemento essencial: basicamente, todos n\u00f3s vivemos no mesmo pa\u00eds, que \u00e9 o capitalismo. Parte da chave desse artigo se encontra nessa ideia. No conflito entre as fam\u00edlias Kim e Park, n\u00e3o h\u00e1 um mundo simples, de mocinhos e bandidos. Na verdade, um dos grandes \u00eaxitos da obra \u00e9 apresentar com suficiente nuance e ambiguidade como cada personagem est\u00e1 presa a seus pr\u00f3prios vieses de classe. O \u201cfantasma\u201d do bunker, que cultua a figura do rico meramente por poder subsistir abaixo dele, \u00e9 simb\u00f3lico, porque no final esse parece ser o destino de cada membro da fam\u00edlia Kim, quando n\u00e3o a morte. Num jogo de m\u00edmica, em que o pobre se passa por rico, h\u00e1 sempre a imagem de uma escada e o \u00e2ngulo certo para mostrar que tudo aquilo era ilus\u00f3rio tanto quanto transit\u00f3rio (como nos diversos posters de divulga\u00e7\u00e3o, conforme podemos ver a seguir<strong><sup>[9]<\/sup><\/strong>). O \u201ccheiro de pobre\u201d que t\u00e3o sutilmente separava as duas fam\u00edlias tem rosto, dimens\u00e3o e hist\u00f3ria, mas termina como um mero \u201cfantasma\u201d a vagar com o peso de seu pr\u00f3prio passado. A revolta em Parasita, que pode ser melhor vista no destino do pai Ki-Taek, n\u00e3o tem a reden\u00e7\u00e3o e o surto como nos outros filmes tratados aqui, mas apresenta aquela mesma individualiza\u00e7\u00e3o, uma ruptura solit\u00e1ria e indiferente que \u00e9 enfim silenciada.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1166\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2021\/04\/yago-artigo-5.jpg\" alt=\"\" width=\"663\" height=\"509\" srcset=\"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2021\/04\/yago-artigo-5.jpg 663w, https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2021\/04\/yago-artigo-5-300x230.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 663px) 100vw, 663px\" \/><br \/>\u00a0Arte por Jisu Choi\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <strong>\/\/\u00a0<\/strong> \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Arte por Andrew Bannister<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa caracteriza\u00e7\u00e3o um tanto esquem\u00e1tica de como as personagens nos tr\u00eas filmes se enxergam e se comportam chama a aten\u00e7\u00e3o para dois aspectos centrais: i) o indiv\u00edduo p\u00f3s-era de ouro \u00e9 essencialmente o mesmo da contemporaneidade; ii) essa paisagem psicol\u00f3gica e moral n\u00e3o necessariamente precisa estar relacionada com um contexto cultural e geogr\u00e1fico espec\u00edfico<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para melhor desenvolver esses aspectos, \u00e9 preciso explorar a no\u00e7\u00e3o de homem que prevalece na contemporaneidade. Com o advento do s\u00e9culo XX, Dardot &amp; Laval (2016) mostram como uma nova concep\u00e7\u00e3o de mercado passou a existir, e com isso, uma nova concep\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduo. Das premissas tradicionais do liberalismo e do <em>homo oeconomicus<\/em> maximizador, surge a figura do <em>homem-empresa<\/em>, em que impera um modo de governo de si que \u00e9 empreendedor, empresarial.\u00a0 Mais do que um personagem que age no plano econ\u00f4mico, \u00e9 um est\u00e1gio novo, um plano em que todas as a\u00e7\u00f5es humanas est\u00e3o sujeitas a uma l\u00f3gica mercadol\u00f3gica (da\u00ed a no\u00e7\u00e3o supracitada de uma \u2018\u2019subjetiva\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica\u2019\u2019: a no\u00e7\u00e3o de que a pr\u00f3pria identidade e os v\u00e1rios cen\u00e1rios da vida podem ser encarados por uma \u00f3tica de mercado).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Han (2017) aponta para uma interpreta\u00e7\u00e3o semelhante. Segundo ele, vivemos em uma sociedade do desempenho que se caracteriza por excessos de positividade: os indiv\u00edduos, empres\u00e1rios de si mesmos, agem de acordo com iniciativas e planos de desempenho e produ\u00e7\u00e3o. Um sujeito que explora a si mesmo, mais especificamente, e cr\u00ea ser livre. Com as palavras do pr\u00f3prio:<\/p>\n<blockquote>\n<h6><em>O <\/em>animal laborans<em> p\u00f3s-moderno n\u00e3o abandona sua individualidade ou seu ego para entregar-se pelo trabalho a um processo de vida an\u00f4nimo da esp\u00e9cie. A sociedade laboral individualizou-se numa sociedade de desempenho e numa sociedade ativa. O <\/em>animal laborans<em> p\u00f3s-moderno \u00e9 provido do ego ao ponto de quase dilacerar-se. Ele pode ser tudo, menos passivo. (HAN, 2017, p. 43)<\/em><\/h6>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao que ele complementa logo ap\u00f3s: \u201cA desnarrativiza\u00e7\u00e3o&#8230;geral do mundo refor\u00e7a o sentimento de transitoriedade\u201d (Ibid., p.44).<br \/>Ao n\u00edvel de uma caracteriza\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e social desses fen\u00f4menos, a descri\u00e7\u00e3o feita acerca das personagens dos tr\u00eas filmes se encaixa bem nesses par\u00e2metros. Como pode ser observado, nada em Dardot &amp; Laval ou em Han parece sugerir um contexto ou uma temporalidade muito delimitada: \u00e9 uma sociedade e \u00e9 um homem s\u00f3, o p\u00f3s-moderno, contempor\u00e2neo e que vive no pa\u00eds chamado capitalismo. Vis\u00e3o semelhante \u00e9 partilhada pelo diretor de Parasita, Bong Joon-Ho.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1170\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2021\/04\/yago-artigo6-245x300.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"489\" srcset=\"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2021\/04\/yago-artigo6-245x300.jpg 245w, https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2021\/04\/yago-artigo6.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A resposta extrema a um mundo transit\u00f3rio, em que se \u00e9 respons\u00e1vel por seu pr\u00f3prio valor e reconhecimento, \u00e9 a revolta tr\u00e1gica e dada num plano individual. Como foi salientado durante o texto, embora Travis, Arthur e a fam\u00edlia Kim sofram de problemas concretos socialmente determinados como aliena\u00e7\u00e3o, pobreza, abuso etc. a resposta \u00e9 sempre internalizada e, muitas das vezes, at\u00e9 mesmo niilista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Similar \u00e0 busca de sentido num mundo intrinsecamente alheio do qual os existencialistas tanto falavam em meados do s\u00e9culo XX, mas somado a uma condi\u00e7\u00e3o de excesso informacional, de fragmenta\u00e7\u00e3o social e de falta de referenciais: essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do homem para a qual Hobsbawm chamou a aten\u00e7\u00e3o; este \u00e9 o homem contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os \u00faltimos 50 anos viram surgir um novo tipo de indiv\u00edduo, com problemas e convic\u00e7\u00f5es particulares. O argumento central do presente artigo foi mostrar como essa caracteriza\u00e7\u00e3o pode ser apercebida temporalmente atrav\u00e9s de interven\u00e7\u00f5es na cultura popular, produ\u00e7\u00f5es suficientemente \u00edntimas capazes de gerar <em>insights <\/em>sobre a mentalidade de seus conterr\u00e2neos, mesmo no caso mais baixo da produ\u00e7\u00e3o massificada. Grosso modo, a ideia \u00e9 que certos tropos e temas se repetem em constantes homenagens internas (o exemplo mais \u00f3bvio sendo Taxi Driver e Joker), recep\u00e7\u00e3o popular emp\u00e1tica, e referencialidade a problemas concretos e presentes no imagin\u00e1rio popular. Com as personagens, foi poss\u00edvel delimitar o que seria, de forma talvez exagerada, o homem contempor\u00e2neo. Com a ajuda de Dardot &amp; Laval e Byung-Chul Han, foi poss\u00edvel estabelecer exatamente quem s\u00e3o essas personagens. De forma sint\u00e9tica, e fazendo alus\u00e3o ao t\u00edtulo, temos o poema Os Homens Ocos, de T.S Eliot:<\/p>\n<blockquote>\n<h6 style=\"text-align: justify\"><em>\u201cN\u00f3s somos os homens ocos\/ Os homens empalhados\/ Uns nos outros amparados\/ O elmo cheio de nada. Ai de n\u00f3s!\/ Nossas vozes dessecadas,\/ Quando juntos sussurramos,\/ S\u00e3o quietas e inexpressas [&#8230;]\u201d<\/em><\/h6>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<hr \/>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify\">[1] Artigo feito para a disciplina de Economia Mundial Contempor\u00e2nea, semestre EARTE 2020\/1. O n\u00famero de refer\u00eancias e de palavras fazem parte da proposta da disciplina.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify\">[2] Graduando em ci\u00eancias econ\u00f4micas (UFES).\u00a0<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify\">[3] Famoso complexo de cavernas localizado na Fran\u00e7a, caracterizado pela qualidade e quantidade de seus registros. Para mais: <a href=\"blank\">https:\/\/archeologie.culture.fr\/lascaux\/fr<\/a>.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify\">[4] Compositor austr\u00edaco do in\u00edcio do romantismo. O coment\u00e1rio \u00e9 gen\u00e9rico, visto que pretende apenas ressaltar certo costume presente na m\u00fasica erudita.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify\">[5] Escritor vitoriano, popular pelos coment\u00e1rios sociais e realismo presentes em suas obras.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify\">[6] Escritor e cr\u00edtico liter\u00e1rio argentino.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify\">[7] Obra de Graciliano Ramos publicada em 1938 que narra as condi\u00e7\u00f5es de vida de uma fam\u00edlia no sert\u00e3o nordestino, amplamente reverenciado como um dos principais romances da literatura brasileira. Fabiano \u00e9 um vaqueiro e personagem central da narrativa. Uma de suas caracter\u00edsticas mais marcantes \u00e9 a clara defici\u00eancia lingu\u00edstica que apresenta, sendo incapaz de passar ideias simples e muitas das vezes imitando, de forma quixotesca, o falar de outras pessoas.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify\">[8] Protagonista de Crime e Castigo, romance de Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski.<a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><\/a><\/h6>\n<h6><sup>[9]<\/sup> Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"blank\">https:\/\/mubi.com\/notebook\/posts\/movie-poster-of-the-week-the-posters-of-parasite<\/a>&gt;. Acesso em 16\/04\/2021<\/h6>\n<hr \/>\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<h6>DARDOT, P; LAVAL, C. O homem empresarial. In: <strong>A nova raz\u00e3o do mundo<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2016. [p. 139-155]<\/h6>\n<h6>HAN, Byung-Chul. <strong>Sociedade do Cansa\u00e7o<\/strong>. Petr\u00f3polis: Editora Vozes, 2017.<\/h6>\n<h6>HOBSBAWM, Eric J. <strong>Era dos Extremos: o breve s\u00e9culo XX (1914-1991)<\/strong>. S\u00e3o<\/h6>\n<h6>Paulo: Companhia das Letras, 1995.<\/h6>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Yago Ramalho Silva[2] No cerne das mudan\u00e7as sociais, pol\u00edticas e culturais advindas com o fim da era de ouro, visualiza-se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":383,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_uag_custom_page_level_css":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[22,522,515,523,516,23,184,283,526,525,518,524,427,519,520,521,517,17,527],"class_list":["post-1159","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-publicacoes","tag-artigo","tag-bong-joon-ho","tag-condicao-humana","tag-contemporaneidade","tag-debate-contemporaneo","tag-economia","tag-economia-mundial","tag-economia-ufes","tag-hobsbawn","tag-homem-contemporaneo","tag-lascaux","tag-liberalismo","tag-painel-dos-estudantes","tag-parasita","tag-parasite","tag-raskolnikov","tag-sociedade-contemporanea","tag-ufes","tag-yago-ramalho"],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false},"uagb_author_info":{"display_name":"Luiz Carlos Santos","author_link":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/author\/luiz_carlos-santos-de-jesus\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Yago Ramalho Silva[2] No cerne das mudan\u00e7as sociais, pol\u00edticas e culturais advindas com o fim da era de ouro, visualiza-se [&hellip;]","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1159","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/wp-json\/wp\/v2\/users\/383"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1159"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1159\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1179,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1159\/revisions\/1179"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1159"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1159"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1159"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}