{"id":607,"date":"2020-04-20T14:44:37","date_gmt":"2020-04-20T17:44:37","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/?p=607"},"modified":"2025-10-13T13:10:04","modified_gmt":"2025-10-13T16:10:04","slug":"607","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/607\/","title":{"rendered":"PANDEMIA E PRECARIEDADE: A NATURALIZA\u00c7\u00c3O DOS DRAMAS SOCIAIS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-498\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2020\/04\/nota.png\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"146\" \/><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">SUBGRUPO EMPREGOS E SAL\u00c1RIOS\u00a0<strong>[1]<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Nas \u00faltimas semanas, a crise sanit\u00e1ria aberta pela dissemina\u00e7\u00e3o do COVID-19 reeditou um tempor\u00e1rio consenso entre economistas em torno da defesa do aumento do gasto p\u00fablico. No Brasil n\u00e3o \u00e9 diferente, ortodoxos e heterodoxos ressuscitam o velho keynesianismo e defendem o aumento tempor\u00e1rio do d\u00e9ficit p\u00fablico para salvar vidas e evitar um colapso econ\u00f4mico. A despeito do posterior dissenso que se abrir\u00e1 <\/span><span style=\"font-weight: 400\">t\u00e3o logo o debate sobre a velocidade do ajuste fiscal p\u00f3s-crise voltar ao centro da agenda, neste momento, o<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> que volta \u00e0 cena \u00e9 o protagonismo da atua\u00e7\u00e3o estatal, elemento fundamental para garantir os aportes necess\u00e1rios ao sistema de sa\u00fade e o fluxo de renda na economia. A gravidade da crise, no entanto, e o teor dos esfor\u00e7os que se v\u00eam exigindo dos Estados Nacionais indicam que um ef\u00eamero <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">consenso keynesiano<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, nos moldes da resposta \u00e0 crise de 2008, n\u00e3o ser\u00e1 suficiente.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Neste cen\u00e1rio, em que s\u00e3o legitimadas a\u00e7\u00f5es estatais t\u00edpicas de contextos de guerra, as posi\u00e7\u00f5es do governo brasileiro se mostram descabidas, tanto pelo sentido quanto pela excessiva parcim\u00f4nia nas a\u00e7\u00f5es. Tais medidas e posicionamentos que discutiremos mais detidamente abaixo, na verdade refletem a vers\u00e3o mais escancarada da sociabilidade neoliberal, expondo milhares de indiv\u00edduos aos riscos incalcul\u00e1veis que a atual pandemia vem produzindo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Neste sentido, em 18 de mar\u00e7o, quando alguns estados j\u00e1 recomendavam o isolamento social, o governo federal sinalizou com a concess\u00e3o de uma renda b\u00e1sica de R$ 200,00 aos trabalhadores informais. Ap\u00f3s discuss\u00e3o no Parlamento, seu valor foi ampliado para R$ 600,00, incluindo o direito \u00e0s mulheres chefes de fam\u00edlia de R$ 1.200,00. N\u00e3o bastasse as enormes dificuldades reais e artificiais para operacionalizar a entrega do recurso \u00e0s fam\u00edlias, seu valor \u00e9 insuficiente, tendo em vista que levar\u00e1 a uma pauperiza\u00e7\u00e3o ainda maior dos trabalhadores informais. A perda de renda destes trabalhadores fica evidenciada quando a renda b\u00e1sica estabelecida pelo governo \u00e9 contraposta aos rendimentos m\u00e9dios destes trabalhadores antes da crise. De acordo com a PNAD Cont\u00ednua, o segmento com a menor renda m\u00e9dia entre os informais s\u00e3o as trabalhadoras dom\u00e9sticas sem carteira assinada, que receberam em m\u00e9dia R$ 763,00 mensais no quarto trimestre de 2019. Os trabalhadores do setor privado sem registro recebiam, no mesmo per\u00edodo, em m\u00e9dia R$ 1.442,00 por m\u00eas e os trabalhadores por conta pr\u00f3pria tiveram um rendimento m\u00e9dio mensal de R$ 1.711,00. De maneira geral, em termos percentuais, as perdas podem variar de 21% a quase 65% dos rendimentos m\u00e9dios. Essa redu\u00e7\u00e3o direta na renda n\u00e3o apenas inviabiliza a condi\u00e7\u00e3o destes trabalhadores seguirem as recomenda\u00e7\u00f5es de isolamento social, como tende a reduzir o poder de consumo dessa parcela da popula\u00e7\u00e3o, agravando a crise econ\u00f4mica durante e ap\u00f3s o per\u00edodo da pandemia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Se a pol\u00edtica estatal voltada para os trabalhadores informais \u00e9 insuficiente, as solu\u00e7\u00f5es apresentadas para manuten\u00e7\u00e3o dos empregos formais tendem a ampliar ainda mais o problema. As medidas provis\u00f3rias 927\/2020 e 936\/2020, publicadas em 22 de mar\u00e7o e 1\u00ba de abril, s\u00e3o claramente orientadas pelos interesses empresariais, reafirmando a disposi\u00e7\u00e3o do governo em dobrar a aposta nas solu\u00e7\u00f5es pr\u00f3-mercado. Neste sentido, elas seguem a mesma premissa da reforma trabalhista e nivelam por baixo as necessidades dos trabalhadores brasileiros.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mesmo com a revoga\u00e7\u00e3o do artigo 18 da MP 927, que autorizava a suspens\u00e3o do contrato de trabalho por quatro meses independente do pagamento de sal\u00e1rios, foi mantida a l\u00f3gica de alargar o poder dos empregadores determinarem os termos do contrato de trabalho, com uma aproxima\u00e7\u00e3o direta entre ambas as partes. Essa medida autoriza a redu\u00e7\u00e3o da jornada em at\u00e9 25% com correspondente redu\u00e7\u00e3o salarial; amplia possibilidades do uso do teletrabalho; autoriza o banco de horas, negociado individual ou coletivamente, com compensa\u00e7\u00e3o em at\u00e9 dezoito meses, bem como a antecipa\u00e7\u00e3o das f\u00e9rias (sem assegurar a antecipa\u00e7\u00e3o do adicional) e a concess\u00e3o de f\u00e9rias coletivas, de forma unilateral, a ser comunicada em apenas at\u00e9 48 horas de anteced\u00eancia; suspende o pagamento do Fundo de Garantia por Tempo de Servi\u00e7o (FGTS) entre abril e junho, sem corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria ap\u00f3s o per\u00edodo; libera os empregadores das exig\u00eancias quanto \u00e0s normas de sa\u00fade e seguran\u00e7a no trabalho e n\u00e3o reconhece o adoecimento no trabalho como doen\u00e7a ocupacional, salvo se comprovado o nexo causal, justo quando h\u00e1 maior risco de cont\u00e1gio<strong>[2]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Atendendo \u00e0 mesma l\u00f3gica, a MP 936, lan\u00e7a o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Programa Emergencial de Manuten\u00e7\u00e3o do Emprego e da Renda. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Ela introduz a recomposi\u00e7\u00e3o salarial compensat\u00f3ria da redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho com correspondente redu\u00e7\u00e3o salarial, tendo como refer\u00eancia o valor do seguro desemprego e n\u00e3o a folha de pagamentos. A recomposi\u00e7\u00e3o \u00e9 insuficiente pois n\u00e3o evitar\u00e1 uma contra\u00e7\u00e3o significativa da renda dos trabalhadores, implicando em retra\u00e7\u00e3o da massa salarial<strong>[3]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O momento requer que se amplie a legisla\u00e7\u00e3o para proteger os trabalhadores, e n\u00e3o para esvaziar direitos em nome de uma suposta manuten\u00e7\u00e3o do emprego. A cren\u00e7a na flexibiliza\u00e7\u00e3o da lei, entretanto, invalida o debate em torno de medidas emergenciais e eficazes para enfrentar a crise. \u00c9 isso que a aprova\u00e7\u00e3o da MP 905, tamb\u00e9m chamada de \u201cMP do Contrato verde e amarelo\u201d, na C\u00e2mara dos Deputados em 14 de abril demonstra. Essa medida, que foi encaminhada pelo governo em novembro de 2019, expira no pr\u00f3ximo dia 20\/04, se n\u00e3o for aprovada no Senado e sancionada pelo presidente antes desta data. Ela reduz encargos para patr\u00f5es que contratarem jovens de 18 a 29 anos, no primeiro emprego, e para pessoas acima de 55 anos que estavam fora do mercado formal. A medida rebaixa o patamar de direitos (como a redu\u00e7\u00e3o da multa do FGTS em caso de demiss\u00e3o de 40% para 20% e a aus\u00eancia de contribui\u00e7\u00e3o patronal ao INSS) em nome da cria\u00e7\u00e3o de vagas que pagam at\u00e9 R$ 1.567,50. Mesmo que se ignore a cr\u00edtica \u00e0 ideia de que retirar direitos cria empregos, o momento n\u00e3o exige que se legisle sobre formas mais flex\u00edveis de contratar, mas sobre formas de impedir que se dispense trabalhadores.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A l\u00f3gica neoliberal das medidas anunciadas pelo governo se evidencia na estrat\u00e9gia de apostar em mais flexibiliza\u00e7\u00e3o para tentar enfrentar a crise. Estrat\u00e9gia essa que n\u00e3o vinha dando certo, nem mesmo, no momento anterior \u00e0 pandemia. Ao contr\u00e1rio, o que o governo est\u00e1 vislumbrando para atenuar os efeitos da crise s\u00e3o medidas incompat\u00edveis com a prec\u00e1ria realidade do mercado de trabalho brasileiro, marcada por grande contingente de trabalhadores informais, alta rotatividade e baixos sal\u00e1rios.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Nem mesmo o crescimento econ\u00f4mico do in\u00edcio da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI foi capaz de reverter as caracter\u00edsticas hist\u00f3ricas do mercado de trabalho. Apesar do crescimento econ\u00f4mico ocorrido at\u00e9 2015 ter contribu\u00eddo para a queda do desemprego e aumento dos postos de trabalho formais, o grande contingente de trabalhadores informais e as m\u00faltiplas situa\u00e7\u00f5es de heterogeneidade da situa\u00e7\u00e3o de trabalho dentro da rela\u00e7\u00e3o formal impuseram a l\u00f3gica de manuten\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de precariedade. O aumento exponencial do contingente de trabalhadores terceirizados e microempreendedores individuais s\u00e3o exemplos nessa dire\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Entretanto, o quadro hoje \u00e9 ainda mais dram\u00e1tico. Desde 2015, a desestrutura\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho brasileiro tem se aprofundado rapidamente, o que indica que a crise aberta pelo Covid-19 s\u00f3 veio acentuar uma situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 devastadora. A partir desse ano, a recess\u00e3o trouxe consequ\u00eancias, elevando o n\u00famero de pessoas desempregadas e ocupadas em posi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias. Mesmo com o t\u00edmido crescimento do Produto Interno Bruto depois de 2016, a economia n\u00e3o foi capaz de gerar os postos de trabalho que foram perdidos. Os dados mais recentes da taxa de desocupa\u00e7\u00e3o, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), mostram que ela se encontra em 11% da for\u00e7a de trabalho, o que representa 11,6 milh\u00f5es de pessoas que buscam por uma ocupa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds e n\u00e3o encontram. Nos anos recentes, o maior n\u00famero da s\u00e9rie hist\u00f3rica foi alcan\u00e7ado em 2017, com 13,7% representando cerca de 13 milh\u00f5es de pessoas, como se v\u00ea no gr\u00e1fico abaixo. Mesmo esta suave tend\u00eancia de redu\u00e7\u00e3o da desocupa\u00e7\u00e3o desde 2017 se deve menos ao crescimento econ\u00f4mico apresentado no per\u00edodo do que \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do \u00edndice de informalidade no pa\u00eds, o que na verdade mostra uma perda massiva<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">da qualidade dos empregos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Taxa de desocupa\u00e7\u00e3o trimestral (%)<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<img decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-616\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2020\/04\/Screenshot_5.png\" alt=\"\" width=\"553\" height=\"292\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica. Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria.<\/span><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Apresentada como prerrogativa para reverter esse quadro de desemprego e crescente informalidade, a Reforma Trabalhista foi aprovada em novembro de 2017, ainda no governo de Michel Temer. Entretanto, de l\u00e1 para c\u00e1, o que se tem visto \u00e9 um avan\u00e7o da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, com esvaziamento do patamar de prote\u00e7\u00e3o e com a eleva\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o que se encontra subocupada e na informalidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">No gr\u00e1fico abaixo, tem-se que a popula\u00e7\u00e3o subutilizada, isto \u00e9, aqueles que est\u00e3o desocupados, subocupados ou na for\u00e7a de trabalho potencial, apresenta uma tend\u00eancia de crescimento desde a aprova\u00e7\u00e3o da reforma. No \u00faltimo trimestre de 2019, a taxa fechou em 23%, sendo o menor resultado para o ano, mas que representa, ainda, mais de 20 milh\u00f5es de pessoas. Esse dado nos ajuda a entender como se comporta o mercado de trabalho, uma vez que traz evid\u00eancias do avan\u00e7o da precariza\u00e7\u00e3o. No \u00faltimo trimestre de 2019, a taxa de subocupa\u00e7\u00e3o por insufici\u00eancia de horas trabalhadas foi 7,9%, um n\u00famero que representa quase 7,5 milh\u00f5es de pessoas que gostariam de aumentar sua jornada de trabalho e, assim, obter uma renda melhor.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Taxa de subutiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho (%)<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-615\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2020\/04\/Screenshot_4.png\" alt=\"\" width=\"587\" height=\"301\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica. Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria.<\/span><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Com base nestes n\u00fameros n\u00e3o parece haver argumentos para que o governo continue apostando na flexibiliza\u00e7\u00e3o como estrat\u00e9gia para a manuten\u00e7\u00e3o de empregos, uma vez que a mesma n\u00e3o surtiu os efeitos esperados nem mesmo nas condi\u00e7\u00f5es anteriores \u00e0 presente crise. Como dito, no momento anterior \u00e0 pandemia, a estabilidade na tend\u00eancia de queda da taxa de desocupa\u00e7\u00e3o foi proporcionada pela eleva\u00e7\u00e3o do n\u00famero de trabalhadores informais, isto \u00e9, aqueles indiv\u00edduos que n\u00e3o possuem um v\u00ednculo empregat\u00edcio, carteira de trabalho assinada, nem qualquer empreendimento formalizado. Hoje mais de 40 milh\u00f5es est\u00e3o nessa situa\u00e7\u00e3o e, portanto, encontram-se desprotegidos socialmente. Como j\u00e1 foi mencionado acima, o t\u00edmido apoio financeiro de R$ 600,00 por tr\u00eas meses n\u00e3o conseguir\u00e1 resolver a situa\u00e7\u00e3o destas pessoas, permitindo que se amplie sua vulnerabilidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: center\"><strong>N\u00fameros de trabalhadores informais (2018-2019)<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-613\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2020\/04\/Screenshot_2.png\" alt=\"\" width=\"592\" height=\"276\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: left\"><span style=\"font-weight: 400\">Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica. Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Trabalhadores informais corresponde a soma dos trabalhadores do setor p\u00fablico sem carteira assinada, do setor privado sem carteira assinada, dom\u00e9sticos sem carteira assinada, por conta pr\u00f3pria e trabalhador auxiliar familiar.<\/span><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A l\u00f3gica neoliberal de reprodu\u00e7\u00e3o da sociedade e de sua sociabilidade<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, personificada de forma ainda mais clara no atual governo, se materializa no mercado de trabalho <\/span><span style=\"font-weight: 400\">atrav\u00e9s dessa precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es laborais. Seu n\u00facleo est\u00e1 na concep\u00e7\u00e3o de que a sociedade \u00e9 constitu\u00edda por indiv\u00edduos, cuja sobreviv\u00eancia deve ser garantida por seus pr\u00f3prios meios. Dentro desta l\u00f3gica, qualquer interfer\u00eancia externa ou coletivista tende a desarranjar o sistema econ\u00f4mico e torn\u00e1-lo menos eficiente. Neste sentido \u00e9 que institui\u00e7\u00f5es de representa\u00e7\u00e3o trabalhistas, como os sindicatos, j\u00e1 vinham sendo fragilizadas por reformas como a de 2017. A pr\u00f3pria MP 936, citada anteriormente, que dentre outras coisas, possibilita as a\u00e7\u00f5es diretas do empregador para com o trabalhador sem obrigar o interm\u00e9dio de entidades representativas, segue nesta l\u00f3gica.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Nesse sentido, \u00e9 evidente que quem sofrer\u00e1 mais com a atual crise \u00e9 justamente essa parcela da popula\u00e7\u00e3o que depende de uma renda vari\u00e1vel e que n\u00e3o est\u00e1 amplamente coberta por uma tela de prote\u00e7\u00e3o social, como os trabalhadores por conta pr\u00f3pria e microempreendedores individuais (MEI). Esta parcela da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se tornou vulner\u00e1vel com a crise, pois a precariedade de sua condi\u00e7\u00e3o j\u00e1 existia, com a diferen\u00e7a de que ela aparecia na forma de dramas pessoais, que eram aparentemente dilu\u00eddos pelo contexto de sucessos e fracassos, t\u00e3o exaltado pela l\u00f3gica neoliberal. O efeito mais imediato da crise no mercado de trabalho \u00e9 escancarar esta vulnerabilidade, como se do dia para a noite todos passassem a depender de um aparato social m\u00ednimo para sua sobreviv\u00eancia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O vultoso n\u00famero de trabalhadores por conta pr\u00f3pria, 24 milh\u00f5es de brasileiros, de acordo com os dados da PNAD-Cont\u00ednua, referente ao \u00faltimo semestre de 2019, torna a situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel. Esses trabalhadores recebiam em m\u00e9dia pouco mais de R$ 1.700,00. S\u00e3o em geral aut\u00f4nomos que fazem bicos, motoristas e entregadores de aplicativos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">delivery<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, vendedores ambulantes, prestadores de servi\u00e7os, dentre outros, que, neste momento, veem as possibilidades de ganho de renda severamente reduzidas devido \u00e0 pandemia. Ou, por outro lado, a eles n\u00e3o \u00e9 garantido o direito ao isolamento, pois sem renda precisam trabalhar e se expor ao risco.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Trabalhadores por conta pr\u00f3pria (2018-2019)<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-618\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2020\/04\/Screenshot_6.png\" alt=\"\" width=\"581\" height=\"263\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica. Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria.<\/span><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Diante do dram\u00e1tico quadro apresentado, fica evidenciado como a precariedade do mercado de trabalho brasileiro vai muito al\u00e9m do contexto da crise provocada pela pandemia do coronav\u00edrus, em decorr\u00eancia da aus\u00eancia de prote\u00e7\u00e3o social para quase metade da popula\u00e7\u00e3o ocupada e do aumento da desprote\u00e7\u00e3o de outra parte dela. Como visto esta situa\u00e7\u00e3o tende a se acentuar com a atual crise, pois o n\u00famero de pessoas desocupadas ir\u00e1 aumentar substancialmente, j\u00e1 que tanto aqueles que est\u00e3o em empregos formais, quanto os informais poder\u00e3o perder seus postos de trabalho e com isso suas principais fontes de renda.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Nesse sentido, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a atual crise levar\u00e1 problemas sociais cr\u00f4nicos ao extremo, dentre outras coisas, justamente por conta das pol\u00edticas de austeridade fiscal que brecaram o investimento p\u00fablico e as possibilidades de crescimento e desenvolvimento econ\u00f4mico.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel, entretanto, aceitar a solu\u00e7\u00e3o passiva de uma interven\u00e7\u00e3o estatal pontual, quase cir\u00fargica, como sendo capaz de resolver os problemas para que voltemos \u00e0 \u201cnormalidade\u201d anterior ou mesmo retornar ao velho consenso keynesiano. A gravidade da crise e seus desdobramentos s\u00f3 podem ser entendidos em sua totalidade se conseguirmos perceber que o contexto anterior jamais foi de normalidade. O temor do caos social, do desamparo econ\u00f4mico, do desemprego, da falta de m\u00e9dicos e leitos, de mortes em massa n\u00e3o \u00e9 uma novidade desta crise, mas sim a realidade cotidiana de milhares de pessoas. Neste sentido, a crise \u00e9 apenas uma gota d\u2019\u00e1gua, talvez a que faltava para percebermos a anormalidade do mundo em que viv\u00edamos. Por isso, n\u00e3o basta nos contrapormos aos discursos daqueles que parecem naturalizar as mortes em nome da economia. Mais do que isso, \u00e9 necess\u00e1rio trazer ao debate novos horizontes que nos permitam questionar o quanto n\u00f3s, como sociedade, j\u00e1 naturalizamos tantos dramas sociais.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<h5><strong>[1] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">Contribu\u00edram diretamente para a reda\u00e7\u00e3o desta nota Ana Paula Colombi, Gisele Furieri, Otavio Luis Barbosa e Rafael Moraes.<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[2] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">Ver Marcelo Manzano e Pietro Borsari. Acesso em 06\/04\/2020.<br \/>\nDispon\u00edvel em:<\/span><a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/2020\/04\/03\/reducao-salarial-proposta-pelo-governo-empurrara-pais-para-a-depressao\/\"><span style=\"font-weight: 400\"> https:\/\/fpabramo.org.br\/2020\/04\/03\/reducao-salarial-proposta-pelo-governo-empurrara-pais-para-a-depressao\/<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> e Cecon (2020). Impactos da MP 936\/2020 no rendimento dos trabalhadores e na massa salarial.<br \/>\nDispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"http:\/\/www.eco.unicamp.br\/index.php\/noticias\/2235-nota-cecon-impactos-da-mp-936-2020-no-rendimento-dos-trabalhadores-e-na-massa-salarial\"><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/www.eco.unicamp.br\/index.php\/noticias\/2235-nota-cecon-impactos-da-mp-936-2020-no-rendimento-dos-trabalhadores-e-na-massa-salarial<\/span><\/a><\/h5>\n<h5><strong>[3] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">CESIT. Emprego, trabalho e renda para garantir o direito \u00e0 vida. Acesso em 08\/04\/2020.<br \/>\nDispon\u00edvel em:<\/span><a href=\"http:\/\/www.cesit.net.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Versa%CC%83o.final_.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">http:\/\/www.cesit.net.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Versa%CC%83o.final_.pdf<\/span><\/a><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SUBGRUPO EMPREGOS E SAL\u00c1RIOS\u00a0[1] Nas \u00faltimas semanas, a crise sanit\u00e1ria aberta pela dissemina\u00e7\u00e3o do COVID-19 reeditou um tempor\u00e1rio consenso entre 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