{"id":726,"date":"2020-05-06T19:07:25","date_gmt":"2020-05-06T22:07:25","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/?p=726"},"modified":"2025-10-13T13:35:31","modified_gmt":"2025-10-13T16:35:31","slug":"o-neoliberalismo-como-ideologia-e-politica-economica-nao-devera-entrar-em-colapso-entrevista-com-paulo-nakatani","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/o-neoliberalismo-como-ideologia-e-politica-economica-nao-devera-entrar-em-colapso-entrevista-com-paulo-nakatani\/","title":{"rendered":"\u201cO neoliberalismo como ideologia e pol\u00edtica econ\u00f4mica n\u00e3o dever\u00e1 entrar em colapso\u201d. ENTREVISTA COM PAULO NAKATANI"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n<h5><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-854\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2020\/06\/Debate.png\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"146\"><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\"><strong>Por Gustavo Mello e Henrique Braga<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Professor titular do Departamento de Economia da UFES, Paulo Nakatani comenta, na entrevista a seguir, sobre os desdobramentos socioecon\u00f4micos da crise da sociedade capitalista, acelerada pela pandemia do COVID-19. Em especial, o professor chama a aten\u00e7\u00e3o, por um lado, para as medidas \u201cdraconianas\u201d, que j\u00e1 estavam em curso e ser\u00e3o intensificadas, de piora das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, da redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios e do flagelo do desemprego.&nbsp; Por outro, para o papel do Estado que atua para salvar a acumula\u00e7\u00e3o de capital, explicitando sua \u201cunidade org\u00e2nica\u201d com esse \u00faltimo.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify\">\n<li>\n<h5><b> \u00c0 luz das contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo contempor\u00e2neo gostar\u00edamos que voc\u00ea analisasse a rela\u00e7\u00e3o entre a pandemia de Covid-19 e a profunda crise econ\u00f4mica mundial que ela inaugura.<\/b><\/h5>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Essa pandemia surgiu em um contexto em que o capitalismo contempor\u00e2neo se encontra mundializado, em um est\u00e1gio de superacumula\u00e7\u00e3o de capital que se concentra na esfera financeira e acumulando-se principalmente em diferentes formas fict\u00edcias. Al\u00e9m disso, a concentra\u00e7\u00e3o da riqueza e da renda em escala mundial, e particularmente no Brasil, chegou a um est\u00e1gio extremamente elevado, constituindo sociedades nas quais uma parcela importante de suas popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o desnecess\u00e1rias, sup\u00e9rfluas, para a reprodu\u00e7\u00e3o do capital, tanto como for\u00e7a de trabalho quanto como mercado consumidor. Temos, ent\u00e3o, como consequ\u00eancia, a enorme press\u00e3o ao aumento da taxa de explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, pela desregula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, sua precariza\u00e7\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, das pol\u00edticas e programas sociais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A crise de 2007-2008 apareceu como se fosse uma crise financeira, com a desvaloriza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a do capital monet\u00e1rio portador de juros em suas diferentes formas fict\u00edcias. Mas, a rigor, teve seu fundamento no mercado imobili\u00e1rio (constru\u00e7\u00e3o e venda de novos im\u00f3veis) dos Estados Unidos, quando as fam\u00edlias mais pobres n\u00e3o conseguiram mais manter o pagamento das presta\u00e7\u00f5es dos financiamentos que haviam contratado, devido ao aumento da taxa de juros. A resposta \u00e0 crise foi uma brutal interven\u00e7\u00e3o do Estado atrav\u00e9s dos bancos centrais, o Federal Reserve nos EUA, o Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra, o Banco do Jap\u00e3o, que se destacaram pela pol\u00edtica de facilidades monet\u00e1rias (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">quantitative easing<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">) com a maci\u00e7a cria\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria para o resgate de capitais particulares, bancos e empresas diversas e a redu\u00e7\u00e3o das taxas b\u00e1sicas de juros, geralmente negativas em termos reais. Essa interven\u00e7\u00e3o possibilitou a retomada de atividades produtivas e a recupera\u00e7\u00e3o das formas fict\u00edcias do capital monet\u00e1rio portador de juros, em poucos anos. Um dos resultados foi a convers\u00e3o de parcelas do capital fict\u00edcio na forma da d\u00edvida p\u00fablica. Os impactos dessa crise espalharam-se por todo o mundo e se estenderam no tempo, e algumas economias se mantiveram, em m\u00e9dia, relativamente estagnadas, at\u00e9 este ano de 2020. Sem contar que, nos pa\u00edses mais avan\u00e7ados, a reprodu\u00e7\u00e3o do capital em geral estava necessitando de uma nova rodada de desvaloriza\u00e7\u00e3o, que vinha sendo anunciada por&nbsp; muitos estudiosos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A eclos\u00e3o da pandemia de Covid-19 surgiu nesse contexto de uma nova crise potencial que ainda estava latente, adicionando novas vari\u00e1veis.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A primeira vari\u00e1vel foi a busca de manuten\u00e7\u00e3o da legitimidade dos governos que deviam, ou deveriam, atender \u00e0s necessidades sanit\u00e1rias e de sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o, pois, em termos concretos, se refere \u00e0 pr\u00f3pria possibilidade de morte de centenas e milhares de pessoas. Para tanto, os diferentes governos, em diferentes momentos, decretaram o confinamento mais ou menos maci\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o, e alguns mais outros menos, o controle e o bloqueio de viagens, tanto internas quanto internacionais. Em primeiro lugar, esta medida interrompeu o fluxo e o movimento do capital nas atividades de com\u00e9rcio, de servi\u00e7os n\u00e3o essenciais e parte da produ\u00e7\u00e3o material. Em segundo, bloqueou a circula\u00e7\u00e3o do capital em suas formas autonomizadas de capital comercial, capital monet\u00e1rio e capital produtivo. Este bloqueio, tem como consequ\u00eancia a suspens\u00e3o de atividades de produ\u00e7\u00e3o de valor e mais valia, de realiza\u00e7\u00e3o, ou venda, das mercadorias produzidas e o desemprego em massa dos trabalhadores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A segunda vari\u00e1vel foi a demonstra\u00e7\u00e3o efetiva de que as sociedades submetidas ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista n\u00e3o t\u00eam como objetivo as necessidades humanas, mas a pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o do capital. Se aceitamos que as determina\u00e7\u00f5es de confinamento s\u00e3o mais adequadas \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das mortes, uma parcela daqueles que s\u00e3o contr\u00e1rios est\u00e3o se manifestando por todas as partes. O retorno dos trabalhadores para a produ\u00e7\u00e3o de valor e mais valia \u00e9 mais importante do que a vida de uma parte da popula\u00e7\u00e3o.<br><\/span><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify\" start=\"2\">\n<li>\n<h5><b> Diante do colapso da produ\u00e7\u00e3o e dos mercados financeiros pelo mundo afora, criou-se um pretenso consenso em torno da necessidade da interven\u00e7\u00e3o do Estado, com vistas a minimizar os efeitos da crise e reduzir sua dura\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea avalia o sentido geral das medidas estatais que est\u00e3o sendo implementadas? Com base na experi\u00eancia hist\u00f3rica recente \u00e9 poss\u00edvel especular sobre seus efeitos de curto e m\u00e9dio prazo?<\/b><\/h5>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O debate a favor ou contr\u00e1rio \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia refere-se ao campo da economia burguesa, entre ortodoxos e heterodoxos. Seu fundamento \u00e9 a separa\u00e7\u00e3o entre a esfera da economia e da pol\u00edtica ou do p\u00fablico e privado. Para os marxistas, Estado e Capital constituem uma unidade org\u00e2nica e n\u00e3o tem sentido discutir se a interven\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria ou n\u00e3o, a n\u00e3o ser ao n\u00edvel da apar\u00eancia. A g\u00eanese das diferentes forma\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais capitalistas, a forma\u00e7\u00e3o do Estado capitalista e o desenvolvimento das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o e das classes sociais fundamentais ocorreram ao mesmo tempo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">As a\u00e7\u00f5es estatais sobre as unidades particulares de capital, no curso das crises, foram sendo desenvolvidas historicamente, com teorias, modelos e instrumentos, em particular a partir da grande depress\u00e3o dos anos 1930. Assim, as medidas de pol\u00edtica econ\u00f4mica resolvem em parte as contradi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias ao capital em geral atrav\u00e9s de medidas voltadas a certas unidades particulares do capital, mas engendram novas contradi\u00e7\u00f5es. Dessa maneira, no per\u00edodo entre o final da Segunda Guerra Mundial e a d\u00e9cada de 1970, conhecido como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">os anos dourados<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, o sistema mundial foi relativamente regulado e controlado pelo Estado. Foi um per\u00edodo tamb\u00e9m chamado de economia mista, em que aparentemente as crises haviam sido superadas. Entretanto, o capitalismo n\u00e3o deixou de funcionar de forma c\u00edclica, e as elevadas taxas de crescimento deveram-se fundamentalmente \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o dos capitais ap\u00f3s a maci\u00e7a destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos capitais e da riqueza acumulada antes da guerra, principalmente da Europa e Jap\u00e3o, e \u00e0 gigantesca destrui\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">As medidas de pol\u00edtica econ\u00f4mica adotas na crise atual s\u00e3o condicionadas pelas condi\u00e7\u00f5es atuais da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, al\u00e9m dela estar sendo diagnosticada como uma crise sanit\u00e1ria. Por um lado, observamos novamente a a\u00e7\u00e3o estatal voltada para o sistema de cr\u00e9dito, em particular a cria\u00e7\u00e3o de moeda, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">quantitative easing<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, para reduzir a destrui\u00e7\u00e3o do capital em suas formas fict\u00edcias, o mercado acion\u00e1rio e de d\u00edvidas privadas, e para preencher os espa\u00e7os na circula\u00e7\u00e3o dos capitais particulares, atrav\u00e9s do cr\u00e9dito a taxas de juros reduzidas ou subsidiadas e da manuten\u00e7\u00e3o de uma parte da renda dos trabalhadores. Por outro lado, a caracteriza\u00e7\u00e3o da crise como uma crise sanit\u00e1ria, traz como fator de legitima\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">a suposta ajuda aos pobres<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">No curto prazo, as medidas de pol\u00edtica econ\u00f4mica dever\u00e3o amenizar o impacto da crise do capital. Deve reduzir a destrui\u00e7\u00e3o das unidades particulares de capital e amenizar os efeitos dos bloqueios e supress\u00e3o de parte das cadeias produtivas. No longo prazo, tanto a concentra\u00e7\u00e3o do capital anteriormente existente, quanto as desigualdades na distribui\u00e7\u00e3o da riqueza e da renda n\u00e3o ser\u00e3o reduzidas, ao contr\u00e1rio pode tornar-se ainda mais aguda. Isso porque a gigantescas unidades particulares de capital, as grandes corpora\u00e7\u00f5es, t\u00eam recursos acumulados que n\u00e3o s\u00f3 permitem que se mantenham como tendem a receber mais benef\u00edcios das pol\u00edticas econ\u00f4micas. Mas, as micro, pequenas e m\u00e9dias unidades de capital dever\u00e3o sofrer mais intensamente os impactos da crise, muitas destas unidades dever\u00e3o desaparecer ou passar por um novo processo de centraliza\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/span><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify\" start=\"3\">\n<li>\n<h5><b> O que essas medidas estatais revelam sobre a rela\u00e7\u00e3o entre Estado e economia?<\/b><\/h5>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Elas revelam a unidade org\u00e2nica entre Estado e Capital. Revelam, igualmente, que a gest\u00e3o do capital e da for\u00e7a de trabalho s\u00e3o realizadas por grupos e institui\u00e7\u00f5es estatais que n\u00e3o t\u00eam conhecimento das determina\u00e7\u00f5es fundamentais do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o. Mas essas determina\u00e7\u00f5es fundamentais aparecem mediadas pelo processo hist\u00f3rico que produziu em cada sociedade uma rela\u00e7\u00e3o conjuntural de for\u00e7as entre as classes sociais e pelas diferentes formas de comportamento, sejam elas solid\u00e1rias ou ego\u00edstas. Esses comportamentos aparecem, tanto no tratamento m\u00e9dico imediato da parcela da popula\u00e7\u00e3o infectada pelo v\u00edrus, quanto nas mais diversas a\u00e7\u00f5es de apoio e distribui\u00e7\u00e3o de doa\u00e7\u00f5es aos mais necessitados. Aparecem, tamb\u00e9m, no comportamento da parcela que defende seu capital particular, suas rendas individuais e as formas e padr\u00f5es de vida mais sofisticados da sociedade de consumo capitalista.<\/span><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify\" start=\"4\">\n<li>\n<h5><b> Voc\u00ea considera que estamos diante do colapso do neoliberalismo? E, nesse caso, parece plaus\u00edvel uma esp\u00e9cie de revitaliza\u00e7\u00e3o do keynesianismo e do Estado de bem-estar social?<\/b><\/h5>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O neoliberalismo como ideologia e pol\u00edtica econ\u00f4mica n\u00e3o dever\u00e1 entrar em colapso. Isso porque respondem \u00e0s necessidades do capital no est\u00e1gio atual do capitalismo. O neoliberalismo n\u00e3o significa uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 chamada interven\u00e7\u00e3o estatal, sempre que necess\u00e1rio, h\u00e1 interven\u00e7\u00e3o estatal para salvar capitais particulares em momentos de crise. O neoliberalismo significa que a forma e os instrumentos de interven\u00e7\u00e3o foram modificados. As desregulamenta\u00e7\u00f5es, chamadas de tr\u00eas D (desregulamenta\u00e7\u00e3o, desintermedia\u00e7\u00e3o e descompartimentaliza\u00e7\u00e3o) exigiram uma profunda e feroz interven\u00e7\u00e3o estatal, que n\u00e3o ser\u00e3o revertidas, pois significariam amarras e limites \u00e0 explora\u00e7\u00e3o capitalista.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O keynesianismo e o Estado de bem-estar social foram desenvolvidos em um momento particular da hist\u00f3ria, a reconstru\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra na segunda metade do s\u00e9culo XX. Por um lado, pelas necessidades da pr\u00f3pria acumula\u00e7\u00e3o de capital e por outro, pela aguda luta de classes no p\u00f3s-guerra, combinada com a necessidade de recupera\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho destru\u00edda durante a guerra. Ao contr\u00e1rio do que foi muito disseminado, os <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">sucessos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> dos anos dourados do p\u00f3s-guerra n\u00e3o foi, a rigor, resultado de pol\u00edticas econ\u00f4micas keynesianas, mas \u00e0 retomada da acumula\u00e7\u00e3o de capital determinado pelas condi\u00e7\u00f5es concretas da reconstru\u00e7\u00e3o no per\u00edodo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Para o capital, o bem-estar das classes trabalhadoras n\u00e3o tem nenhuma import\u00e2ncia, salvo quando, no plano concreto, as condi\u00e7\u00f5es de vida destas classes possam leva-las at\u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o de desobedi\u00eancia civil e insurrei\u00e7\u00e3o. No momento atual, as fra\u00e7\u00f5es de classe mais extremadas defendem condi\u00e7\u00f5es para acabar com o bem-estar das classes trabalhadoras, isso quando n\u00e3o defendem pol\u00edticas para extermin\u00e1-las.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A ideia de uma revitaliza\u00e7\u00e3o do keynesianismo encontra muitos problemas. \u00c9 comum atribuir esse adjetivo \u00e0 uma pol\u00edtica de gastos p\u00fablicos, com d\u00e9ficits or\u00e7ament\u00e1rios, que trariam benef\u00edcios \u00e0 classe trabalhadora. Considero que esse ponto de vista \u00e9 um equ\u00edvoco. Os diferentes governos, nas condi\u00e7\u00f5es atuais da crise do capital, agu\u00e7ada pelo novo coronav\u00edrus, est\u00e3o efetuando gastos p\u00fablicos para atender \u00e0 conjuntura particular da dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Muitos poder\u00e3o desmontar o sistema criado especialmente para atender aos imperativos da acelerada infec\u00e7\u00e3o de enormes massas populacionais em busca de uma legitimidade, mesmo que n\u00e3o tenham nenhuma no\u00e7\u00e3o desta busca. Ademais, o keynesianismo, de Keynes, nunca avan\u00e7ou no sentido de realmente superar as condi\u00e7\u00f5es subalternas da classe trabalhadora. Keynes esperava que o mercado, comandado pelos capitais, atingisse um est\u00e1gio do que poder\u00edamos chamar de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">capitalismo bonzinho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, que reduzisse a jornada de trabalho e criasse um tempo livre para as pessoas. N\u00e3o tinha ideia do que isso era para os trabalhadores, pois exemplifica com as <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">madames<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> de seu c\u00edrculo pessoal.<\/span><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify\" start=\"5\">\n<li>\n<h5><strong>Estar\u00edamos<\/strong><b>, ao contr\u00e1rio, diante de limites intranspon\u00edveis do pr\u00f3prio capitalismo? Nesse caso, quais as perspectivas que se abrem?<\/b><\/h5>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o estamos em limites intranspon\u00edveis para o capitalismo. A unidade Estado e Capital dever\u00e1 propiciar as condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital, em particular em suas formas fict\u00edcias e acentuar a explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. \u00c9 a maior parte da sociedade que deve estabelecer os limites ao capital. Infelizmente n\u00e3o \u00e9 o que se observa no momento. Do ponto de vista da sociedade e da maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial, o capitalismo j\u00e1 atingiu seus limites h\u00e1 d\u00e9cadas e deveria ser superado por uma nova forma de organiza\u00e7\u00e3o social.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Infelizmente, considero que as perspectivas que se abrem n\u00e3o s\u00e3o muito animadoras, se acompanhamos an\u00e1lises e interpreta\u00e7\u00f5es sobre a crise atual. Uma parte importante de analistas e intelectuais n\u00e3o est\u00e3o colocando a quest\u00e3o da supera\u00e7\u00e3o do capitalismo. Ali\u00e1s, esta quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 necessariamente aquela que responde aos interesses das grandes massas de trabalhadores. Al\u00e9m disso, massas gigantescas de trabalhadores est\u00e3o se defrontando com o desemprego e desapari\u00e7\u00e3o das possibilidades de obten\u00e7\u00e3o de alguma forma de renda em todas as atividades chamadas ou de informais ou eufemisticamente de empreendedorismo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em termos do capitalismo, \u00e9 mais um momento de uma crise extremamente grave no movimento c\u00edclico do capital. Mas n\u00e3o representa, necessariamente uma situa\u00e7\u00e3o intranspon\u00edvel para o capital. Os diferentes governos est\u00e3o atuando, n\u00e3o s\u00f3 com respostas \u00e0 crise sanit\u00e1ria, mas com a\u00e7\u00f5es para a recupera\u00e7\u00e3o e reconstitui\u00e7\u00e3o do capital em geral e das principais unidades particulares. Esta crise est\u00e1 permitindo que, para a reprodu\u00e7\u00e3o do capital, mais medidas draconianas de repress\u00e3o aos trabalhadores, de redu\u00e7\u00e3o de suas condi\u00e7\u00f5es de vida e a supress\u00e3o de muitas d\u00e9cadas de vit\u00f3rias nas rela\u00e7\u00f5es trabalhistas estejam sendo efetivamente pulverizadas em curt\u00edssimo prazo.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gustavo Mello e Henrique Braga Professor titular do Departamento de Economia da UFES, Paulo Nakatani comenta, na entrevista a 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