{"id":806,"date":"2020-05-20T16:01:29","date_gmt":"2020-05-20T19:01:29","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/?p=806"},"modified":"2025-10-13T13:16:14","modified_gmt":"2025-10-13T16:16:14","slug":"estado-e-crescimento-a-recuperacao-em-v-l-e-u","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/estado-e-crescimento-a-recuperacao-em-v-l-e-u\/","title":{"rendered":"ESTADO E CRESCIMENTO: a recupera\u00e7\u00e3o em V, L e U"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n<h5><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-498\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2020\/04\/nota.png\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"146\"><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify\"><b>Fabr\u00edcio Augusto de Oliveira\u00b9<\/b><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Uma das principais indaga\u00e7\u00f5es que t\u00eam surgido na atual crise econ\u00f4mica causada pela pandemia diz respeito \u00e0 forma como o Estado vai resolver o problema do elevado n\u00edvel de endividamento que viu exacerbado com as pol\u00edticas de expans\u00e3o de seus gastos exigidas tanto para salvar vidas como empresas do tormento mundial causado pelo novo v\u00edrus.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Para o pensamento econ\u00f4mico dominante, se essas pol\u00edticas foram mais do que necess\u00e1rias para evitar o colapso do sistema e evitar o pior, mesmo por ser o \u00fanico agente do sistema em condi\u00e7\u00f5es de implement\u00e1-las para enfrentar a crise, a realidade p\u00f3s-epidemia dever\u00e1 se impor, exigindo ajustes severos em suas finan\u00e7as para impedir que a instabilidade se instale no sistema, apenas substituindo a crise sanit\u00e1ria por outra crise tamb\u00e9m grave.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com as proje\u00e7\u00f5es do FMI, os or\u00e7amentos e as d\u00edvidas p\u00fablicas, que j\u00e1 destoavam de todas as recomenda\u00e7\u00f5es feitas pela teoria econ\u00f4mica ortodoxa mesmo antes da crise do coronav\u00edrus, devem apresentar-se preocupantemente elevadas ao final dessa pandemia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">No mundo, a rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida PIB pode chegar, conforme suas proje\u00e7\u00f5es, a 96% do PIB, nas economias desenvolvidas a 122,4%, enquanto a dos Estados Unidos deve conhecer um aumento de 20 pontos percentuais, indo para 131%.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Nas economias emergentes, projeta-se um crescimento de 53% para 62% e, na Am\u00e9rica Latina, de mais 7,5 pontos percentuais, com a mesma se elevando para 78%. No Brasil, essa rela\u00e7\u00e3o subiria de 89,5%, na metodologia de c\u00e1lculo dessa rela\u00e7\u00e3o utilizada por essa institui\u00e7\u00e3o, para 98,2%. A grande pergunta que a teoria econ\u00f4mica vai ter de responder \u00e9 a seguinte: o que fazer diante deste imbr\u00f3glio? A este respeito, s\u00e3o tr\u00eas as alternativas que merecem ser examinadas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A primeira, do pensamento econ\u00f4mico ortodoxo, \u00e9 a de que o Estado deve retornar \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de agente passivo e retomar o controle dos gastos e dar continuidade \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de seu tamanho. S\u00f3 com a sinaliza\u00e7\u00e3o de que se reconstruir\u00e3o os pilares fiscais, os investidores se sentir\u00e3o confiantes para retomar os investimentos e relan\u00e7ar a economia numa trajet\u00f3ria de crescimento. A recupera\u00e7\u00e3o se daria, de acordo com essa vis\u00e3o, na forma de <\/span><b>V<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, tal como as proje\u00e7\u00f5es de crescimento para 2021 que foram feitas pelo FMI, ou seja, de que o crescimento retornar\u00e1 rapidamente e de forma acelerada ap\u00f3s a pandemia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Guiada mais pela f\u00e9 e pela cren\u00e7a, essa alternativa desconhece a natureza dessa crise, os estragos que t\u00eam provocado \u2013 e que ainda poder\u00e1 provocar \u2013 sobre a aparelhagem do funcionamento idealizado do sistema econ\u00f4mico, com a fal\u00eancia de muitas empresas, o enfraquecimento financeiro de outras, a queima de capital e o aniquilamento da demanda causada pela queda da renda e do emprego, dado o isolamento social, acreditando numa resposta r\u00e1pida do capital privado, como sugeriu recentemente, no Brasil, o ministro da Economia, Paulo Guedes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Se for por este caminho, provavelmente a economia permanecer\u00e1 por muito tempo no inferno do baixo crescimento e muitos pa\u00edses no da recess\u00e3o, com a recupera\u00e7\u00e3o assumindo a forma de <\/span><b>L<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, ou seja, com uma recess\u00e3o prolongada, j\u00e1 que todos os motores do crescimento se encontram desligados, sem que haja uma for\u00e7a capaz de relig\u00e1-los. Devido ao enfraquecimento e \u00e0 queima de capital provocado pela crise, \u00e0 fraqueza da demanda e \u00e0s incertezas que continuam predominantes sobre a dura\u00e7\u00e3o da epidemia e o futuro da economia, n\u00e3o h\u00e1 como despertar o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">animal spirit <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">dos empres\u00e1rios para uma aventura dessa natureza.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A segunda, uma alternativa mais na vertente keynesiana, recuperada na forma da Moderna Teoria da Moeda e, na crise atual, defendida at\u00e9 mesmo por alguns economistas filiados \u00e0 ortodoxia, de que o Estado, al\u00e9m de cumprir um papel-chave para enfrentar seus desafios, pode ser o \u00fanico agente tamb\u00e9m em condi\u00e7\u00f5es de reaquecer os motores do crescimento, por meio do aumento de seus gastos, mesmo que aumentando expressivamente seu endividamento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Para essa corrente, n\u00e3o existem riscos do financiamento de seus gastos, mesmo que por meio da emiss\u00e3o de moeda, gerar infla\u00e7\u00e3o devido \u00e0 elevada capacidade ociosa da economia e \u00e0 fraqueza da demanda. \u00c0 medida que essa capacidade ociosa for sendo ocupada e as press\u00f5es inflacion\u00e1rias come\u00e7arem a ser sentidas, a esteriliza\u00e7\u00e3o dos meios de pagamento com a venda de t\u00edtulos p\u00fablicos, \u00e0 taxa de juros inferior ao do crescimento do PIB, juntamente com o aumento da arrecada\u00e7\u00e3o dele decorrente, pode muito bem colocar a rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida\/PIB numa trajet\u00f3ria de decl\u00ednio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Se seguida, essa pol\u00edtica pode abreviar consideravelmente a recess\u00e3o, dependendo do tempo de dura\u00e7\u00e3o da pandemia, e garantir uma recupera\u00e7\u00e3o na forma de <\/span><b>U<\/b><span style=\"font-weight: 400\">, ou seja, com uma recupera\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida do que a situa\u00e7\u00e3o que ocorreria com a primeira alternativa, considerando que a reorganiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do mercado de trabalho demanda algum tempo e que o pr\u00f3prio Estado ter\u00e1 de lidar, por um per\u00edodo, com finan\u00e7as mais combalidas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A terceira, que n\u00e3o exclui a segunda, e que n\u00e3o \u00e9 ventilada pelos governos e gestores de pol\u00edtica econ\u00f4mica, especialmente no Brasil, \u00e9 a que prop\u00f5e lan\u00e7ar boa parte do \u00f4nus da crise sobre uma (pequena) fra\u00e7\u00e3o da sociedade detentora da riqueza, que lhe garante apropriar-se de uma parcela expressiva da renda gerada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Trabalho publicado na Plataforma de Pol\u00edtica Social, com o t\u00edtulo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tributar os ricos para enfrentar a crise<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de autoria de institui\u00e7\u00f5es representantes do fisco, estima que a cobran\u00e7a de impostos adicionais, alguns em car\u00e1ter tempor\u00e1rio, sobre a renda dos indiv\u00edduos, os lucros de alguns setores econ\u00f4micos, os dividendos e as grandes fortunas, t\u00eam potencial para aumentar em R$ 270 bilh\u00f5es a arrecada\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Embora a proposta tenha tido como objetivo apontar caminhos e fontes para a constitui\u00e7\u00e3o de um Fundo de Emerg\u00eancia de R$ 100 bilh\u00f5es para Estados e Munic\u00edpios conseguirem dar respostas aos desafios colocados de refor\u00e7o da capacidade e atendimento do SUS, sua import\u00e2ncia \u00e9 a de revelar, no quadro atual, onde esses recursos podem ser obtidos sem provocar grandes desarranjos para o sistema econ\u00f4mico do ponto vista macroecon\u00f4mico, apenas deixando os ricos um pouco menos ricos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o se trata de nenhuma novidade hist\u00f3rica. Em situa\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0 que vivemos, como a da Grande Depress\u00e3o da d\u00e9cada de 1930 e da Segunda Guerra Mundial, os impostos sobre a renda e o patrim\u00f4nio foram consideravelmente elevados para financiar os gastos ampliados do Estado e, ao contr\u00e1rio do que defendia o pensamento conservador, a economia n\u00e3o somente foi retirada do atoleiro em que se encontrava como inaugurou-se um per\u00edodo de crescimento econ\u00f4mico extraordin\u00e1rio, que se prolongou por cerca de trinta anos e, tamb\u00e9m importante, com maior harmonia social.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">No entanto, a teimosia da ortodoxia em continuar a defender que a cobran\u00e7a de impostos sobre o capital e os ricos termina sendo prejudicial para a economia e de que o Estado constitui uma fonte de instabilidade para o sistema, com teorias divorciadas do mundo real, mas recebendo o aplauso das classes dominantes por protegerem seus interesses, levou \u00e0 revers\u00e3o deste processo a partir da d\u00e9cada de 1970, conduzindo novamente o mundo para uma trajet\u00f3ria de aumento persistente da desigualdade e da pobreza.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Se for este o caminho, o que infelizmente n\u00e3o parece nada prov\u00e1vel, at\u00e9 mesmo pela escassez de propostas neste sentido, a recupera\u00e7\u00e3o na forma de <\/span><b>U<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> poderia at\u00e9 ser menos amarga e mais acelerada por que contaria com um Estado com finan\u00e7as mais equilibradas e em melhores condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o somente de contribuir para continuar reerguendo a economia, mas tamb\u00e9m para diminuir os efeitos da hecatombe que se abateu sobre as camadas mais vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<hr>\n<h6 style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>\u00b9&nbsp;<\/strong>Doutor em economia pela Unicamp, membro da Plataforma Pol\u00edtica Social, articulista do Debates em Rede, e autor, entre outros, do livro \u201cGovernos Lula, Dilma e Temer: do espet\u00e1culo do crescimento ao inferno da recess\u00e3o e da estagna\u00e7\u00e3o (2003-2018)\u201d.<\/span><\/h6>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabr\u00edcio Augusto de Oliveira\u00b9 Uma das principais indaga\u00e7\u00f5es que t\u00eam surgido na atual crise econ\u00f4mica causada pela pandemia diz respeito 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