{"id":821,"date":"2020-05-25T16:09:40","date_gmt":"2020-05-25T19:09:40","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/?p=821"},"modified":"2025-10-13T13:16:14","modified_gmt":"2025-10-13T16:16:14","slug":"desconstruindo-falsas-verdades-em-tempos-de-pandemia-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/desconstruindo-falsas-verdades-em-tempos-de-pandemia-parte-ii\/","title":{"rendered":"DESCONSTRUINDO FALSAS VERDADES EM TEMPOS DE PANDEMIA &#8211; PARTE II"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n<p style=\"text-align: justify\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-498\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/grupodeconjunturaufes\/files\/2020\/04\/nota.png\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"146\" \/><\/p>\n<h5><strong>Vin\u00edcius Vieira Pereira<br \/>Prof. Departamento de Economia da UFES<br \/>Tutor do Programa Pet Economia\/UFES<\/strong><\/h5>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na primeira parte desse artigo, apresentamos um contraponto \u00e0 ideia bastante recorrente de que, ap\u00f3s passada a crise do coronav\u00edrus, dever\u00edamos voltar \u00e0 normalidade da vida pr\u00e9-crise. Questionamos o que chamamos de normalidade e apresentamos alguns esfor\u00e7os no sentido de construir cen\u00e1rios alternativos de organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social futuras, distintos daquele que ora rege a vida na sociedade capitalista contempor\u00e2nea. Agora \u00e9 a vez de desconstruir uma segunda \u201cverdade\u201d, que est\u00e1 impl\u00edcita na forma como a grande m\u00eddia vem noticiando a causa da pandemia e da crise econ\u00f4mica dela resultante, isto \u00e9, que uma vez provocada por um microrganismo, um v\u00edrus, a trag\u00e9dia que ora nos oprime teria, portanto, sua origem em um fator ex\u00f3geno ao sistema socioecon\u00f4mico em que vivemos. Logo, tratar-se-ia de um elemento estranho, externo \u00e0 sociedade capitalista e, desse modo, suas causas deveriam ser buscadas n\u00e3o no modo como produzimos a nossa vida material e dispomos das for\u00e7as produtivas, mas, sim, no campo das ci\u00eancias da natureza, da biologia. Esse pensamento permite, inclusive, referendar o argumento de que tudo ia muito bem, at\u00e9 que um v\u00edrus&#8230;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Atribuir causas aos fen\u00f4menos sociais leva-nos, obrigatoriamente, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de determinadas infer\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s possibilidades observ\u00e1veis. Assim, elencamos e definimos as hip\u00f3teses que consideramos v\u00e1lidas como sendo as causas mais prov\u00e1veis. \u00c9 nesse momento que a escolha de um fator externo como sendo a causa principal do fen\u00f4meno emerge como a explica\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil e conveniente. No caso da Covid-19, que exp\u00f5e a vergonha da barb\u00e1rie do capitalismo contempor\u00e2neo e a fragilidade de sua estrutura social, a atribui\u00e7\u00e3o de uma causalidade ex\u00f3gena torna-se a alternativa mais confort\u00e1vel, em especial, para os apologetas do capitalismo neoliberal, seus benefici\u00e1rios e boa parte da imprensa mundial que n\u00e3o tardam em la\u00e7ar m\u00e3o de um velho jarg\u00e3o da ortodoxia econ\u00f4mica e afirmar que a pandemia deve ser tratada como um choque externo. E, nesse caso, caberia ao pr\u00f3prio mercado apontar os mecanismos de corre\u00e7\u00e3o adequados para um retorno menos turbulento ao equil\u00edbrio e \u00e0 antiga normalidade. Por\u00e9m, nada mais desonesto com a realidade dos fatos do que sustentar tal afirma\u00e7\u00e3o. Basta apenas um olhar pouco mais cr\u00edtico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Come\u00e7aremos afirmando que a Covid-19 n\u00e3o caiu do c\u00e9u como um meteoro. N\u00e3o se trata de um incidente aleat\u00f3rio, ou de um evento causal originado fortuitamente na esfera das ci\u00eancias naturais. O coronav\u00edrus e a sua capacidade de dissemina\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o originaram-se como parte din\u00e2mica e indissoci\u00e1vel do nosso atual sistema social, onde a organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o da nossa vida material, ou, a forma como vivemos e produzimos nossa subsist\u00eancia, obedece aos est\u00edmulos que emanam da necessidade de valoriza\u00e7\u00e3o do capital e n\u00e3o das necessidades vitais para a preserva\u00e7\u00e3o do bem-estar dos indiv\u00edduos e a conserva\u00e7\u00e3o do nosso habitat.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Alinhado a esse pensamento, o professor Jorge Grespan, da USP, afirma que a pandemia apenas potencializou os problemas e as contradi\u00e7\u00f5es j\u00e1 presentes em nossa sociedade e que estes constituem a ess\u00eancia do modo capitalista de viver. Para ele, os \u00faltimos trinta ou quarenta anos de neoliberalismo apenas exacerbaram os antagonismos sociais j\u00e1 existentes no capitalismo, a partir do momento em que se destruiu a capacidade dos governos de gerir com compet\u00eancia os sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade e intervir com rapidez e efici\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias e servi\u00e7os para a popula\u00e7\u00e3o em geral. Portanto, para ele, a crise do coronav\u00edrus \u00e9 uma crise end\u00f3gena ao capitalismo e, assim, suas causas devem ser buscadas na forma de vida e produ\u00e7\u00e3o em que vivemos<\/span><span style=\"font-weight: 400\"><strong>[1]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Fazendo um paralelo hist\u00f3rico, a peste negra, que dizimou de um ter\u00e7o \u00e0 metade da popula\u00e7\u00e3o da Europa ocidental em meados do s\u00e9culo XIV, tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser tratada como uma causa externa da crise que marcou o in\u00edcio do fim da sociedade feudal europeia. A peste bub\u00f4nica, transmitida por uma bact\u00e9ria ainda ignorada pela ci\u00eancia at\u00e9 aquele momento, foi gestada no seio de uma sociedade em plena transforma\u00e7\u00e3o, cujas contradi\u00e7\u00f5es em processo se transformavam em antagonismos insuper\u00e1veis frente ao desenvolvimento do modo feudal de produ\u00e7\u00e3o. Parecia haver chegado o limite de reprodu\u00e7\u00e3o material daquele modelo societ\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Muitos foram os fatores internos ao modo feudal de produ\u00e7\u00e3o que corroboram esse argumento, uma vez que foram respons\u00e1veis pela origem das condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias ao surgimento e \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o da peste bub\u00f4nica naquela regi\u00e3o. O crescimento do n\u00famero de cidades e a intensifica\u00e7\u00e3o das feiras, do com\u00e9rcio e das trocas no feudalismo europeu se, por um lado, significaram uma maior aproxima\u00e7\u00e3o entre as comunas e o estreitamento das rela\u00e7\u00f5es humanas e de interc\u00e2mbio econ\u00f4mico<strong>[2]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">, por outro, exigiram a acelera\u00e7\u00e3o dos processos de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, equipamentos e moradias num ritmo muito superior \u00e0 capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o do sistema feudal<strong>[3]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. Os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos registrados na Baixa Idade M\u00e9dia, como os observados nas velas, remos e mastros das galeras para navega\u00e7\u00e3o, a rota\u00e7\u00e3o de tr\u00eas campos, a carro\u00e7a de eixo m\u00f3vel com quatro rodas, o atrelamento de animais, a tra\u00e7\u00e3o equina, e a canga frontal para os bois, a pavimenta\u00e7\u00e3o de estradas, o moinho e a roda d\u2019\u00e1gua, bem como o moinho de vento, todos voltados \u00e0 moagem de cereais, o po\u00e7o artesiano, a chamin\u00e9, a roca em lugar do fuso, a vela e o c\u00edrio, o alambique cl\u00e1ssico para destila\u00e7\u00e3o, o \u00e1lcool e o carbonato de pot\u00e1ssio, o rel\u00f3gio mec\u00e2nico de peso, a arquitetura g\u00f3tica<strong>[4]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">, entre tantos outros, ao mesmo tempo em que ampliaram a capacidade de produ\u00e7\u00e3o por parte da sociedade, foram incapazes de compensar a depreda\u00e7\u00e3o ambiental, o esgotamento das mat\u00e9rias primas e a explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola extensiva e predat\u00f3ria resultantes, de modo que os recursos naturais foram tornando-se escassos e, por fim, exaurindo-se<strong>[5]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. Al\u00e9m disso, as t\u00e9cnicas de armazenamento e estocagem de gr\u00e3os, bem como os problemas existentes para a circula\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, incompat\u00edveis com o aumento da produ\u00e7\u00e3o, favoreciam a perda r\u00e1pida de g\u00eaneros perec\u00edveis; a extra\u00e7\u00e3o da madeira, essencial para constru\u00e7\u00e3o civil, fabrica\u00e7\u00e3o de ferramentas, equipamentos e como combust\u00edvel, bem como a busca por outras fontes de energia provocavam graves desequil\u00edbrios ambientais<strong>[6]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. A derrubada de florestas e o desmatamento acelerado, a polui\u00e7\u00e3o de rios e c\u00f3rregos, a drenagem de regi\u00f5es pantanosas influenciavam na recorr\u00eancia das tempestades de areia, dos longos per\u00edodos de seca e das chuvas torrenciais. O esgotamento do solo e da natureza, dessa forma, somava-se a esse cen\u00e1rio e respondia, por sua vez, com a queda na produ\u00e7\u00e3o, enquanto o crescimento populacional pressionava a disputa pelo excedente agr\u00edcola e pelas terras ar\u00e1veis dispon\u00edveis, gerando conflitos sangrentos na luta pela terra<strong>[7]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. \u00c1reas de enormes vazios demogr\u00e1ficos passaram a conviver com regi\u00f5es intensamente povoadas, marcadas pelas aglomera\u00e7\u00f5es humanas<strong>[8]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Frente a esse processo, a necessidade da amplia\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio econ\u00f4mico e da conquista de novas terras f\u00e9rteis, ar\u00e1veis ou ricas em metais preciosos provocou um primeiro movimento de expans\u00e3o mundial. Mesmo as Cruzadas, que embora se constitu\u00edssem em expedi\u00e7\u00f5es militares calcadas em uma disputa religiosa, mostraram, ao longo dos s\u00e9culos XII e XIII, tratar-se de uma guerra contra o oriente mu\u00e7ulmano pela conquista de \u00e1reas econ\u00f4mica e politicamente estrat\u00e9gicas. Pode-se arriscar que da\u00ed tenha resultado um primeiro e importante processo de aproxima\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, comercial e financeira entre as civiliza\u00e7\u00f5es ocidental e oriental, onde acordos comerciais, trocas monet\u00e1rias, emiss\u00f5es de letras de c\u00e2mbio, contratos de fretes e seguros, que tornavam t\u00e3o lucrativas as \u201csagradas\u201d expedi\u00e7\u00f5es para as classes nobre e burguesa, criaram um fluxo perene de mercadorias e pessoas atrav\u00e9s da Eur\u00e1sia<strong>[9]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">, movimento que, ao ser profundamente estudado pelo historiador Jaques Le Goff, levou-o a identificar, nas pr\u00e1ticas e na mentalidade racionalista dos mercadores banqueiros medievais, caracter\u00edsticas semelhantes \u00e0s dos capitalistas que surgiriam alguns s\u00e9culos depois<strong>[10]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. O mundo parecia se integrar em velocidade e intensidade jamais vistas at\u00e9 ent\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mas, se a dinamiza\u00e7\u00e3o do mercado externo e o com\u00e9rcio internacional encurtavam as dist\u00e2ncias, facilitavam o acesso \u00e0s novas mercadorias e aos servi\u00e7os e criavam novos h\u00e1bitos de consumo para as nobres elites encasteladas e endinheiradas, tamb\u00e9m possibilitavam a dissemina\u00e7\u00e3o mundial de micro-organismos e doen\u00e7as antes peculiares apenas a uma determinada regi\u00e3o. Afinal, as classes produtoras, formadas pelos pequenos artes\u00e3os e oper\u00e1rios das oficinas urbanas, servos e, tamb\u00e9m, pelos camponeses miser\u00e1veis que viviam nas terras comunais \u00e0s margens dos feudos, encontravam dificuldades para se manterem alimentadas e aquecidas, tornando-se organismos fr\u00e1geis e vulner\u00e1veis em um ambiente hostil e favor\u00e1vel \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o de mol\u00e9stias.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em suma, a prosperidade e o desenvolvimento econ\u00f4mico que brindaram a sociedade feudal na Europa ocidental a partir do s\u00e9culo XI, ao ponto deste per\u00edodo ser equiparado ao de uma revolu\u00e7\u00e3o comercial<strong>[11]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">, tamb\u00e9m criaram as condi\u00e7\u00f5es que, tr\u00eas s\u00e9culos depois, transformar-se-iam em antagonismos capazes de gerarem a pr\u00f3pria crise e a destrui\u00e7\u00e3o dessa sociedade. Crise que se manifestava na impossibilidade de se garantir as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de vida, alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e saneamento b\u00e1sico nos n\u00facleos urbanos cada vez mais numerosos e nos feudos mais pr\u00f3speros. Uma horda de seres fragilizados e expostos \u00e0 fome, \u00e0 desnutri\u00e7\u00e3o, \u00e0s mol\u00e9stias e epidemias que porventura surgissem. Paralelamente, uma medicina p\u00fablica abandonada, praticamente inexistente, que misturava parcas observa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas com rituais xaman\u00edsticos e influ\u00eancias espirituais<strong>[12]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. O modo de produ\u00e7\u00e3o feudal aproximava-se de seu fim e havia produzido, ao longo de tr\u00eas s\u00e9culos, do XI ao XIV, abund\u00e2ncia e vulnerabilidade simultaneamente. Criara, internamente, as causas de sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o, entre elas, as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0 epidemia da peste negra.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Ora, no seio dessa sociedade feudal, o surgimento e a prolifera\u00e7\u00e3o da bact\u00e9ria <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Yersinia pestis<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, transportada dos ratos para os humanos por meio das pulgas, n\u00e3o podem ser tratados como eventos externos ao modelo societ\u00e1rio caracter\u00edstico da Baixa Idade M\u00e9dia. Do mesmo modo que o novo coronav\u00edrus, que atinge agora a esp\u00e9cie humana e se alastra com tamanha for\u00e7a e facilidade, n\u00e3o pode ser dissociado da forma como vivemos e produzimos nossa vida material nos dias atuais. Se hoje, os que defendem a causa\u00e7\u00e3o externa da pandemia buscam nos chineses o alvo preferido, na era medieval, a culpa pela peste negra recaiu sobre os judeus, os leprosos e os estrangeiros que, de modo geral, migravam para a Europa Ocidental. Como vemos, a hist\u00f3ria se repete, mudam-se apenas as personagens.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O capitalismo contempor\u00e2neo tratou tamb\u00e9m de produzir suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es, ou as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que surtos pand\u00eamicos de doen\u00e7as agressivas como a Covid-19 se disseminem de modo letal. N\u00e3o precisamos de causas externas, pois se quisermos encontrar as causas dessa trag\u00e9dia, devemos busc\u00e1-las na din\u00e2mica interna dos mecanismos de reprodu\u00e7\u00e3o da sociedade capitalista. Em sua ess\u00eancia, uma sociedade que se move em torno de um sistema cujo funcionamento se pauta nas vantagens e no lucro privados. Como meios de alcan\u00e7\u00e1-los, temos o mercado, a concorr\u00eancia, a livre iniciativa e o consumo de massa como promessas de felicidade. Baseado no liberalismo econ\u00f4mico cl\u00e1ssico, qualquer planejamento da produ\u00e7\u00e3o social, ou interfer\u00eancia do estado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades sociais, \u00e9 peremptoriamente recha\u00e7ado. O interesse individual e a autossatisfa\u00e7\u00e3o das necessidades, aliados \u00e0 mentalidade racional e maximizadora de utilidades do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">self-made man<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, fazem do mercado o l\u00f3cus do prazer ou da dor, e o \u00fanico alocador eficiente de recursos. O mercado \u00e9 quem define do que precisamos. Tal sociedade dispensa, inclusive, a interfer\u00eancia do estado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Assim, em nome do livre mercado, mercantilizou-se tudo, a medicina, os cuidados com a sa\u00fade e a vida das pessoas, os alimentos, a educa\u00e7\u00e3o, a natureza, o meio ambiente. Tudo passou a servir aos neg\u00f3cios e a obedecer rigorosamente aos crit\u00e9rios da contabilidade e dos lucros. Os processos produtivos se adequaram a essa l\u00f3gica \u00fanica que norteia a vida da nossa sociedade. Nenhum estado, nenhum governo que esteja sob o dom\u00ednio do capital e do livre mercado poder\u00e1 se imiscuir nos assuntos da produ\u00e7\u00e3o. Segundo essa l\u00f3gica, o estado deve eximir-se da tarefa de fazer pol\u00edticas agr\u00edcolas e de manter sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade, por exemplo. Deve abster-se da educa\u00e7\u00e3o e da pesquisa, e deixar a constru\u00e7\u00e3o de moradias por conta dos interesses privados do mercado imobili\u00e1rio e da constru\u00e7\u00e3o civil. Deve evitar gastos com hospitais, laborat\u00f3rios e centros de pesquisa, afinal, o interesse privado \u00e9 capaz de fazer o mesmo com maior compet\u00eancia. Os medicamentos devem ser produzidos sobre crit\u00e9rios puramente mercadol\u00f3gicos. Disseminou-se at\u00e9 mesmo que o estado s\u00e9rio e o governo comprometido com a \u00e9tica e o povo n\u00e3o interferem nas cadeias produtivas, n\u00e3o direcionam incentivos para setores de interesse p\u00fablico, n\u00e3o se intrometem nas cadeias de suprimentos e nem na log\u00edstica da distribui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, preocupam-se apenas em manter as regras do jogo bem claras e suas contas em equil\u00edbrio. Os gastos p\u00fablicos devem estar sempre em n\u00edveis compat\u00edveis com impostos bem baixos. O Estado verdadeiramente preocupado com o seu povo, segundo o mesmo discurso, deve deixar todas as decis\u00f5es nas m\u00e3os dos capitalistas, pois esses, na luta por seus interesses ego\u00edstas, acabar\u00e3o por levar bem-estar e felicidade a todos. Ainda que o fa\u00e7am sem saber que o fazem, afinal, v\u00edcios privados se transformam, nessa sociedade m\u00e1gica, em benef\u00edcios p\u00fablicos<strong>[13]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. O resultado disso \u00e9 que o capitalismo, ao longo dos s\u00e9culos, assim como vimos no caso do feudalismo, produziu antagonismos que ora parecem insuper\u00e1veis e insustent\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">As pol\u00edticas de cunho neoliberal, baseadas nos manuais de economia ortodoxa, e as teorias que justificam a necessidade do equil\u00edbrio nas contas p\u00fablicas e da austeridade fiscal a qualquer custo obrigaram os governos a abandonarem muitos dos setores ligados aos servi\u00e7os p\u00fablicos de cuidados b\u00e1sicos de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o, moradia, saneamento b\u00e1sico e higiene. O resultado \u00e9 que as pesquisas e a produ\u00e7\u00e3o de bens ligados \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, os servi\u00e7os preventivos e gratuitos ficaram no mais completo abandono. Sucateados foram os hospitais p\u00fablicos e as UPA\u2019s, as populares unidades de pronto-atendimento, \u00fanicas aliadas dos mais pobres nos momentos de afli\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Segundo afirma o professor Jorge Grespan, na mesma entrevista j\u00e1 citada, a prova maior das consequ\u00eancias dessas pol\u00edticas liberalizantes \u00e9 que os pa\u00edses que mais est\u00e3o sofrendo com a crise da Covid-19 s\u00e3o aqueles que, proporcionalmente \u00e0s suas estruturas produtiva e populacional, mais aprofundaram as condi\u00e7\u00f5es acima listadas. EUA, onde sequer um programa de aux\u00edlio de sa\u00fade p\u00fablico e gratuito para a parcela mais pobre da popula\u00e7\u00e3o foi aprovado pelo Congresso; It\u00e1lia e Espanha, que sofreram sobremaneira as exig\u00eancias de austeridade fiscal impostas pela Uni\u00e3o Europeia como forma de enfrentar os efeitos da crise de 2008. E para al\u00e9m desses citados por Grespan, n\u00e3o podemos deixar de citar a pr\u00f3pria \u201cfornalha chinesa\u201d, Wuhan, assim chamada por se tratar de um dos quatro maiores centros industriais da China, e onde a produ\u00e7\u00e3o se pauta num aut\u00eantico modelo concorrencial internacional, apesar de se tratar de um pa\u00eds socialista, governado por um partido comunista.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Recente reportagem da revista Forbes alertou para um fato que comprova como a estrutura produtiva na sociedade capitalista contempor\u00e2nea \u00e9 uma das principais causas da dissemina\u00e7\u00e3o da pandemia. Inconformado com a incapacidade da economia de redirecionar recursos produtivos e gerar equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual na velocidade requerida pela rapidez de cont\u00e1gio da Covid-19, o colunista em quest\u00e3o, especialista em log\u00edstica de produ\u00e7\u00e3o, considerava inaceit\u00e1vel o fato de n\u00e3o conseguirmos, ap\u00f3s meses de pandemia, produzir cotonetes de algod\u00e3o para testes de coronav\u00edrus, m\u00e1scaras e \u00e1lcool gel na quantidade necess\u00e1ria para mitigar os efeitos da doen\u00e7a. E afirma, categoricamente, que a estrutura da produ\u00e7\u00e3o capitalista mundial precisa ser mais eficiente, resiliente e flex\u00edvel, capaz de se adaptar e atender \u00e0s demandas sociais no momento em que isso se fizer necess\u00e1rio, al\u00e9m de gerar menos poluentes, o que somente seria poss\u00edvel com uma mudan\u00e7a radical nas cadeias de suprimentos, que deveriam se tornar mais simples e curtas, capazes de reagirem mais rapidamente \u00e0s crises<\/span><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400\"><strong>[14]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">De fato, \u00e9 inconceb\u00edvel que uma ind\u00fastria que se aproxima de sua quarta revolu\u00e7\u00e3o industrial, a dos rob\u00f4s, da internet das coisas, da intelig\u00eancia artificial, da vida digital, n\u00e3o tenha capacidade de produzir cotonete de algod\u00e3o, m\u00e1scaras simples de pano e el\u00e1stico, \u00e1lcool, equipamentos m\u00e9dicos de prote\u00e7\u00e3o. Mas, o problema reside n\u00e3o na capacidade de se adequar, como afirma o especialista da Forbes, mas no interesse de faz\u00ea-lo! O que adiantaria modificar toda a cadeia produtiva para atender uma eventualidade? E quando a pandemia passar? Ter\u00e1 sido o tempo suficiente para amortizar o capital investido? E os lucros dos bancos e dos acionistas, ter\u00e3o sido eles atendidos de maneira satisfat\u00f3ria? Talvez, a pergunta que dev\u00eassemos fazer \u00e9: que tipo de sociedade o modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o forjou? Se tentarmos responder a essa quest\u00e3o, chegaremos bem pr\u00f3ximos das causas reais da pandemia. Todas elas internas \u00e0 economia capitalista.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Ora, o uso da medicina e da farmacologia com o prop\u00f3sito de atender aos interesses do mercado subordinou os profissionais de sa\u00fade, os laborat\u00f3rios, as universidades e os centros de pesquisa, os hospitais e as f\u00e1bricas de medicamentos, bem como os gastos em pesquisa e inova\u00e7\u00e3o aos crit\u00e9rios puramente financeiros e mercadol\u00f3gicos. A contraface desse processo foi o completo abandono dos sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade, incapazes de prover atendimento hospitalar, cuidados preventivos e medicamentos gratuitos quando a trag\u00e9dia bate \u00e0 porta. Com o agravante de que o crescimento desordenado das cidades e a prec\u00e1ria condi\u00e7\u00e3o de alimenta\u00e7\u00e3o, moradia e saneamento b\u00e1sico nas suas zonas perif\u00e9ricas estimulam h\u00e1bitos prop\u00edcios \u00e0 maior propaga\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as, como a causada pelo novo coronav\u00edrus.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Enquanto os laborat\u00f3rios de medicamentos trabalham exaustivamente para lucrarem com as doen\u00e7as, a racionalidade econ\u00f4mica ordena o abandono do investimento em pesquisas sobre preven\u00e7\u00e3o. Para especialistas no setor<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, \u201ca ind\u00fastria trilion\u00e1ria dos medicamentos n\u00e3o necessariamente atende aos interesses dos pacientes ou de governos, nem mesmo em tempos de pandemia\u201d. Garantindo acesso desigual a rem\u00e9dios mundo afora, \u201cos investimentos em pesquisa priorizam sempre a medica\u00e7\u00e3o de uso cont\u00ednuo e os princ\u00edpios ativos mais rent\u00e1veis do que antibi\u00f3ticos e vacinas\u201d.<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, os mesmos especialistas s\u00e3o categ\u00f3ricos em afirmar que o coronav\u00edrus exp\u00f4s um lado obscuro do mercado farmac\u00eautico, qual seja, \u201co elevado grau de concentra\u00e7\u00e3o e internacionaliza\u00e7\u00e3o do setor<strong>[15]<\/strong>, onde um pequeno punhado de poderosas empresas guiam seus neg\u00f3cios movidos por interesses financeiros, e n\u00e3o pelo interesse em proporcionar bem-estar frente \u00e0s necessidades de bens e servi\u00e7os peculiares ao campo dos cuidados de sa\u00fade<strong>[16]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Mas as causas internas da pandemia n\u00e3o param por a\u00ed. O intenso processo de urbaniza\u00e7\u00e3o, inerente ao capitalismo industrial e acelerado pela especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, desenvolveu h\u00e1bitos alimentares, de vida e de higiene que tornam nossa sa\u00fade e nosso sistema imunol\u00f3gico vulner\u00e1veis ao ataque de microrganismos mais resistentes. Os alimentos produzidos pela l\u00f3gica do menor custo-benef\u00edcio e os rem\u00e9dios ingeridos diariamente, via automedica\u00e7\u00e3o e estimulados pelas publicidades lucrativas do tipo \u201cpague 2 e leve 3\u201d<strong>[17]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">, aliados \u00e0s rotinas de trabalho que privilegiam o aumento da produtividade, tronaram-se fatores de risco \u00e0 sa\u00fade das pessoas. Afetando a resist\u00eancia do corpo em momentos de amea\u00e7a viral ou bacteriana, esse modo de vida deixou os indiv\u00edduos mais expostos ao cont\u00e1gio de mol\u00e9stias variadas. Assim, tornaram-se comuns entre n\u00f3s as doen\u00e7as funcionais, respirat\u00f3rias e cardiovasculares, a obesidade, a depress\u00e3o, a car\u00eancia de vitaminas e prote\u00ednas, a diabetes, entre outras que, agora, s\u00e3o elencadas entre as comorbidades patog\u00eanicas e progn\u00f3sticas que afetam grande parte da popula\u00e7\u00e3o mundial. Sem falar na agricultura, ou melhor, no agroneg\u00f3cio, que abusa do uso de agrot\u00f3xicos e se concentra na produ\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas para o mercado externo em lugar da preocupa\u00e7\u00e3o com a soberania alimentar e com a qualidade do alimento que vai para as mesas das fam\u00edlias.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Aliada insepar\u00e1vel dessas causas, a intensifica\u00e7\u00e3o dos fluxos de pessoas e mercadorias entre as mais diferentes regi\u00f5es do planeta e a rapidez e dinamicidade desses deslocamentos criaram as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o de um surto em epidemia e, desta, para pandemia. De natureza intr\u00ednseca e indissoci\u00e1vel do sistema econ\u00f4mico e social em que vivemos, a busca incessante por lucros faz com que a ess\u00eancia do capital seja a de dar vaz\u00e3o \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o, expandir-se sobre a maior \u00e1rea poss\u00edvel do globo, reduzindo o tempo de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o com o intuito de completar o ciclo de valoriza\u00e7\u00e3o do investimento no menor tempo poss\u00edvel. O capital, seja em sua forma industrial, comercial ou financeira, est\u00e1 constantemente derrubando barreiras e desmanchando limites geogr\u00e1ficos, diplom\u00e1ticos e institucionais. For\u00e7ando a redu\u00e7\u00e3o de tributos e a desregulamenta\u00e7\u00e3o sobre seus movimentos e transa\u00e7\u00f5es, seus detentores t\u00eam exigido, cada vez mais, a flexibilidade das regras que limitem a livre mobilidade de mercadorias e investimentos. E esse processo de integra\u00e7\u00e3o de pessoas e coisas que confere ao capitalismo sua face cosmopolita precisa se ampliar constantemente, como forma de garantir a manuten\u00e7\u00e3o das taxas de lucro, mesmo em momentos cr\u00edticos. Mas, essa natureza do capitalismo tem suas consequ\u00eancias contradit\u00f3rias. O primeiro caso confirmado de coronav\u00edrus no mundo ocorreu em 17 de novembro de 2019, na prov\u00edncia de Hubei, cuja capital, Wuham, importante centro comercial e industrial da Rep\u00fablica Popular da China, ficou marcada como a cidade de origem da Covid-19. Naquele momento, tratava-se de uma pessoa de 55 anos de idade<strong>[18]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. Passados seis meses, j\u00e1 s\u00e3o mais de cinco milh\u00f5es de pessoas infectadas em 182 pa\u00edses no mundo e, aproximadamente, 300 mil mortes confirmadas, mais de 20 mil delas s\u00f3 no Brasil, de acordo com dados de 21 de maio, sem contar os recorrentes problemas de subnotifica\u00e7\u00e3o. Portos, aeroportos e entradas de cidades est\u00e3o sendo fechados como forma de conter a dissemina\u00e7\u00e3o ainda maior do v\u00edrus. Mas, barrar a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus significa o mesmo que impedir a valoriza\u00e7\u00e3o do capital, processo suicida para a forma de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade contempor\u00e2nea.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A destrui\u00e7\u00e3o da natureza e seus biomas deve tamb\u00e9m ser listada entre as causas da Covid-19, assim como a venda il\u00edcita de animais silvestres que desrespeita as leis protetoras dos animais e eleva a vulnerabilidade \u00e0s doen\u00e7as zoon\u00f3ticas em virtude da destrui\u00e7\u00e3o de habitats selvagens<strong>[19]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. Devasta\u00e7\u00e3o de floretas e \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, assoreamento de rios e pesca predat\u00f3ria s\u00e3o apenas alguns fatores internos que t\u00eam levado \u00e0 migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de esp\u00e9cies selvagens para regi\u00f5es pr\u00f3ximas \u00e0s de cria\u00e7\u00e3o de animais para consumo humano. As evid\u00eancias das recorr\u00eancias de processos semelhantes s\u00e3o muitas. Em reportagem bastante elucidativa, Juliana Gragnani, da BBC, mostra em detalhes como o coronav\u00edrus pode estar repetindo o mesmo processo que levou o v\u00edrus Nipah, na Mal\u00e1sia, em 1998, a infectar e levar \u00e0 morte centenas de pessoas na Mal\u00e1sia, Cingapura, Bangladesh e \u00cdndia, a partir do momento em que a migra\u00e7\u00e3o de morcegos famintos levou-os a uma \u00e1rea pr\u00f3xima \u00e0 de cria\u00e7\u00e3o de porcos e o v\u00edrus, at\u00e9 ent\u00e3o presente apenas no morcego, contaminou os porcos, sofreu muta\u00e7\u00e3o no organismo su\u00edno e transformou-se em um v\u00edrus letal para os seres humanos. Richard Ostfeld, do Cary Institute of Ecosystem Studies, dos EUA, \u00e9 um dos dez especialistas que, na mesma mat\u00e9ria, afirma que o desmatamento, a amplia\u00e7\u00e3o de abertura de \u00e1reas para a agricultura e pecu\u00e1ria, e os agrupamentos estranhos de esp\u00e9cies que nunca haviam ocorrido na natureza est\u00e3o provocando o surgimento de doen\u00e7as na ra\u00e7a humana derivadas de outras esp\u00e9cies. E Ostfeld conclui que \u201cn\u00f3s estamos negligenciando o cen\u00e1rio maior (&#8230;) pois a alta densidade populacional dos seres humanos e a intensa conex\u00e3o entre indiv\u00edduos e animais silvestres favorecem o surgimento e espalhamento das doen\u00e7as\u201d. Segundo os especialistas ouvidos na reportagem, devemos conservar a biodiversidade, levando-a mais a s\u00e9rio. \u201cN\u00e3o dever\u00edamos subsidiar ind\u00fastrias que n\u00e3o se preocupam com os resultados provocados por suas atividades, afinal, a ci\u00eancia est\u00e1 nos dizendo que devemos reavaliar nosso relacionamento com a natureza\u201d<strong>[20]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. Enfim, o fato de n\u00e3o se respeitar os habitats naturais dessas esp\u00e9cies e transformar tudo em arena de lucros s\u00e3o causas inequ\u00edvocas da pandemia que ora devasta a humanidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Portanto, chegamos a uma conclus\u00e3o muito semelhante a que hav\u00edamos chegado na primeira parte dessa mat\u00e9ria, publicada neste blog, ou seja, ou alteramos o nosso modo de viver ou continuaremos gerando causas internas para fen\u00f4menos cru\u00e9is e tr\u00e1gicos como o da Covid-19. O cineasta israelense, Amos Gitai, assinou, recentemente uma peti\u00e7\u00e3o que circula em n\u00edvel mundial entre artistas e cientistas cuja palavra de ordem \u00e9 \u201cN\u00e3o \u00e0 normalidade\u201d, peti\u00e7\u00e3o que havia se iniciado no come\u00e7o de maio, por iniciativa da atriz francesa, Juliete Binoche. A conclus\u00e3o \u00e0 qual Gitai chega \u00e9 a de que precisamos entender qual \u00e9 a mensagem indireta que esse v\u00edrus est\u00e1 tentando passar para a humanidade, de modo geral. Al\u00e9m disso, segundo ele, \u201cesta pandemia exige uma profunda reflex\u00e3o sobre o nosso modo de viver\u201d, pois \u201cno mundo do depois\u201d n\u00e3o deveria haver lugar \u201cpara pr\u00e1ticas que destroem a Amaz\u00f4nia\u201d<strong>[21]<\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400\">. O primeiro passo para isso, no entanto, \u00e9 aceitar que precisamos parar de produzir as causas de nossa pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Na terceira e \u00faltima parte deste artigo, tratar\u00edamos, inicialmente, de analisar criticamente outro argumento bastante difundido nos primeiros meses da pandemia, o de que a Covid-19 era uma doen\u00e7a democr\u00e1tica, ou seja, atingia igualmente e sem fazer distin\u00e7\u00f5es, ricos e pobres, brancos e negros, trabalhadores e patr\u00f5es. No entanto, a evid\u00eancia dos fatos falou por si mesma e, aos poucos, foi se tornando cada vez mais dif\u00edcil e desonesto sustentar tal afirma\u00e7\u00e3o. Assim, ao inv\u00e9s de desconstruir essa falsa verdade, uma vez que ela mesma j\u00e1 foi solapada em toda a sua base de sustenta\u00e7\u00e3o pela evidente e irrefut\u00e1vel despropor\u00e7\u00e3o com que a trag\u00e9dia vem atingindo a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o pobre de modo muito mais rigoroso do que o faz com a parcela bem menor e menos fr\u00e1gil de nossa sociedade, nossa argumenta\u00e7\u00e3o se pautar\u00e1 em demonstrar essa caracter\u00edstica tr\u00e1gica e cruel da pandemia que, associada \u00e0 \u201cefici\u00eancia\u201d do mercado, ao abandono das fun\u00e7\u00f5es por parte do estado, \u00e0 desigualdade econ\u00f4mica e \u00e0 indiferen\u00e7a social, tem levado dor e sofrimento \u00e0 classe trabalhadora e aos desempregados, aos moradores de rua e aos encarcerados, aos pobres, negros e marginalizados de nosso pa\u00eds!<strong>[22]<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">At\u00e9 breve&#8230;<\/span><\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify\"><strong>NOTAS<\/strong><\/h3>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: justify\"><strong>[1] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">Tutam\u00e9ia entrevista Jorge Grespan. Dispon\u00edvel em <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=OxypqCEDPwY\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=OxypqCEDPwY<\/span><\/a><\/h5>\n<h5><strong>[2] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">PIRENNE,\u00a0 Henri.\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hist\u00f3ria econ\u00f4mica e social da Idade M\u00e9dia. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">S\u00e3o Paulo, Mestre Jou, 1982<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[3] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">ANDERSON, Perry. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Passagens da antiguidade ao feudalismo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1991<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[4] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">CALAINHO, Daniela Buono.\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Hist\u00f3ria medieval do ocidente<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Editora Vozes Limitada, 2019.<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[5] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">WALLERSTEIN, Immanuel. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O sistema mundial moderno<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Porto: Afrontamento, 1990.<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[6] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">BLOCH, March. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A sociedade feudal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1982<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[7] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">ANDERSON, Perry. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Passagens da antiguidade ao feudalismo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1991<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[8] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">DOBB, Maurice. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A evolu\u00e7\u00e3o do capitalismo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Abril, 1985<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[9] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">HUBERMAN, Leo. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Hist\u00f3ria da riqueza do homem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Rio de janeiro: Zahar, 1981<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[10] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">LE GOFF, Jacques. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Mercadores e banqueiros da idade m\u00e9dia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Lisboa: Gradiva, 1982<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[11] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">LE GOFF, Jacques. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">O Apogeu da Cidade Medieval. S\u00e3o Paulo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">: Martins Fontes, 1992.<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[12] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">LEVI-STRAUSS, Claude. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Antropologia estrutural<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 1967, p. 113. Dispon\u00edvel em: \u00a0 <\/span><a href=\"https:\/\/edisciplinas.usp.br\/pluginfile.php\/5224782\/mod_resource\/content\/1\/L%C3%89VI-STRAUS%20S%2C%20%20Claude.%20Antropologia%20Estrutural%20%281%29.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/edisciplinas.usp.br\/pluginfile.php\/5224782\/mod_resource\/content\/1\/L%C3%89VI-STRAUS S%2C %20Claude.%20Antropologia%20Estrutural%20%281%29.pdf<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[13] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">MANDEVILLLE, Bernard. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A f\u00e1bula das abelhas ou v\u00edcios privados e benef\u00edcios p\u00fablicos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. S\u00e3o Paulo: Unesp, 2017<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[14] <\/strong><i><span style=\"font-weight: 400\">The Coronavirus Pandemic Showed Why We Need Shorter, Simpler Supply Chains<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/www.forbes.com\/sites\/michaelmandel1\/2020\/05\/12\/the-need-for-shorter-simpler-supply-chains\/#%206d5c5d165290\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.forbes.com\/sites\/michaelmandel1\/2020\/05\/12\/the-need-for-shorter-simpler-supply-chains\/# 6d5c5d165290<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[15] <\/strong><i><span style=\"font-weight: 400\">Combate ao coronav\u00edrus exp\u00f5e concentra\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de medicamentos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/bbc\/2020\/04\/30\/combate-ao-coronavirus-expoe-concentracao-da-industria-de-medicamentos.htm\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/bbc\/2020\/04\/30\/combate-ao-coronavirus-expoe-concentracao-da-industria-de-medicamentos.htm<\/span><\/a><\/h5>\n<h5><strong>[16] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">SANTOS, S\u00edlvio C\u00e9sar Machado.\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Melhoria da equidade no acesso aos medicamentos no Brasil: <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">os desafios impostos pela din\u00e2mica da competi\u00e7\u00e3o extra-pre\u00e7o. [Mestrado] Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica; 2001. 180 p. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/portalteses.icict.fiocruz.br\/%20transf.php?script=thes_chap&amp;id=00004304&amp;lng=pt&amp;nrm=iso\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/portalteses.icict.fiocruz.br\/ transf.php?script=thes_chap&amp;id=00004304&amp;lng=pt&amp;nrm=iso<\/span><\/a><\/h5>\n<h5><strong>[17] <\/strong><i><span style=\"font-weight: 400\">Propaganda de medicamentos na internet e nas redes sociais<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/ascoferj.com.br\/noticias\/propaganda-de-medicamentos-na-internet-e-nas-redes-sociais\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/ascoferj.com.br\/noticias\/propaganda-de-medicamentos-na-internet-e-nas-redes-sociais\/<\/span><\/a><\/h5>\n<h5><strong>[18] <\/strong><i><span style=\"font-weight: 400\">Primeiro caso do novo coronav\u00edrus.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Dispon\u00edvel em:\u00a0 <\/span><a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/mundo\/%20primeiro-caso-novo-coronavirus\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/mundo\/ primeiro-caso-novo-coronavirus\/<\/span><\/a><\/h5>\n<h5><strong>[19] <\/strong><i><span style=\"font-weight: 400\">Doen\u00e7as zoon\u00f3ticas, as que passam de animais para humanos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Dispon\u00edvel em: <\/span><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/mar semfim.com.br\/doencas-zoonoticas-passam-de-animais-para-humanos\/<\/span><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[20] <\/strong><i><span style=\"font-weight: 400\">Do v\u00edrus Nipah ao coronav\u00edrus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/meio-ambiente\/ultimas-noticias\/bbc\/2020\/04\/07\/do-nipah-ao-coronavirus-destruicao-da-natureza-expoe-ser-humano-a-doencas-do-mundo-animal.htm\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/noticias.uol.com.br\/meio-ambiente\/ultimas-noticias\/bbc\/2020\/04\/07\/do-nipah-ao-coronavirus-destruicao-da-natureza-expoe-ser-humano-a-doencas-do-mundo-animal.htm<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[21] <\/strong><i><span style=\"font-weight: 400\">Para cineasta Amos Gitai, a pandemia exige uma reflex\u00e3o sobre nosso modo de viver<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Dispon\u00edvel em: <\/span><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.msn.com\/pt-br\/noticias\/mundo\/para-cineasta-amos-gitai-a-pandemia-exige-uma-reflex\u00e3o-sobre-nosso-modo-de-viver\/ar-BB14pWQj?ocid=spartan-dhp-feeds<\/span><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/h5>\n<h5><strong>[22] <\/strong><span style=\"font-weight: 400\">Agrade\u00e7o \u00e0s fundamentais contribui\u00e7\u00f5es dos professores Ana Paula Fregnani Colombi, Gustavo Moura de Cavalcanti Mello, Henrique Pereira Braga e Rafael Moraes, integrantes do Grupo de Estudos e Pesquisa em Conjuntura, do Departamento de Economia da UFES, para a constru\u00e7\u00e3o deste texto, n\u00e3o sem antes isent\u00e1-los de quaisquer erros que, porventura, o autor tenha cometido.<\/span><\/h5>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vin\u00edcius Vieira PereiraProf. Departamento de Economia da UFESTutor do Programa Pet Economia\/UFES Na primeira parte 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