{"id":217,"date":"2013-04-01T00:16:04","date_gmt":"2013-04-01T00:16:04","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufes.br\/luciofassarella\/?p=217"},"modified":"2017-02-15T17:59:57","modified_gmt":"2017-02-15T17:59:57","slug":"ciencia-e-magia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufes.br\/luciofassarella\/2013\/04\/01\/ciencia-e-magia\/","title":{"rendered":"Ci\u00eancia e Magia"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p style=\"text-align: right\">&#8220;Existe algo que une a bruxaria e a ci\u00eancia aplicada ao mesmo<br \/>\ntempo que as separa da &#8216;sabedoria&#8217; dos tempos antigos.&#8221;<br \/>\nC.S. Lewis (escritor ingl\u00eas)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>Ci\u00eancia e magia possuem algo em comum? Afinal, quais s\u00e3o as semelhan\u00e7as e quais as diferen\u00e7as entre elas?<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small\"><span style=\"color: #000080\">Magia (segundo o Dicion\u00e1rio Houaiss): &#8220;<\/span><span style=\"color: #000080\"><em>arte, ci\u00eancia ou pr\u00e1tica baseada na cren\u00e7a de ser poss\u00edvel influenciar o curso dos acontecimentos e produzir efeitos n\u00e3o naturais, irregulares e que n\u00e3o parecem racionais, valendo-se da interven\u00e7\u00e3o de seres fant\u00e1sticos e da manipula\u00e7\u00e3o de algum princ\u00edpio controlador oculto supostamente presente na natureza, seja por meio de f\u00f3rmulas rituais ou de a\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas metodicamente efetuadas<\/em><\/span><span style=\"color: #000080\">.<\/span><span style=\"color: #000080\">&#8220;<\/span><\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Embora possa parecer simpl\u00f3rio que a ci\u00eancia e a magia possuam alguma semelhan\u00e7a, a id\u00e9ia \u00e9 pass\u00edvel de ser discutida seriamente.<\/p>\n<p>Como ilustra\u00e7\u00e3o da continuidade hist\u00f3rica entre a ci\u00eancia moderna e as concep\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas lembro que os prim\u00f3dios da <em>qu\u00edmica<\/em> s\u00e3o heran\u00e7a da <em>alquimia<\/em> &#8211; um complexo sistema de cren\u00e7as, conhecimentos e pr\u00e1ticas medievais geralmente usados com objetivos quim\u00e9ricos, tais como encontrar a Pedra Filosofal (subst\u00e2ncia que teria a capacidade de transformar tudo em ouro).<\/p>\n<p>A semelhan\u00e7a essencial entre a ci\u00eancia e magia \u00e9 a cren\u00e7a em princ\u00edpios\/leis universais bem como o conhecimento de t\u00e9cnicas eficientes para manipular a natureza &#8211; as diferen\u00e7as est\u00e3o na <em>forma<\/em> e no <em>conte\u00fado<\/em> dessa cren\u00e7a. O cientista acredita na regularidade da natureza, na perpetua\u00e7\u00e3o das propriedades da mat\u00e9ria &#8211; ent\u00e3o, ele elabora conceitos, desenvolve processos e constr\u00f3i m\u00e1quinas que o permitem alcan\u00e7ar resultados espec\u00edficos; o mago acredita na exist\u00eancia de esp\u00edritos, na unidade org\u00e2nica do universo, na influ\u00eancia simp\u00e1tica &#8211; ent\u00e3o, ele elabora conceitos e executa feiti\u00e7os que o permitem alcan\u00e7ar resultados espec\u00edficos. O cientista e o mago, como a maioria (se n\u00e3o totalidade) das pessoas, s\u00e3o semelhantes tamb\u00e9m neste aspecto: ambos buscam o <em>poder<\/em> atrav\u00e9s do uso dos recursos dispon\u00edveis,\u00a0 sejam eles naturais ou sobrenaturais.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o essencial entre a ci\u00eancia e a magia est\u00e1 na forma (metodologia) e no conte\u00fado (ontologia) das suas cren\u00e7as.<\/p>\n<p>Ontologicamente, a ci\u00eancia \u00e9 <em>naturalista<\/em>, i.e., procura explicar\/descrever os fen\u00f4menos mediante conceitos puramente materiais (mat\u00e9ria, energia, tempo e movimento, etc.). J\u00e1 a magia \u00e9 <em>espiritualista<\/em> pois assume a exist\u00eancia de uma realidade supranatural capaz de influenciar o transcurso dos acontecimentos mundanos, deliberadamente ou mediante est\u00edmulo.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo cient\u00edfico \u00e9 autocr\u00edtico e caracterizado pela experimenta\u00e7\u00e3o: as teorias cient\u00edficas devem ser comprovadas para serem aceitas como descri\u00e7\u00f5es fidedignas da realidade, sendo que as inadequa\u00e7\u00f5es s\u00e3o investigadas para serem corrigidas. Contrariamente, a magia fundamenta seus conhecimentos em tradi\u00e7\u00f5es e sua pr\u00e1tica tem a forma de feiti\u00e7os, cuja efic\u00e1cia n\u00e3o \u00e9 sistematicamente questionada: geralmente, os feiti\u00e7os n\u00e3o s\u00e3o desacreditados por deixarem de produzir os efeitos esperados: suas falhas s\u00e3o sumariamente descartadas ou recebem interpreta\u00e7\u00f5es<em> post hoc<\/em>.<\/p>\n<p>Penso que <em>h\u00e1 mais verdade na ci\u00eancia do que a magia<\/em> exatamente porque as leis cient\u00edficas n\u00e3o s\u00e3o presumidas verdadeiras antes de serem aprovadas por um sistem\u00e1tico confronto experimental com a realidade; na verdade, o conhecimento cient\u00edfico n\u00e3o \u00e9 considerado definitivo, sen\u00e3o pass\u00edvel de cont\u00ednuo aperfei\u00e7oamento.<\/p>\n<p>Finalmente, o longo percurso hist\u00f3rico seguido pela humanidade desde a inven\u00e7\u00e3o da escrita at\u00e9 o advento da ci\u00eancia moderna mostra que a ontologia e o m\u00e9todo cient\u00edficos n\u00e3o s\u00e3o ideias espont\u00e2neas da mente humana. Testemunha disso \u00e9 o fato de que muitas supersti\u00e7\u00f5es persistem atualmente apesar delas serem contrariadas pelo conhecimento cient\u00edfico acumulado (at\u00e9 certo ponto, pelo menos).<\/p>\n<p>Indico este texto sobre a rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e magia:<\/p>\n<ul>\n<li>J.M. Smith: <em>Science and Myth<\/em>. Natural History Vol. 93, No.11 (November 1984): pp.11-24.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Termino citando a opini\u00e3o de um pensador que n\u00e3o foi cientista, C.S. Lewis:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;O fato de os cientistas terem obtido sucesso onde o bruxo fracassou ergue entre eles um contraste t\u00e3o forte no imagin\u00e1rio popular que a verdadeira hist\u00f3ria do nascimento da ci\u00eancia acaba por ser mal compreendida. \u00c9 poss\u00edvel encontrar at\u00e9 mesmo quem escreva sobre o s\u00e9culo XVI dizendo que a bruxaria era ent\u00e3o um resqu\u00edcio medieval e qu a ci\u00eancia entrava em cena para expuls\u00e1-la. Os que estudaram o per\u00edodo certamente s\u00e3o mais dignos de confian\u00e7a. Havia muito pouca bruxaria durante a Idade M\u00e9dia: os s\u00e9culos XVI e XVII foram a \u00e9poca de esplendor dessa pr\u00e1tica. O grande esfor\u00e7o da bruxaria e o grande esfor\u00e7o cient\u00edfico s\u00e3o irm\u00e3os g\u00eameos: um deles era doente e morreu, o outro era forte e sobreviveu. Reconhe\u00e7o que alguns (certamente n\u00e3o todos) dos primeiros cientistas eram movidos por um genu\u00edno amor pelo conhecimento. Mas, se analisarmos o feitio daquela \u00e9poca como um todo, poderemos distinguir o impulso al qual me refiro. Existe algo que une a bruxaria e a ci\u00eancia aplicada ao mesmo tempo que as separa da &#8216;sabedoria&#8217; dos tempos antigos. Para os s\u00e1bios da antiguidade, o problema principal era como conformar a alma \u00e0 realidade, e a solu\u00e7\u00e3o encontrada foi o conhecimento, a autodisciplina e a virtude. Tanto para a bruxaria quanto para a ci\u00eancia aplicada, o problema \u00e9 como subjugar a realidade aos desejos dos homens, e a solu\u00e7\u00e3o encontrada foi uma t\u00e9cnica; e ambas, ao praticarem essa t\u00e9cnica, se p\u00f5em a fazer coisas at\u00e9 ent\u00e3o consideradas repulsivas e impiedosas &#8211; tais como desenterrar e retalhar cad\u00e1veres.&#8221;<br \/>\nC.S. Lewis: <em>A aboli\u00e7\u00e3o do homem &#8211; 2a. edi\u00e7\u00e3o<\/em>. Editora WMF Martins Fontes: S\u00e3o Paulo, 2012: pp.72-73.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center\">S\u00e3o Mateus &#8211; ES, 31\/03\/2013<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Existe algo que une a bruxaria e a ci\u00eancia aplicada ao mesmo tempo que as separa da &#8216;sabedoria&#8217; dos tempos antigos.&#8221; C.S. Lewis (escritor ingl\u00eas) Ci\u00eancia e magia possuem algo em comum? Afinal, quais s\u00e3o as semelhan\u00e7as e quais as diferen\u00e7as entre elas? Magia (segundo o Dicion\u00e1rio Houaiss): &#8220;arte, ci\u00eancia ou pr\u00e1tica baseada na cren\u00e7a &hellip; <a href=\"https:\/\/blog.ufes.br\/luciofassarella\/2013\/04\/01\/ciencia-e-magia\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":73,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_uag_custom_page_level_css":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-217","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia"],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false},"uagb_author_info":{"display_name":"luciofassarella","author_link":"https:\/\/blog.ufes.br\/luciofassarella\/author\/lucio_souza-fassarella\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"&#8220;Existe algo que une a bruxaria e a ci\u00eancia aplicada ao mesmo tempo que as separa da &#8216;sabedoria&#8217; dos tempos antigos.&#8221; C.S. 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