[Pós-Graduação] “Conservação de estruturas históricas em tijolo: Subsídios para restauração do sítio histórico de Santa Leopoldina-ES”

Título: Conservação de estruturas históricas em tijolo: Subsídios para restauração do sítio histórico de Santa Leopoldina-ES

Orientadora: Renata Hermanny de Almeida.

Bolsista: Luciana da Silva Florenzano

Resumo: Desde as mais remotas civilizações, o homem utiliza o tijolo cerâmico para erguer paredes e materializar a arquitetura, modificando, ao longo da história, a técnica de fabricação e o método construtivo. Os vestígios mais antigos do uso de tijolos datam de 3.000 a.C na Mesopotâmia (OLIVEIRA, 2011. A matéria prima utilizada para fabricação dos artefatos cerâmicos compreende as argilas e os desengordurantes. A argila consiste em um conjunto de minerais, composto sobretudo de silicatos de alumínio hidratados, cuja característica predominante é a propriedade de consolidar em contato com a água uma pasta plástica, passível de moldagem, secagem e endurecimento, se exposta ao calor (PETRUCCI, 1975).. Ademais, como a matéria-prima é abundante no planeta, os produtos cerâmicos se tornam elementos essenciais na história da humanidade. Adquirem, paulatinamente, protagonismo no sistema construtivo em várias regiões geograficamente e culturalmente distintas, tornando-se um dos principais materiais empregados em construções; um elo de temporalidade entre o antigo e o novo. Portanto, é possível afirmar que a história do material cerâmico, e, por consequência, do tijolo tradicional, funde-se à própria história da arquitetura.

Entretanto, embora a técnica da fabricação do tijolo seja conhecida desde os tempos iniciais da civilização, no Brasil o emprego do tijolo na arquitetura é relativamente recente; sendo seu uso popularizado a partir de 1850 (WEIMER, 2005, p. 266). As edificações deste período passam a utilizar predominantemente alvenarias estruturais com o uso de tijolos maciços, já que estes são mais leves e possibilitam paredes de menor espessura, exigindo consequentemente, menos esforço das fundações. O tijolo, então, revela-se como elemento principal no sistema construtivo brasileiro, especialmente nas ultimas décadas do século XIX e no início do século XX.

Diante deste contexto nacional, a partir da década de 1840, a produção arquitetônica no estado do Espírito Santo começa a incorporar novas influências e técnicas construtivas advindas com a produção em massa da Revolução Industrial. No contexto socioeconômico, ressaltam-se as ações políticas do II Império. O Governo imperial, ciente dos impactos que a abolição da escravatura traria a mão-de-obra nacional, elabora programas governamentais de estímulo à imigração europeia não lusitana. Dessa forma, não por acaso, os responsáveis pelo florescimento das cidades do interior espírito-santense não são os nativos brasileiros, tampouco os descentes do colonizador português. São os imigrantes europeus não lusitanos.  A vontade artística dos imigrantes que desbravam o interior espírito-santense incorporam os novos materiais, modificados com a revolução industrial, ao seu espaço geográfico singular. Desse modo, a arquitetura praticada no interior do Espírito Santo se revela como expressão técnica e artística da arquitetura do século XIX, resultando edificações com características bastante diversificadas. Neste contexto, a cidade de Santa Leopoldina é um dos primeiros núcleos urbanos a habitar a região serrana, ocupada inicialmente por imigrantes suíços, e em seguida por colonos de origem germânica, como prussianos, pomeranos e austríacos (SECULT, 2009), cuja ocupação inicia-se a partir de um programa do II Império, na metade do século XIX. Acompanhando a tendência nacional no emprego de tijolos na arquitetura, a grande maioria dos remanescentes arquitetônicos encontrados no Sítio Histórico de Santa Leopoldina é erguida em alvenarias autoportantes de tijolo maciço, revestidos de uma camada de reboco e uma camada pictórica. Nos demais sítios históricos do Espírito Santo, também edificados no século XIX e início XX, este sistema construtivo é igualmente adotado em larga escala. Santa Leopoldina possui significativo acervo arquitetônico, materializado no sítio histórico, e em edifícios isolados em áreas rurais, que caracterizam o conjunto como objeto relevante para documentação patrimonial do sedimento historicamente consolidado no território espírito-santense.  Não obstante, a cidade sofre o impacto de recorrentes enchentes, responsáveis pela inundação total e parcial dos edifícios históricos situados no núcleo urbano. Fato este que justifica e orienta a realização de registros históricos e científicos destas edificações, para que não ocorra, paulatinamente, o desmoronamento dos edifícios, perdendo-se assim, por completo, a obra de arte (BRANDI, 2008).

A existência destas enchentes ocorridas no século XX, cuja frequência ameaça a materialidade presente do sítio histórico, demanda por estudos tecnológicos no objeto-concreto desta pesquisa; cujos imóveis representam um patrimônio de valores artísticos, em vista da estética e da técnica empregadas na edificação; e históricos, por representar momento único no tempo e espaço, na sucessão da história do estado. Se há a problemática inerente do meio inserido, situado em preexistência crítica, cabe a inserção de métodos, teorias e tecnologias disponíveis, manipuladas pelos profissionais competentes para perpetuação da história e memória do sítio histórico.

Em conjunto, o estudo dos materiais e das técnicas construtivas empregadas em edificações históricas de interesse a preservação é determinante a um projeto de restauro, pois conhecer física e quimicamente a materialidade do edifício é preliminar em qualquer orientação quanto ao futuro do patrimônio, principalmente quando são necessárias intervenções na escala arquitetônica. Com efeito, para guiar quaisquer estudos de intervenção restaurativa é fundamental um amplo conhecimento sobre o comportamento das estruturas e a composição dos materiais empregados.

Assim, esta pesquisa se propõe estudar as estruturas históricas em tijolo, presentes nas edificações do Sítio Histórico de Santa Leopoldina, incorporando investigação tecnológica do material cerâmico, bem como tecnologias digitais para documentação e interpretação de processos de degradação e sedimentação de intervenções humanas ocorridas nas alvenarias. O resultado obtido deve fornecer subsídios à aplicação de dados teórico-científicos para futuras intervenções no objeto-concreto; uma vez que deve produzir material inédito sobre os edifícios em questão, que podem vir a contribuir no momento da intervenção patrimonial.

Palavras chave: Estruturas históricas em tijolo, Conservação, Restauração, Santa Leopoldina.

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