Pesquisa mostra que pluma do Amazonas contribui para a vida no fundo do mar

Imagem: Agência Espacial Europeia
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Sueli de Freitas

A dispersão de carbono da pluma fluvial (camada superficial de água doce misturada a sedimentos e nutrientes, que corre dos rios para os oceanos) do Amazonas desempenha um papel fundamental na organização biogeográfica dos organismos bentônicos, isto é, daqueles que vivem no fundo do mar, na plataforma continental Amazonas-Guianas. A conclusão está na dissertação de mestrado da pesquisadora Araiene Pereira, orientada pelo professor Angelo Bernardino, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (PPGBAN) da Ufes, com o título Conexões entre a pluma do rio Amazonas, o carbono orgânico particulado e os padrões biogeográficos bentônicos na margem equatorial do Brasil. O trabalho foi publicado como artigo na revista Frontiers no início de abril. 

O Amazonas é o maior rio do mundo em extensão, ele percorre um longo caminho até chegar ao mar, transportando sedimentos, matéria orgânica e nutrientes vitais para os organismos bentônicos, como estrelas-do-mar, caranguejos e corais. Além do Amazonas, a região está sob influência também do rio Orinoco.

“O maior aporte de nutrientes dos oceanos vem dos rios, eu me dediquei ao estudo do carbono orgânico, em especial do carbono orgânico particulado (COP), que afunda com o passar do tempo, chegando ao fundo do oceano”, afirma a pesquisadora. “A principal descoberta [do estudo] foi a contribuição dessa pluma não só para a superfície dos oceanos, mas também para a vida no fundo do mar. Meu trabalho relaciona essa pluma com a distribuição espacial dos organismos bentônicos.” 

A pesquisa abrangeu o período de 2003 a 2023. Foram utilizados dados de séries temporais da vazão do rio Amazonas na Estação de Óbidos (estação hidrométrica e de monitoramento localizada no município de Óbidos/PA), informações de satélites para calcular a concentração de carbono orgânico ao longo do tempo e registros de ocorrência de invertebrados bentônicos do Sistema de Informação sobre Biodiversidade Oceânica (Obis) – mais de 4.500 registros de organismos bentônicos pertencentes a 12 grandes grupos foram analisados, principalmente artrópodes (camarões), cnidários (corais), equinodermos (estrelas-do-mar) e moluscos (mexilhões). 

Distribuição espacial do carbono orgânico particulado na plataforma continental norte do Brasil

Os resultados mostraram que as concentrações de carbono particulado são altas ao norte da foz do Amazonas, pois as correntes marinhas levam a pluma do rio nessa direção. Com base nisso, foram identificadas quatro regiões da plataforma continental com níveis diferentes de COP. A composição dos grupos de organismos bentônicos variou entre as regiões, indicando que cada área possui comunidades diferentes.

“Na região perto da foz do Amazonas e da Guiana, fatores ligados à pluma do rio, como maior quantidade de carbono e menor salinidade, são os principais responsáveis pela organização das comunidades bentônicas; já nas regiões mais ao norte e próximas ao Orinoco, fatores oceanográficos como temperatura, profundidade e variações de salinidade têm maior influência”, explicou Pereira.

Ameaças 

A pesquisadora alerta para os riscos que as ações antrópicas significam para a biodiversidade da região. Ela destaca que o desmatamento e a construção de barragens, além das mudanças climáticas, ameçam esse ecossistema. “Uma mudança no fluxo do rio, o aumento ou a redução da vazão e o uso de fertilizantes no solo são fatores que podem impactar a qualidade dos nutrientes. Temos que pensar no ecossistema como um todo, na cadeia alimentar e nas comunidades que sobrevivem da pesca. Assim, esse estudo também é interessante para o planejamento de ações na região costeira, bem como para o monitoramento e a implementação de projetos de proteção da biodiversidade”, afirma, destacando a importância do estudo para a definição de políticas econômicas e socioambientais. 

Revisão: Monick Barbosa

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