Pesquisadores propõem inovação no ensino de biotecnologia; estudo foi publicado na revista Nature Biotechnology

Imagem criada por IA
Compartilhe:

Sueli de Freitas

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Ufes em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) apontou uma abordagem inédita no Brasil na formação de biotecnologistas, baseada no desenvolvimento de habilidades para a interlocução desses profissionais com o público-alvo da área, como produtores rurais, cientistas, profissionais do setor produtivo e representantes da sociedade civil. 

O resultado está no artigo Uma abordagem brasileira para o desenvolvimento de habilidades de engajamento de stakeholders em estudantes de graduação em biotecnologia por meio da inovação curricular, publicado neste mês na revista Nature Biotechnology. O texto é assinado pela professora Patrícia Fernandes e pelo professor Antonio Alberto Fernandes (ambos do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Ufes), pelo professor Silas Rodrigues (UFRJ) e pela pesquisadora Deise Capalbo (Embrapa). 

A pesquisa foi desenvolvida com duas turmas da disciplina “Melhoramento Genético e Organismos Geneticamente Modificados (OGMs)” do curso de graduação em Ciências Biológicas – Biotecnologia da UFRJ, campus Duque de Caxias. O trabalho envolveu 97 estudantes, sendo que 71 participaram de atividades remotas e 26 de atividades presenciais.

As intervenções educacionais incluíram sessões com especialistas, diálogos estruturados com agricultores e um agroecólogo, além de produção de podcasts pelos graduandos e graduandas, com resumos semanais dos conteúdos debatidos. Segundo a professora Patrícia Fernandes, cada uma das atividades tinha como alvo competências distintas: “As sessões desenvolveram confiança na interação com especialistas; as conversas com não especialistas enfatizaram a escuta empática e o diálogo; e os podcasts treinaram uma comunicação científica concisa”. 

Além da observação por parte dos professores, foram utilizados no estudo questionários direcionados aos estudantes. A percepção dos especialistas envolvidos no trabalho também foi uma das ferramentas de avaliação. A análise qualitativa identificou resultados temáticos, e dados quantitativos apoiaram métricas de engajamento. “Os resultados demonstraram alta motivação e desenvolvimento significativo em comunicação científica, escuta ativa e diálogo reflexivo”, informou a professora.

Na avaliação de Fernandes, “a inovação curricular [baseada na transversalidade de conteúdos sobre biossegurança e organismos geneticamente modificados] preenche uma lacuna crítica entre o treinamento técnico e as competências socioemocionais, preparando futuros profissionais para navegar em debates polarizados sobre OGMs e edição genética no Brasil”. 

A professora destaca que “o Brasil é reconhecido internacionalmente por ter um sistema regulatório muito sólido em termos de biossegurança e de organismos geneticamente editados, sendo necessário que os estudantes tenham não somente conhecimento técnico, mas os transmitam para a sociedade civil e estejam envolvidos na tomada de decisões”. 

Competências de engajamento

No artigo publicado na Nature Biotechnology, os autores destacam: “Em países como o Brasil, potência agrícola global onde a biotecnologia é fundamental, os paradigmas educacionais frequentemente ficam atrás da aceleração tecnológica. Enquanto as demandas da área evoluem no ritmo da IA [inteligência artificial], o ensino de graduação nas ciências da vida frequentemente permanece ancorado em modelos tradicionais baseados em aulas expositivas que priorizam conteúdo técnico em detrimento de competências socioemocionais essenciais”. E continuam: “Nosso estudo demonstra que competências de engajamento com stakeholders podem ser cultivadas de maneira eficaz dentro de um currículo técnico de biotecnologia por meio de aprendizagem estruturada e experiencial”.

A professora Fernandes lembra que essas questões vêm sendo debatidas ao longo de dez edições do Encontro Bienal de Biossegurança promovidas pela Comissão Interna de Biossegurança da Ufes, da qual ela faz parte. “A gente já vem discutindo há algum tempo o desenvolvimento científico e tecnológico da biotecnologia e biossegurança de organismos geneticamente modificados (transgênicos) e de organismos geneticamente editados (aqueles que não têm gene exógeno), bem como as necessárias habilidades de diálogo e engajamento [dos graduandos e graduandas]. Então esse estudo e a publicação desse artigo são motivos de orgulho muito grande. Uma proposta discutida aqui no Espírito Santo e testada por brasileiros foi recebida tão bem por uma revista de grande alcance internacional”. 

Revisão: Monick Barbosa

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*