Uma pesquisa liderada por membros do Grupo de Estudos e Pesquisas em Oncologia (Geponc) da Ufes, em parceria com a Pan American Health Organization/World Health Organization (Paho/WHO) e a University of Iowa, dos Estados Unidos, alerta para o aumento dos casos de câncer diagnosticados antes dos 50 anos na América Latina e Caribe.
Os pesquisadores apontam que o câncer de início precoce deve ser reconhecido como um desafio emergente de saúde pública para a região. Segundo o professor Luís Carlos Lopes-Júnior, coordenador do Geponc/Ufes, “o fortalecimento dos registros populacionais, a harmonização da coleta de dados e a construção de redes colaborativas regionais são medidas urgentes para que os países possam monitorar e responder adequadamente ao fenômeno”, acrescenta ele.

No estudo, foram analisados 4.426 registros científicos e, após um rigoroso processo de seleção, foram escolhidas 28 publicações provenientes de 11 dos 33 países da América Latina e Caribe. O Brasil respondeu por quase metade das publicações identificadas.
De acordo com Lopes-Júnior, “os resultados apontam tendências crescentes para diferentes tipos de câncer diagnosticados antes dos 50 anos, especialmente câncer de mama, câncer colorretal, câncer de tireoide e adenocarcinoma do colo do útero, embora os padrões variem entre países e populações”.
Ele cita que, no Brasil, “um dos estudos incluídos mostrou que, entre mulheres de 20 a 39 anos no estado de Goiás, a incidência de câncer de mama passou de 2,89 para 6,37 casos por 100 mil mulheres/ano, entre 1988 e 2003, correspondendo a um crescimento percentual médio anual de 5,22%”.
Em relação ao câncer colorretal, “foram observadas tendências de aumento no Brasil e no Uruguai, enquanto dados provenientes do Peru indicaram redução da incidência”.
No que diz respeito ao câncer do colo do útero, os pesquisadores também identificaram comportamentos distintos de acordo com o subtipo histológico, ou seja, conforme o tecido/célula no qual o tumor se originou. “Enquanto houve redução do carcinoma de células escamosas [células que revestem a superfície de órgãos], o adenocarcinoma [células glandulares] apresentou aumento em determinados contextos”.
A partir das evidências encontradas, os autores propõem três grandes prioridades para a região: fortalecer e padronizar os registros populacionais de câncer; ampliar estudos multicêntricos e redes regionais de colaboração; e avançar na integração de dados epidemiológicos, clínicos, genômicos e moleculares.
Publicação
O estudo foi publicado no eClinicalMedicine, periódico da The Lancet Discovery Science, com o título Câncer de início precoce na América Latina: tendências de incidência, lacunas de evidências e implicações clínicas. A publicação é fruto do pós-doutorado de Lopes-Júnior, realizado no Departamento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis – Divisão de Câncer da Pan American Health Organization/World Health Organization (Paho/WHO) em Washington, nos Estados Unidos.
No artigo, os autores ressaltam que fatores como obesidade, consumo de álcool, tabagismo, padrões alimentares ocidentalizados e desigualdades socioeconômicas foram relatados em alguns dos estudos incluídos. Entretanto, os autores destacam que esses resultados devem ser interpretados como exploratórios, uma vez que a revisão não foi desenhada especificamente para sintetizar evidências etiológicas, ou seja, as causas da doença.
Desafios
Para os pesquisadores, “um dos resultados mais relevantes do trabalho não está apenas nas tendências de crescimento identificadas, mas também naquilo que ainda não se conhece”. Dos 33 países da América Latina e do Caribe, apenas cerca de um terço apresentou estudos elegíveis sobre câncer de início precoce. “Além disso, a literatura disponível é predominantemente formada por estudos observacionais e descritivos, com diferenças importantes nas fontes de dados e nos grupos etários avaliados”, informou Lopes-Júnior.
Ele acrescenta que a ausência de sistemas robustos e comparáveis de vigilância dificulta dimensionar adequadamente o fenômeno na região. “Não podemos planejar estratégias efetivas de prevenção e detecção precoce sem sistemas de vigilância capazes de mostrar onde, entre quem e com que velocidade esses cânceres estão aumentando”.
Para Lopes-Júnior, é necessário avançar para uma agenda científica capaz de compreender os determinantes do aumento da incidência de câncer precoce. “Isso envolve estudar exposições ambientais e comportamentais ao longo da vida, fatores metabólicos, características genéticas e moleculares e as desigualdades sociais e de acesso aos sistemas de saúde. A América Latina possui enorme diversidade social, ambiental e genética, e produzir ciência a partir dessa realidade é fundamental para que nossas populações estejam representadas nas evidências que irão orientar as políticas de controle do câncer e o desenvolvimento da oncologia de precisão nas próximas décadas”, destaca Lopes Júnior.
A pesquisa e a publicação do artigo reforçam a atuação do Geponc/Ufes na investigação epidemiológica do câncer e na produção de evidências voltadas à saúde pública e ao controle da doença, além de reafirmar a inserção da Universidade em uma agenda internacional que busca compreender por que alguns tipos de câncer vêm atingindo populações cada vez mais jovens.
Edição: Sueli de Freitas
Revisão: Pedro Brito
Imagem: Freepik
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