{"id":119,"date":"2018-06-07T12:31:17","date_gmt":"2018-06-07T15:31:17","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/?p=119"},"modified":"2019-08-08T10:50:53","modified_gmt":"2019-08-08T13:50:53","slug":"o-que-deve-vencer-sempre-e-a-competencia-diz-professora-cristina-engel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2018\/06\/07\/o-que-deve-vencer-sempre-e-a-competencia-diz-professora-cristina-engel\/","title":{"rendered":"&#8220;O que deve vencer sempre \u00e9 a compet\u00eancia&#8221;, diz professora Cristina Engel"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>\u201cA mulher est\u00e1 sentada na \u00faltima fileira da enorme plateia, buscando algo em sua bolsa. Mesmo sentada, \u00e9 percept\u00edvel se tratar de uma mulher alta, de postura elegante, longas pernas e grandes olhos. Concentrada na busca, n\u00e3o percebe um homem aproximar-se e sentar-se ao seu lado, com um copo na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Na sala ao lado acontece um coquetel e todos est\u00e3o sendo chamados a entrar na sala de confer\u00eancias. Ele logo inicia uma conversa, j\u00e1 com adjetivos pejorativos e preconceituosos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 palestrante que em breve subiria ao palco e que ele, certamente, n\u00e3o conhece. Ela percebe que o homem est\u00e1 levemente alterado e procura afast\u00e1-lo, por\u00e9m sem sucesso.<\/p>\n<p>Sentindo-se totalmente \u00e0 vontade, o homem, ent\u00e3o lhe faz elogios inconvenientes, ao mesmo tempo que continua tecendo coment\u00e1rios preconceituosos sobre a autoridade que iria proferir a palestra, utilizando termos como &#8216;essa mulherzinha&#8217;, &#8216;o que ela teria a nos ensinar?&#8217; e coment\u00e1rios ainda mais ofensivas como &#8216;ela deve ter um caso com um militar importante para estar aqui&#8217;.<\/p>\n<p>Ao sinal de espanto da interlocutora, o homem ainda pergunta: &#8216;desculpe-me, \u00e9 sua conhecida? Seria parente sua?&#8217;. O momento constrangedor \u00e9 interrompido pelo mestre de cerim\u00f4nias que inicia o evento, chamando a aten\u00e7\u00e3o de todos e anunciando a ilustre convidada. Como de praxe, o anfitri\u00e3o tece uma s\u00e9rie de coment\u00e1rios elogiosos, descrevendo os t\u00edtulos, as publica\u00e7\u00f5es, os pr\u00eamios e as homenagens recebidas pela convidada. O homem faz uma express\u00e3o de deboche, como se estivesse falsamente impressionado. Ao fim da descri\u00e7\u00e3o, o mestre de cerim\u00f4nias pede que a convidada suba ao palco. Para espanto do inconveniente espectador, a mulher pega o passador de slides que buscava na bolsa, levanta-se e comenta: &#8216;N\u00e3o, a Dra. Cristina n\u00e3o \u00e9 minha parente: ela sou eu&#8217;. Dirige-se ao palco em passos firmes, sendo aplaudida por uma plateia lotada e entusiasmada. Ao chegar ao palco, vira-se para a audi\u00eancia e percebe, satisfeita, que o desagrad\u00e1vel homem sumiu.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa \u00e9 uma hist\u00f3ria verdadeira descrita pela professora Cristina Engel de Alvarez, do Departamento de Arquitetura da Ufes. Confira abaixo outros desafios vivenciados pela pesquisadora.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-41 aligncenter\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2018\/05\/Mulheres_foto_crisitina2.jpg\" alt=\"\" width=\"669\" height=\"411\"><\/p>\n<h6><em>As pesquisas a respeito de condicionantes para edifica\u00e7\u00f5es em ambientes extremos ajudaram a professora Cristina Engel de <\/em><em>Alvarez no projeto de constru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o da Esta\u00e7\u00e3o Ant\u00e1rtica Comandante Ferraz<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Confira tamb\u00e9m:<\/h4>\n<p><span style=\"color: #800080\"><a href=\"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2018\/05\/24\/mulheres-e-as-pesquisas-na-ufes\">Mulheres s\u00e3o 44% das pesquisadoras na Ufes<\/a><\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2018\/06\/07\/superacao-do-preconceito-de-genero-poderia-melhorar-a-ciencia-afirma-professora-fabricia-benda\/\">\u201cSupera\u00e7\u00e3o do preconceito de g\u00eanero poderia melhorar a ci\u00eancia\u201d, afirma professora Fabr\u00edcia Benda<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2018\/06\/08\/pesquisadoras-no-programa-produtividade-em-pesquisa-do-cnpq\/\">Pesquisadoras no Programa Produtividade em Pesquisa do CNPq<\/a><\/p>\n<h3>Tipos de preconceito<\/h3>\n<blockquote><p>\u201cAcredito que \u00e9 importante &#8216;classificar&#8217; as formas de a\u00e7\u00e3o preconceituosa, ou seja, aquelas que acontecem de forma direta, em que \u00e9 facilmente percept\u00edvel quem \u00e9 o agressor e a agredida; e a indireta, que muitas vezes \u00e9 t\u00e3o ou mais ofensivo que a direta. Acho que \u00e9 esse preconceito sutil o que mais me atinge ou atingiu ao longo da carreira. Por exemplo, \u00e9 mais comum do que se imagina aquela cena em que um homem e uma mulher \u2013 de mesmo n\u00edvel hier\u00e1rquico e de forma\u00e7\u00e3o \u2013 vistoriam uma obra, e o encarregado se dirige somente ao homem, pressupondo que mulher n\u00e3o entende do assunto.<\/p>\n<p>Muitas vezes, essa mesma situa\u00e7\u00e3o acontece em reuni\u00f5es de trabalho em ambientes caracteristicamente masculinos \u2013 como no meio militar, por exemplo \u2013 em que os aspectos levantados por uma mulher s\u00e3o tratados como de menor import\u00e2ncia. Se a mulher for jovem e, eventualmente, de boa apar\u00eancia, a situa\u00e7\u00e3o pode ficar ainda pior, com sorrisinhos e gestos recheados de mal\u00edcia, por\u00e9m que parecem, num olhar externo, a\u00e7\u00f5es de gentileza.<\/p>\n<p>Existem ainda os preconceitos que se confundem com cren\u00e7as. Como tenho que embarcar em navios \u2013 civis e militares \u2013 para desenvolver algumas das minhas atividades de pesquisa, n\u00e3o foram poucas as vezes que ouvi que &#8216;mulher a bordo d\u00e1 azar&#8217; fazendo com que as viagens ficassem, de fato, bastante desagrad\u00e1veis.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 tamb\u00e9m um outro lado nessa hist\u00f3ria de viagens, em que a condi\u00e7\u00e3o da mulher embarcada, muitas vezes, gera uma situa\u00e7\u00e3o privilegiada, seja nas acomoda\u00e7\u00f5es, seja em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia. E ainda falando de navios, n\u00e3o se pode tamb\u00e9m deixar de mencionar o preconceito da mulher com outra mulher. Foram muitos os &#8216;olhares enviesados\u201d que recebi nos portos, quando esposas ou namoradas de oficiais embarcados me olhavam com desd\u00e9m. Nas minhas primeiras expedi\u00e7\u00f5es \u00e0 Ant\u00e1rtida, depois de passar 30 ou 40 dias fora de casa, essa &#8216;recep\u00e7\u00e3o&#8217; era bastante dolorida&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 passei por v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es curiosas tamb\u00e9m, como a hist\u00f3ria contada no in\u00edcio. Acho que foi nesse momento que percebi que minha luta teria de ser, sempre, permeada de alguma intelig\u00eancia e recheada de bom humor!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m j\u00e1 senti o preconceito por ser mulher e latino-americana em alguns eventos internacionais e acredito, embora seja somente uma percep\u00e7\u00e3o, que alguns avaliadores de grandes projetos, quando se deparam com propostas tendo como coordenadores homens europeus ou mulheres latino-americanas, tendem para a primeira op\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<h3>Equipe<\/h3>\n<blockquote><p>\u201cA maior parte da minha equipe, atualmente, \u00e9 composta por mulheres, mas provavelmente porque as mulheres, atualmente, tamb\u00e9m s\u00e3o o maior universo no \u00e2mbito da Arquitetura. O tema \u00e9 lidado com bom humor na equipe, quase sempre envolvendo tamb\u00e9m os rapazes. N\u00e3o h\u00e1 tratamento diferenciado, seja para um lado seja para outro.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<h3>Cargos de chefia<\/h3>\n<blockquote><p>\u201cTenho 30 anos de carreira como pesquisadora e, nesse tempo, n\u00e3o foram poucos os enfrentamentos. Com a maturidade, tamb\u00e9m aprendi a ter orgulho de ser mulher e sei que n\u00e3o preciso me esconder atr\u00e1s do estere\u00f3tipo que se espera da denominada &#8216;mulher cientista&#8217; para demonstrar capacidade. Sou vaidosa, sorrio com facilidade e adoro ganhar flores! Isso em nada me diminui como a pesquisadora que sou.<\/p>\n<p>\u00c9 indiscut\u00edvel que existe o preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da mulher, especialmente em cargos de chefia ou coordena\u00e7\u00e3o. Acho que o preconceito velado, aquele que mencionei no in\u00edcio, \u00e9 o pior deles, pois n\u00e3o h\u00e1 legisla\u00e7\u00e3o ou instrumentos semelhantes que permitam o seu efetivo controle.<\/p>\n<p>No entanto, confesso que cada pequena vit\u00f3ria sobre essas atitudes foi exaustivamente comemorada e percebi que, com alguma intelig\u00eancia, tamb\u00e9m era poss\u00edvel fazer com que esse tipo de a\u00e7\u00e3o fosse anulada ou at\u00e9 mesmo revertida a meu favor. Acredito que, no final das contas, o que tem vencido e o que deve vencer sempre \u00e9 a compet\u00eancia.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<h4>Confira tamb\u00e9m:<\/h4>\n<p><span style=\"color: #800080\"><a href=\"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2018\/05\/24\/mulheres-e-as-pesquisas-na-ufes\">Mulheres s\u00e3o 44% das pesquisadoras na Ufes<\/a> <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>\u201cA mulher est\u00e1 sentada na \u00faltima fileira da enorme plateia, buscando algo em sua bolsa. 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