{"id":1958,"date":"2021-08-30T13:10:45","date_gmt":"2021-08-30T16:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/?p=1958"},"modified":"2021-09-28T11:30:15","modified_gmt":"2021-09-28T14:30:15","slug":"nos-15-anos-da-lei-maria-da-penha-pesquisadora-alerta-sobre-a-reproducao-do-machismo-e-da-violencia-por-meio-da-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2021\/08\/30\/nos-15-anos-da-lei-maria-da-penha-pesquisadora-alerta-sobre-a-reproducao-do-machismo-e-da-violencia-por-meio-da-linguagem\/","title":{"rendered":"Maria da Penha, 15 anos : pesquisadora alerta sobre reprodu\u00e7\u00e3o do machismo e da viol\u00eancia por meio da linguagem"},"content":{"rendered":"\n<p><em>&#8211; Por H\u00e9lio Marchioni e Lidia Neves &#8211; <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os estudos da linguagem t\u00eam um papel essencial para mostrar como as nossas pr\u00e1ticas sociais refor\u00e7am, naturalizam e individualizam casos de viol\u00eancia contra as mulheres, pelo uso que fazemos da linguagem.&#8221; A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 da professora do Departamento de L\u00ednguas e Letras da Ufes Micheline Tomazi, que participou do programa <em>Ci\u00eancia Ufes<\/em> na R\u00e1dio Universit\u00e1ria 104.7 FM, marcando os 15 anos da Lei Maria da Penha.<\/p>\n\n\n\n<p>A Lei 11.340, sancionada em 7 de agosto de 2006, recebeu o nome de Maria da Penha Fernandes, que foi v\u00edtima de viol\u00eancia e lutou para que seu agressor fosse punido por tentativa dupla de feminic\u00eddio. &#8220;Para n\u00f3s, essa lei chegou por uma condena\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Estado brasileiro pela Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Brasileiros. Isso por neglig\u00eancia, omiss\u00e3o e toler\u00e2ncia nossa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia sofrida por Maria da Penha Fernandes. Ela foi al\u00e9m para buscar justi\u00e7a&#8221;, lembra Micheline Tomazi.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"https:\/\/podcasts.google.com\/feed\/aHR0cHM6Ly9hbmNob3IuZm0vcy80MGZiOTY4Yy9wb2RjYXN0L3Jzcw\/episode\/YWFlMTFkMTctMjNhYy00ZTY1LTlkZjYtNDI2YmM5YzExOGM5?hl=pt-BR&amp;ved=2ahUKEwjo--7YyNHyAhVDA9QKHU8CD28QjrkEegQIAhAF&amp;ep=6\">Ou\u00e7a a entrevista na \u00edntegra<\/a><\/h3>\n\n\n\n<p>A professora destaca que a lei consta entre as tr\u00eas mais reconhecidas do mundo para a&nbsp; preven\u00e7\u00e3o, erradica\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia contra mulheres e que, ap\u00f3s sua san\u00e7\u00e3o, a legisla\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi ampliada com a Lei do Feminic\u00eddio (13.104) e a lei 14.188m sancionada este ano, que criminaliza viol\u00eancia psicol\u00f3gica contra a mulher e define o programa Opera\u00e7\u00e3o Sinal Vermelho, em que a mulher faz um X vermelho na m\u00e3o para indicar que est\u00e1 sendo v\u00edtima de viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Esse sinal vermelho j\u00e1 \u00e9 linguagem, diz muita coisa para n\u00f3s. Qualquer lei no papel s\u00f3 ter\u00e1 efic\u00e1cia se as nossas pr\u00e1ticas sociais mudarem e se as nossas pol\u00edticas p\u00fablicas forem de fato eficazes. Por isso, \u00e9 importante pensar sobre o lugar dos estudos lingu\u00edsticos no enfrentamento do machismo estrutural e dos preconceitos contra as mulheres &#8220;, destaca Micheline Tomazi, que coordena o <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/gedim_ufes\/\">Grupo de Estudos sobre Discurso da M\u00eddia<\/a> (Gedim).<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ressalta que a lei que criminaliza a viol\u00eancia psicol\u00f3gica refor\u00e7a a import\u00e2ncia dos estudos discursivos, uma vez que se trata de um tipo de agress\u00e3o mais dif\u00edcil de provar. Em seus estudos, Micheline Tomazi analisa os discursos sobre a viol\u00eancia contra a mulher&nbsp; nos meios de comunica\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Viol\u00eancia contra a mulher na m\u00eddia<\/h3>\n\n\n\n<p>A linguagem refor\u00e7a aspectos da nossa sociedade, entre eles o machismo, os estere\u00f3tipos contra as mulheres e a discrimina\u00e7\u00e3o, alerta a professora. a viol\u00eancia reflete uma conduta que nos foi ensinada. &#8220;Ningu\u00e9m nasce machista, mis\u00f3gino ou racista, somos ensinados a ter determinadas cren\u00e7as que s\u00e3o reproduzidas na sociedade. o machismo estrutural vem justamente dessas cren\u00e7as, e junto com ele, vem tamb\u00e9m o machismo recreativo. A linguagem refor\u00e7a o machismo, os estere\u00f3tipos contra as mulheres, a discrimina\u00e7\u00e3o.&nbsp;&#8220;<\/p>\n\n\n\n<p>A professora explica que, desde 2012, a pesquisa \u00e9 realizada por meio da coleta de not\u00edcias e reportagens nos jornais capixabas sobre viol\u00eancia contra a mulher. &#8220;Eu me interesso pela viol\u00eancia afetivo-conjugal e alguns alunos meus trabalham, por exemplo, com situa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio e outros tipos de viol\u00eancia e como elas s\u00e3o representadas na m\u00eddia&#8221;, detalha a pesquisadora, que concentra as an\u00e1lises na manchete e no primeiro par\u00e1grafo do texto jornal\u00edstico, chamado <em>lead. <\/em>Em an\u00e1lises mais recentes, nas redes sociais, s\u00e3o observados a chamada do post e a manchete da not\u00edcia compartilhada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Notamos que essas informa\u00e7\u00f5es trazem categorias de circunst\u00e2ncias da agress\u00e3o, da localiza\u00e7\u00e3o onde o crime aconteceu, do instrumento utilizado, do quanto o crime foi cruel e outras que n\u00e3o contribuem para a discuss\u00e3o sobre esse tipo de viol\u00eancia e sobre as estruturas sociais patriarcais, machistas e mis\u00f3ginas. Essas manchetes tendem a justificar a agress\u00e3o. isso \u00e9 o que faz que os homens se achem no direito de agredir essas mulheres&#8221;, afirma a professora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Micheline Tomazi alerta tamb\u00e9m para o &#8220;apagamento do agressor&#8221; nessas not\u00edcias, em manchetes como, por exemplo, &#8216;Agredida ap\u00f3s fazer sucesso no Facebook&#8217; ou &#8216;Mulher apanha por olhar as liga\u00e7\u00f5es no celular do marido&#8217;. &#8220;A constru\u00e7\u00e3o da estrutura lingu\u00edstica traz uma rela\u00e7\u00e3o com o comportamento da mulher, e n\u00e3o com a agress\u00e3o que ela sofreu. Ent\u00e3o \u00e9 como se as mulheres, mesmo nas manchetes, fossem julgadas por seus relacionamentos.&#8221;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo recorrente destacado pela pesquisadora \u00e9 o uso do conector &#8216;e&#8217;. &#8220;Em manchetes como &#8216;Gr\u00e1vida pede p\u00e3o ao marido e leva surra&#8217; ou &#8216;Mulher usa rel\u00f3gio novo e \u00e9 espancada pelo marido&#8217;, a a\u00e7\u00e3o da mulher parece que justifica uma a\u00e7\u00e3o consequente do homem, ou seja, o que est\u00e1 expresso na estrutura discursiva d\u00e1 uma ideia de causa e consequ\u00eancia&#8221;, explica, ressaltando a import\u00e2ncia de o jornalismo procurar evitar esse efeito de sentido em suas manchetes.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Propostas<\/h3>\n\n\n\n<p>Como sugest\u00e3o para que a m\u00eddia contribua para reduzir a viol\u00eancia contra a mulher, Micheline Tomazi aponta a necessidade de destacar o agressor, e n\u00e3o a mulher agredida, uma vez que &#8220;foi ele quem fez algo errado&#8221;. Outro cuidado a ser tomado \u00e9 a decis\u00e3o destacar ou n\u00e3o a profiss\u00e3o, uma vez que esse destaque tem sido feito principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s profiss\u00f5es menos valorizadas da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora chama a aten\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, para a viol\u00eancia verbal nas redes sociais, que pode refor\u00e7ar, dentro dos lares, a presen\u00e7a de uma constru\u00e7\u00e3o discursiva que valida o comportamento do agressor. &#8220;Fui buscar como a sociedade recebe essas not\u00edcias, analisando coment\u00e1rios nas redes sociais. A viol\u00eancia verbal est\u00e1 muito presente nesses coment\u00e1rios, tanto culpabilizando o homem por essa viol\u00eancia, quanto tamb\u00e9m as mulheres&#8221;, alerta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>&#8220;Os estudos da linguagem t\u00eam um papel essencial para mostrar como as nossas pr\u00e1ticas sociais refor\u00e7am, naturalizam e individualizam casos de viol\u00eancia contra as mulheres, pelo uso que fazemos da linguagem&#8221;, afirma a professora Micheline Tomazi<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":350,"featured_media":1959,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_uag_custom_page_level_css":"","footnotes":""},"categories":[7,9,47],"tags":[],"class_list":["post-1958","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-chamadinhas","category-noticias","category-online"],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2021\/08\/x-violencia-contra-mulher-paulo-carvalho-abr-ebc.jpeg",1170,700,false],"thumbnail":["https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2021\/08\/x-violencia-contra-mulher-paulo-carvalho-abr-ebc-150x150.jpeg",150,150,true],"medium":["https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2021\/08\/x-violencia-contra-mulher-paulo-carvalho-abr-ebc-300x179.jpeg",300,179,true],"medium_large":["https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2021\/08\/x-violencia-contra-mulher-paulo-carvalho-abr-ebc-768x459.jpeg",768,459,true],"large":["https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2021\/08\/x-violencia-contra-mulher-paulo-carvalho-abr-ebc-1024x613.jpeg",1024,613,true],"1536x1536":["https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2021\/08\/x-violencia-contra-mulher-paulo-carvalho-abr-ebc.jpeg",1170,700,false],"2048x2048":["https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2021\/08\/x-violencia-contra-mulher-paulo-carvalho-abr-ebc.jpeg",1170,700,false],"mh-magazine-lite-slider":["https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2021\/08\/x-violencia-contra-mulher-paulo-carvalho-abr-ebc-1030x438.jpeg",1030,438,true],"mh-magazine-lite-content":["https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2021\/08\/x-violencia-contra-mulher-paulo-carvalho-abr-ebc-678x381.jpeg",678,381,true],"mh-magazine-lite-large":["https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2021\/08\/x-violencia-contra-mulher-paulo-carvalho-abr-ebc-678x509.jpeg",678,509,true],"mh-magazine-lite-medium":["https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2021\/08\/x-violencia-contra-mulher-paulo-carvalho-abr-ebc-326x245.jpeg",326,245,true],"mh-magazine-lite-small":["https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2021\/08\/x-violencia-contra-mulher-paulo-carvalho-abr-ebc-80x60.jpeg",80,60,true]},"uagb_author_info":{"display_name":"lidia.hora","author_link":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/author\/lidia_gurgel-neves-hora\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"\"Os estudos da linguagem t\u00eam um papel essencial para mostrar como as nossas pr\u00e1ticas sociais refor\u00e7am, naturalizam e individualizam casos de viol\u00eancia contra as mulheres, pelo uso que fazemos da linguagem\", afirma a professora Micheline Tomazi","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1958","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/350"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1958"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1958\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1993,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1958\/revisions\/1993"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1959"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1958"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1958"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1958"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}