{"id":2187,"date":"2022-02-24T07:48:26","date_gmt":"2022-02-24T10:48:26","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/?p=2187"},"modified":"2022-03-21T17:05:58","modified_gmt":"2022-03-21T20:05:58","slug":"nos-90-anos-do-voto-feminino-pesquisadoras-apontam-desafios-para-a-igualdade-de-genero-na-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2022\/02\/24\/nos-90-anos-do-voto-feminino-pesquisadoras-apontam-desafios-para-a-igualdade-de-genero-na-politica\/","title":{"rendered":"Nos 90 anos do voto feminino, pesquisadoras apontam desafios para a igualdade de g\u00eanero na pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8211; Por No\u00e9lia Lopes* &#8211; <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Noventa anos ap\u00f3s a conquista do sufr\u00e1gio feminino no Brasil, movimento pol\u00edtico e social que estendeu \u00e0s mulheres o direito ao voto, elas ainda s\u00e3o minoria nos espa\u00e7os de poder. A partir de estudos desenvolvidos, as pesquisadoras L\u00edvia Rangel e Tanya Kruger,&nbsp; do Laborat\u00f3rio de Estudos de G\u00eanero, Poder e Viol\u00eancia (LEG\/Ufes), explicam os fatores hist\u00f3ricos por tr\u00e1s da persist\u00eancia desse quadro de sub-representa\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica institucionalizada. Ambas as disserta\u00e7\u00f5es foram orientadas pela professora Maria Beatriz Nader, do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Social das Rela\u00e7\u00f5es Pol\u00edticas da Universidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O direito ao voto feminino, conquistado em 24 de fevereiro de 1932, inicialmente era limitado \u00e0s mulheres casadas que tivessem a autoriza\u00e7\u00e3o dos maridos e \u00e0s solteiras e vi\u00favas que tivessem renda pr\u00f3pria. Foi resultado da luta constante das sufragistas no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX e est\u00e1 diretamente ligado aos desejos das mulheres da \u00e9poca, de participa\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho e de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00edvia Rangel, p\u00f3s-doutoranda em Hist\u00f3ria na Ufes, destacou essa rela\u00e7\u00e3o em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, intitulada &#8220;<a href=\"https:\/\/ape.es.gov.br\/Media\/ape\/PDF\/Disserta%C3%A7%C3%B5es%20e%20Teses\/Hist%C3%B3ria-UFES\/UFES_PPGHIS_L%C3%8DVIA_AZEVEDO_SILVEIRA_RANGEL.pdf\">Feminismo Ideal e Sadio: a constru\u00e7\u00e3o dos discursos feministas nas vozes das mulheres intelectuais capixabas<\/a>&#8221; e defendida em 2011. \u201cO aumento da participa\u00e7\u00e3o das mulheres das elites urbanas e das classes oper\u00e1rias no mercado de trabalho contribuiu para que o sufr\u00e1gio feminino fosse reconhecido, por\u00e9m, a participa\u00e7\u00e3o ativa de mulheres \u2013 como Bertha Lutz, Carlota Pereira de Queiroz e, no Esp\u00edrito Santo, Judith Le\u00e3o Castello \u2013 tamb\u00e9m ajudou a entoar nacionalmente a proposta da emancipa\u00e7\u00e3o pela cidadania pol\u00edtica, fazendo com que as mulheres pudessem votar e se eleger\u201d, destaca a pesquisadora, que atualmente estuda transnacionalidade e est\u00e9ticas feministas na trajet\u00f3ria e obra de mulheres fot\u00f3grafas latino-americanas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sub-representa\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de a conquista do voto ter possibilitado o exerc\u00edcio dos direitos pol\u00edticos pelas mulheres, elas continuam sub-representadas nos ambientes formais de poder. No Brasil, apenas 14,9% do total de parlamentares s\u00e3o mulheres, segundo a <a href=\"https:\/\/www.ipu.org\/\">Inter-Parliamentary Union<\/a>, \u00edndice bastante inferior \u00e0 m\u00e9dia global, que corresponde a 25,9%. O pa\u00eds ocupa a 145<sup>a<\/sup> posi\u00e7\u00e3o no ranking. J\u00e1 no contexto regional, o Esp\u00edrito Santo possui apenas<a href=\"https:\/\/www.tre-es.jus.br\/imprensa\/noticias-tre-es\/2021\/Marco\/tre-es-promove-debate-sobre-a-participacao-feminina-na-politica-estadual-e-nacional-na-proxima-sexta-feira-05-as-9h\"> 5% de representa\u00e7\u00e3o feminina<\/a> nos cargos pol\u00edticos, sendo que 52% das eleitoras s\u00e3o mulheres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para L\u00edvia Rangel, a mentalidade patriarcal \u00e9 um dos motivos que explicam o fato. \u201cA sociedade \u00e9 machista e existe a no\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria, de que cada g\u00eanero tem um papel predeterminado na sociedade e na fam\u00edlia. Assim, as mulheres s\u00e3o reduzidas \u00e0 biologia, \u00e0 casa e aos filhos, enquanto os homens s\u00e3o destinados aos neg\u00f3cios e ao espa\u00e7o p\u00fablico. Nesse sentido, s\u00e3o usados argumentos como &#8216;elas n\u00e3o se interessam&#8217;, &#8216;n\u00e3o entendem&#8217; ou &#8216;n\u00e3o nasceram para isso&#8217;.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa mentalidade se traduz em uma divis\u00e3o sexual do trabalho, segundo Tanya Kruger, que \u00e9 mestre em Hist\u00f3ria Social das Rela\u00e7\u00f5es Pol\u00edticas pela Ufes. Em sua disserta\u00e7\u00e3o, \u201c<a href=\"https:\/\/sappg.ufes.br\/tese_drupal\/\/tese_11968_PORS%20TR%C1S%20DAS%20URNAS%20-%20capa%20dura20200630-125518.pdf\">Por tr\u00e1s das urnas: mulheres, poder e pol\u00edtica no Esp\u00edrito Santo de 1982-2018\u201d<\/a>, defendida em 2020, ela ressalta as consequ\u00eancias dessa vis\u00e3o de mundo para a entrada das mulheres na pol\u00edtica. &#8220;H\u00e1 assimetrias sobre os servi\u00e7os dom\u00e9sticos, cabendo \u00e0 mulher, ainda hoje, o cuidado com a casa e a fam\u00edlia, o que as sobrecarrega. H\u00e1 uma dificuldade para elas escolherem estar no ambiente pol\u00edtico, que requer tempo, capital e participa\u00e7\u00e3o no partido, uma vez que tamb\u00e9m est\u00e3o imersas nessas jornadas com o lar e os filhos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kruger tamb\u00e9m aborda, em sua pesquisa, a nova Lei das Elei\u00e7\u00f5es (n\u00ba 9.504\/1997), que passou a valer no pleito municipal de 2020 e obriga os partidos a indicarem mulheres a pelo menos 30% das candidaturas. \u201cA lei de cotas \u00e9 a \u00fanica a\u00e7\u00e3o afirmativa institucionalizada em prol da participa\u00e7\u00e3o feminina na pol\u00edtica. Contudo, ela n\u00e3o \u00e9 suficiente, pois existem muitas mulheres feitas de &#8216;laranjas&#8217;, ou seja, que n\u00e3o v\u00e3o participar de campanhas e do pleito, apenas estar\u00e3o l\u00e1 para preencher a cota exigida\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de eleitas, o desafio \u00e9 ocupar espa\u00e7os dentro do partido e dos espa\u00e7os de poder. \u201cAo imaginar uma figura de autoridade ou de poder, imaginamos um homem, \u00e0s vezes branco, h\u00e9tero, engravatado&nbsp;\u2013 \u00e9 raro imaginar uma mulher. E isso influencia na hora das escolhas para compor o diret\u00f3rio partid\u00e1rio, de conseguir a aprova\u00e7\u00e3o&nbsp; de um projeto de lei, de ocupar uma mesa diretora, de compor uma comiss\u00e3o. Ou seja, s\u00e3o v\u00e1rios obst\u00e1culos que elas t\u00eam de percorrer\u201d, complementa Kruger.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa imagem do poder associado a figuras masculinas tamb\u00e9m colabora para que as mulheres sejam questionadas e hostilizadas nos espa\u00e7os p\u00fablicos, segundo Rangel. \u201cDesde crian\u00e7as, somos bombardeadas com imagens masculinas representando poder, for\u00e7a, seguran\u00e7a, racioc\u00ednio. E todas as mulheres que se destacaram na pol\u00edtica, como a [ex-primeira-ministra brit\u00e2nica] Margaret Thatcher, s\u00e3o apresentadas como excepcionais, algu\u00e9m fora do seu lugar, dotada de capacidades pr\u00f3prias dos homens\u201d, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como consequ\u00eancia, epis\u00f3dios de viol\u00eancia de g\u00eanero que se manifestam, segundo as pesquisadoras, em interrup\u00e7\u00f5es de fala, amea\u00e7as, ofensas \u00e0 honra e \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o, exclus\u00e3o de debates, invas\u00e3o de privacidade, atos de manipula\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e, principalmente, nos discursos de desqualifica\u00e7\u00e3o da compet\u00eancia da mulher pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Perspectivas<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante disso, ambas as pesquisadoras refor\u00e7am a import\u00e2ncia de fortalecer o debate sobre a participa\u00e7\u00e3o da mulher na pol\u00edtica, para al\u00e9m dos per\u00edodos eleitorais. \u201cTalvez seja hora de irmos \u00e0s entranhas do problema, ampliar sua discuss\u00e3o, articular melhor a nossa pr\u00f3pria compreens\u00e3o do que \u00e9 pol\u00edtica e dobrar seu significado, para que pare\u00e7a menos com a foto de um homem branco, de meia-idade, engravatado\u201d, ressalta Rangel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra proposta indicada na pesquisa de Kruger, a partir das entrevistas realizadas com deputadas do Esp\u00edrito Santo, \u00e9 a de fortalecer a legisla\u00e7\u00e3o. \u201cA lei atual garante a participa\u00e7\u00e3o das mulheres durante as elei\u00e7\u00f5es, mas na vis\u00e3o das deputadas, para melhorar o quadro de sub-representa\u00e7\u00e3o, teria que haver percentual m\u00ednimo de mulheres eleitas\u201d, detalha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A unifica\u00e7\u00e3o com outras lutas femininas tamb\u00e9m pode contribuir para melhorar esse quadro, no entendimento de L\u00edvia Rangel. \u201cO futuro das mulheres na pol\u00edtica passa por outras pautas de luta, como o enfrentamento ao machismo, \u00e0s viol\u00eancias patriarcais, \u00e0 objetifica\u00e7\u00e3o de nossos corpos, \u00e0 cultura do estupro e \u00e0s hierarquias de g\u00eanero\u201d, complementa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>* Bolsista em projeto de Comunica\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Apesar das conquistas e do crescimento da participa\u00e7\u00e3o das mulheres, a ocupa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria dos espa\u00e7os de poder depende de mudan\u00e7as na cultura e na legisla\u00e7\u00e3o, segundo estudos desenvolvidos na 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