{"id":3803,"date":"2025-11-10T11:00:00","date_gmt":"2025-11-10T14:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/?p=3803"},"modified":"2025-12-01T18:10:59","modified_gmt":"2025-12-01T21:10:59","slug":"mudancas-climaticas-podem-provocar-perda-e-extincao-de-mamiferos-de-montanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2025\/11\/10\/mudancas-climaticas-podem-provocar-perda-e-extincao-de-mamiferos-de-montanha\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem provocar extin\u00e7\u00e3o de mam\u00edferos de montanha"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Sueli de Freitas<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas previstas para os pr\u00f3ximos anos devem diminuir as zonas frias e \u00famidas das regi\u00f5es de montanha no Brasil, amea\u00e7ando esp\u00e9cies de mam\u00edferos que dependem das condi\u00e7\u00f5es desses <em>habitats<\/em> para sobreviver. Isso \u00e9 o que mostra o artigo <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1007\/s42991-025-00518-7\">O papel das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no passado, presente e futuro de duas esp\u00e9cies de ratos neotropicais de montanha do g\u00eanero <em>Juliomys<\/em><\/a>, publicado na revista internacional <em>Mammalian Biology<\/em>. Conduzida pela bi\u00f3loga Gabriela Mendon\u00e7a e seus orientadores Yuri Leite e Ana Carolina Loss, a pesquisa foi realizada no \u00e2mbito do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas\/Biologia Animal (PPGBAN) da Ufes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por meio de simula\u00e7\u00f5es a partir de dados sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas desde o \u00daltimo Glacial M\u00e1ximo (h\u00e1 cerca de 21 mil anos) e usando proje\u00e7\u00f5es at\u00e9 o ano de 2070, os pesquisadores analisaram os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas para duas esp\u00e9cies de camundongos de focinho e garupa alaranjados que habitam a Mata Atl\u00e2ntica no leste do Brasil: <em>Juliomys ossitenuis<\/em> \u2013 roedor end\u00eamico no Brasil, pode ser encontrado nos estados das regi\u00f5es Sudeste e Sul \u2013&nbsp; e <em>Juliomys pictipes <\/em>\u2013  que tem maior ocorr\u00eancia do sul do Esp\u00edrito Santo at\u00e9 o norte do Rio Grande do Sul.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os resultados mostram que a esp\u00e9cie <em>J. pictipes, <\/em>encontrada desde o n\u00edvel do mar at\u00e9 2 mil metros de altitude, consegue tolerar melhor as mudan\u00e7as no clima, perdendo menos \u00e1reas climaticamente adequadas ao seu modo de vida. J\u00e1 a esp\u00e9cie <em>J. ossitenuis, <\/em>que vive apenas em \u00e1reas acima de 800 metros de altitude, est\u00e1 mais vulner\u00e1vel a riscos com o avan\u00e7o do aquecimento global.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cIsso mostra que, apesar de compartilharem caracter\u00edsticas parecidas, cada esp\u00e9cie responde de forma diferente \u00e0s mudan\u00e7as no clima por conta da faixa de altitude em que vivem e, consequentemente, das varia\u00e7\u00f5es de temperatura e precipita\u00e7\u00e3o que&nbsp;toleram. Entender essas diferen\u00e7as \u00e9 essencial para pensar estrat\u00e9gias de prote\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o desses mam\u00edferos \u00fanicos das montanhas brasileiras\u201d, afirma o professor Leite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Estudo ampliado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ampliando o foco da pesquisa no seu doutorado no PPGBAN, novamente sob orienta\u00e7\u00e3o dos professores Leite e Loss, a bi\u00f3loga Mendon\u00e7a buscou caracterizar as montanhas do Brasil em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 variedade de mam\u00edferos que ali vivem, o quanto essas \u00e1reas est\u00e3o protegidas e os fatores naturais que influenciam a diversidade das esp\u00e9cies do grupo. O resultado est\u00e1 na tese <a href=\"https:\/\/cienciasbiologicas.ufes.br\/pt-br\/pos-graduacao\/PPGBAN\/detalhes-da-tese?id=22781\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Diversidade e vulnerabilidade de mam\u00edferos de montanha frente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a>, que revela a ocorr\u00eancia de 116 esp\u00e9cies de mam\u00edferos n\u00e3o voadores nas montanhas brasileiras, sendo que 11 s\u00e3o exclusivas dessas regi\u00f5es e oito s\u00e3o consideradas t\u00edpicas de regi\u00f5es montanhosas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cUm dado preocupante \u00e9 que cerca de um ter\u00e7o dessas esp\u00e9cies est\u00e1 inclu\u00edda em alguma categoria de amea\u00e7a, e mais da metade das esp\u00e9cies exclusivas das montanhas est\u00e3o em risco de extin\u00e7\u00e3o ou nem sequer h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es suficientes para que esse risco seja avaliado. \u00c1reas mais bem estudadas, como a Mata Atl\u00e2ntica, apresentam maior riqueza de esp\u00e9cies. Em contraste, regi\u00f5es de montanha do Cerrado e da Amaz\u00f4nia ainda possuem poucos dados dispon\u00edveis, dificultando um retrato completo da fauna de montanha\u201d, afirmou Mendon\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para fazer o mapeamento, Mendon\u00e7a utilizou um banco de dados global que re\u00fane informa\u00e7\u00f5es sobre montanhas de todo o mundo. Fatores como altitude, varia\u00e7\u00e3o do relevo, volume de chuvas e temperatura foram apontados como aqueles que influenciam diretamente a presen\u00e7a e a diversidade de mam\u00edferos nessas regi\u00f5es. J\u00e1 as atividades humanas, como&nbsp; agricultura, e mudan\u00e7as intensas no clima ao longo do ano tiveram efeitos negativos sobre a diversidade de mam\u00edferos dessas \u00e1reas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora a cobertura florestal ainda predomine nas montanhas brasileiras, apenas cerca de 9% das regi\u00f5es de montanha mais ricas em biodiversidade est\u00e3o protegidas por unidades de conserva\u00e7\u00e3o ambiental. Al\u00e9m disso, s\u00f3 30% dessas \u00e1reas coincidem com regi\u00f5es consideradas priorit\u00e1rias para a conserva\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre as 116 esp\u00e9cies estudadas, 84 devem perder parte das \u00e1reas com condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas adequadas para sobreviver, levando a um decl\u00ednio progressivo na riqueza de esp\u00e9cies nas montanhas. As proje\u00e7\u00f5es para 2050 e 2070, que consideram diferentes cen\u00e1rios de aquecimento global e pol\u00edticas de mitiga\u00e7\u00e3o, indicam uma redu\u00e7\u00e3o significativa dessas \u00e1reas, especialmente nos cen\u00e1rios mais extremos, afetando principalmente as esp\u00e9cies com \u00e1reas clim\u00e1ticas mais restritas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"497\" height=\"632\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2025\/11\/mamiferos-de-montanhas-no-leste-do-Brasil.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3805\" srcset=\"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2025\/11\/mamiferos-de-montanhas-no-leste-do-Brasil.jpg 497w, https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2025\/11\/mamiferos-de-montanhas-no-leste-do-Brasil-236x300.jpg 236w\" sizes=\"auto, (max-width: 497px) 100vw, 497px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>N\u00famero de esp\u00e9cies estimadas de mam\u00edferos em 2050 nas montanhas da Mata Atl\u00e2ntica com a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Algumas montanhas ganham, atingindo at\u00e9 quatro esp\u00e9cies a mais do que hoje em dia (em amarelo), mas a grande maioria perde, chegando a 21 esp\u00e9cies a menos do que atualmente (em roxo).<br>Fonte: <a href=\"https:\/\/cienciasbiologicas.ufes.br\/pt-br\/pos-graduacao\/PPGBAN\/detalhes-da-tese?id=22781\">Tese de G. C. de Mendon\u00e7a (2025)<\/a>.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Proje\u00e7\u00f5es at\u00e9 2070<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados indicam que, at\u00e9 2070, a redu\u00e7\u00e3o dessas \u00e1reas climaticamente adequadas pode chegar a 36% em cen\u00e1rios de maior impacto clim\u00e1tico. \u201cEnquanto algumas esp\u00e9cies podem encontrar novos locais adequados ou manter sua \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o, a maioria est\u00e1 caminhando para uma retra\u00e7\u00e3o. As perdas mais acentuadas devem acontecer na Mata Atl\u00e2ntica, bioma que abriga grande diversidade e riqueza de mam\u00edferos de montanha, enquanto os pequenos ganhos aparecem em \u00e1reas perif\u00e9ricas das montanhas \u201d, diz Loss.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela destaca que \u201cessas informa\u00e7\u00f5es refor\u00e7am que as montanhas mais ricas em biodiversidade tamb\u00e9m s\u00e3o as mais vulner\u00e1veis \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d. Por isso, complementa, \u201c\u00e9 urgente investir em estrat\u00e9gias de conserva\u00e7\u00e3o, com foco especial nessas regi\u00f5es, levando em conta a vulnerabilidade diferente entre as esp\u00e9cies, os efeitos combinados das press\u00f5es clim\u00e1ticas e humanas e a necessidade de ampliar a prote\u00e7\u00e3o efetiva desses ecossistemas sens\u00edveis\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Sobre as montanhas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo os pesquisadores do PPGBAN, montanhas s\u00e3o \u00e1reas naturais marcadas por grande diversidade e complexidade, formadas ao longo do tempo por movimentos de placas tect\u00f4nicas, atividades vulc\u00e2nicas e processos de eros\u00e3o. Elas mudam rapidamente e abrigam diferentes formas de vida, clima e tipos de solo, o que as tornam ecossistemas \u00fanicos, valorizados ambiental, econ\u00f4mica e socialmente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grande parte da \u00e1gua pot\u00e1vel do mundo e outros recursos naturais v\u00eam das montanhas, sustentando entre 500 e 900 milh\u00f5es de pessoas. Esse ecossistema abriga cerca de um ter\u00e7o de todas as esp\u00e9cies terrestres e metade dos principais <em>hotspots<\/em> de biodiversidade (\u00e1reas de alta biodiversidade sob amea\u00e7a) do planeta, pois re\u00fanem condi\u00e7\u00f5es que favorecem esp\u00e9cies exclusivas e altamente especializadas.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-uagb-image alignleft uagb-block-05897f6d wp-block-uagb-image--layout-default wp-block-uagb-image--effect-static wp-block-uagb-image--align-left\"><figure class=\"wp-block-uagb-image__figure\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2025\/11\/metre-alvaro.jpg\" alt=\"\" class=\"uag-image-3822\" width=\"708\" height=\"529\" title=\"mestre alvaro\" loading=\"lazy\" role=\"img\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em><strong>Montanhas, como o Mestre \u00c1lvaro,&nbsp;no munic\u00edpio de Serra\/ES, s\u00e3o \u00e1reas-chave para a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade. (Foto: Yuri Leite)<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, as montanhas atravessam v\u00e1rios biomas e abrigam esp\u00e9cies \u00fanicas de mam\u00edferos, muitas delas sens\u00edveis \u00e0s mudan\u00e7as no clima. Por\u00e9m, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a a\u00e7\u00e3o humana, como desmatamento e altera\u00e7\u00f5es no uso da terra, j\u00e1 est\u00e3o transformando rapidamente as montanhas e seus ecossistemas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-uagb-image uagb-block-66cafc61 wp-block-uagb-image--layout-default wp-block-uagb-image--effect-static wp-block-uagb-image--align-none\"><figure class=\"wp-block-uagb-image__figure\"><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cCompreender como o clima pode mudar a vida nas montanhas \u00e9 fundamental para proteger essas \u00e1reas e suas esp\u00e9cies\u201d, afirma Leite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Revis\u00e3o: Monick Barbosa<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Os pesquisadores analisaram os impactos 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