{"id":481,"date":"2019-09-11T10:44:28","date_gmt":"2019-09-11T13:44:28","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/?p=481"},"modified":"2019-10-02T09:43:14","modified_gmt":"2019-10-02T12:43:14","slug":"inclusao-desde-a-educacao-infantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2019\/09\/11\/inclusao-desde-a-educacao-infantil\/","title":{"rendered":"Inclus\u00e3o desde a educa\u00e7\u00e3o infantil"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u2013Por La\u00eds Santana\u2013<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No Centro de Educa\u00e7\u00e3o da Ufes, dois grupos estudam a inclus\u00e3o no ambiente escolar. Para especialista, o ingresso na escola desde a educa\u00e7\u00e3o infantil \u00e9 fundamental para conhecer as particularidades do aluno com necessidades especiais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 assegura ao brasileiro o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica obrigat\u00f3ria e gratuita dos 4 aos 17 anos de idade. No que se refere ao n\u00edvel de ensino da educa\u00e7\u00e3o infantil, \u00e9 ofertado o atendimento em creches e pr\u00e9-escolas \u00e0s crian\u00e7as de at\u00e9 5 anos, incluindo aquelas com necessidades educacionais especiais. A atual organiza\u00e7\u00e3o do atendimento a este p\u00fablico foi regulamentada em 2008, com a publica\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Especial na Perspectiva da Educa\u00e7\u00e3o Inclusiva (PNEE-EI), e por meio de normas legais promulgados posteriormente, como a Resolu\u00e7\u00e3o no 4\/2009 e o Decreto no 7.611\/2011.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos desdobramentos da referida pol\u00edtica foi a cria\u00e7\u00e3o das salas de recursos multifuncionais, para complementar ou suplementar a forma\u00e7\u00e3o dos alunos. O atendimento realizado nesse espa\u00e7o \u00e9 oferecido no turno oposto ao da matr\u00edcula regular do estudante, e funciona com o trabalho colaborativo entre o professor de educa\u00e7\u00e3o especial e o professor regente nas escolas. Mesmo assim, percebem-se muitas lacunas, sobretudo no quesito da inclus\u00e3o: ainda \u00e9 um desafio operacionalizar o atendimento educacional especializado, a fim de garantir o acesso, a perman\u00eancia e a apropria\u00e7\u00e3o dos conhecimentos por parte desses alunos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois grupos de pesquisa do Centro de Educa\u00e7\u00e3o da Ufes se ocupam de analisar e problematizar a organiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o brasileira para o p\u00fablico da educa\u00e7\u00e3o especial: s\u00e3o o N\u00facleo de Ensino, Pesquisa e Extens\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o Especial (Neesp) e o Grupo de Pesquisa em Inf\u00e2ncia, Cultura, Inclus\u00e3o e Subjetividade (Grupicis, com foco na interface entre educa\u00e7\u00e3o especial e educa\u00e7\u00e3o infantil), fundados em 1996 e 2010, respectivamente. Tanto o Neesp quanto o Grupicis s\u00e3o coordenados pela professora Sonia Lopes Victor, que tamb\u00e9m leciona no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o (PPGE).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"912\" src=\"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2019\/06\/grupo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-482\" \/><figcaption> &nbsp;A professora S\u00f4nia Lopes Victor (ao centro) coordena o grupo de pesquisa sobre educa\u00e7\u00e3o especial e infantil no Centro de Educa\u00e7\u00e3o da Ufes. Foto: Acervo pessoal <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>As pesquisas na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o especial na Ufes iniciaram-se em 1992, por meio da forma\u00e7\u00e3o do Grupo Emergente em Educa\u00e7\u00e3o Especial, com participa\u00e7\u00e3o de docentes dos campi de Goiabeiras, Maru\u00edpe e Alegre. No ano seguinte, foi criado o Laborat\u00f3rio de Estudos em Educa\u00e7\u00e3o Especial, um projeto experimental que visava atender a alunos do sistema p\u00fablico estadual de ensino com poss\u00edvel diagn\u00f3stico de defici\u00eancia intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPercebemos que, se os estudantes do projeto conseguissem aprender e se apropriar do conhecimento regular por meio dessa complementa\u00e7\u00e3o, eles tinham mais chance de retornar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de ensino comum\u201d, lembra a professora Sonia. A coordenadora explica ainda que os estudos atuais priorizam um diagn\u00f3stico social da defici\u00eancia intelectual, e n\u00e3o mais biol\u00f3gico. \u201cSe a escola observar e atender as demandas [de quem tem comprometimento intelectual], o aluno tem muito mais condi\u00e7\u00f5es de se desenvolver e aprender do que se a institui\u00e7\u00e3o reconhecer o comprometimento e n\u00e3o investigar. Esse era o objetivo do Laborat\u00f3rio \u00e0 \u00e9poca, o de reintegrar o aluno ao sistema regular e ensino numa sala de aula comum.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tal entendimento foi adotado na Declara\u00e7\u00e3o de Salamanca, da Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas de 1994, e, no Brasil, passou a compor a Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional (LDBEN) em 1996. Nessa esteira, o projeto do Laborat\u00f3rio passou a desenvolver a\u00e7\u00f5es permanentes de ensino, pesquisa e extens\u00e3o e foi inclu\u00eddo no Neesp a partir de mar\u00e7o de 1996. Com essa nova perspectiva de inclus\u00e3o escolar, as pesquisas deixaram de focar a adapta\u00e7\u00e3o dos alunos na escola e passaram a enfatizar a adequa\u00e7\u00e3o das escolas brasileiras e a forma\u00e7\u00e3o de professores regentes para a educa\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do trabalho interdisciplinar do Neesp e do Grupicis, foi poss\u00edvel construir novos conceitos para alunos da rede p\u00fablica com necessidades educacionais especiais. As iniciativas contam com a participa\u00e7\u00e3o de outros grupos credenciados ao Neesp, formados por professores do ensino superior da Ufes e do Ensino B\u00e1sico, T\u00e9cnico e Tecnol\u00f3gico (EBTT) federal, al\u00e9m de alunos da gradua\u00e7\u00e3o e da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, bem como profissionais volunt\u00e1rios da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Confira tamb\u00e9m: <\/strong><br><a href=\"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2019\/09\/11\/educacao-hospitalar-garante-inclusao-de-menino-em-tratamento\/\">Educa\u00e7\u00e3o hospitalar garante inclus\u00e3o de menino em tratamento<\/a><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Pesquisas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Atualmente, o Grupicis estuda o acesso, a perman\u00eancia e a apropria\u00e7\u00e3o do conhecimento dos estudantes com necessidades especiais na educa\u00e7\u00e3o infantil. Os pesquisadores discutem a supera\u00e7\u00e3o do modelo cl\u00ednico nos processos educacionais, as inova\u00e7\u00f5es de pr\u00e1ticas m\u00e9dicas, a estimula\u00e7\u00e3o precoce na educa\u00e7\u00e3o especial (para potencializar o desenvolvimento neuropsicomotor) e a necessidade de expans\u00e3o do atendimento educacional especializado a crian\u00e7as de 0 a 3 anos, uma faixa et\u00e1ria ainda pouco atendida. Al\u00e9m disso, o estudo tamb\u00e9m problematiza a situa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as que, a princ\u00edpio, n\u00e3o possuem defici\u00eancia intelectual, mas s\u00e3o classificadas nessa condi\u00e7\u00e3o visando ao atendimento de suas demandas de aprendizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2010, pesquisadores da Ufes integram o Observat\u00f3rio Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Especial (One-esp), que desenvolve estudos integrados sobre pol\u00edticas p\u00fablicas e discute as pr\u00e1ticas direcionadas \u00e0 inclus\u00e3o escolar na realidade brasileira, com a participa\u00e7\u00e3o de pesquisadores de 16 estados. Um dos temas investigados \u00e9 a implanta\u00e7\u00e3o da sala de recursos multifuncionais nas escolas brasileiras desde 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAqui no Esp\u00edrito Santo, tivemos dois grupos de pesquisa envolvidos nesta investiga\u00e7\u00e3o com 11 munic\u00edpios. Tivemos diversos encontros com professores de escolas com educa\u00e7\u00e3o especial para entender nossa realidade na educa\u00e7\u00e3o comum\u201d, conta Sonia. O estudo permeou tr\u00eas eixos: o atendimento educacional especializado, que \u00e9 representado pelas salas de recursos multifuncionais; a quest\u00e3o da avalia\u00e7\u00e3o desse p\u00fablico; e, por fim, a forma\u00e7\u00e3o de professores. Atualmente, o Observat\u00f3rio sistematiza o conjunto de dados apurados em todo o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O problema sistem\u00e1tico<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O motivo pelo qual crian\u00e7as atendidas pela educa\u00e7\u00e3o especial n\u00e3o cultivaram o costume de permanecer no processo de escolariza\u00e7\u00e3o nas d\u00e9cadas passadas tem ra\u00edzes hist\u00f3ricas mais profundas. Esse p\u00fablico n\u00e3o era incentivado a continuar os estudos, os quais ficavam a cargo de institui\u00e7\u00f5es especializadas. \u201cQuando se tem um modelo m\u00e9dico de defici\u00eancia como base para compreender quem \u00e9 essa pessoa, entende-se que ela \u00e9 um sujeito que n\u00e3o vai contribuir para sociedade, se considerarmos a teoria do capital humano. Consequentemente, conclui-se que n\u00e3o compensaria investir na educa\u00e7\u00e3o desses sujeitos\u201d, analisa a professora Sonia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela explica que, por\u00e9m, existe uma contradi\u00e7\u00e3o nesse processo. \u201cEssas pessoas ficaram muito tempo segregadas. Tal modelo educacional era oneroso porque fortalecia a depend\u00eancia delas com o Estado.\u201d A coordenadora avalia que a aplica\u00e7\u00e3o do modelo de inclus\u00e3o tamb\u00e9m demonstra o interesse do poder p\u00fablico em torn\u00e1-los uma comunidade ativa. \u201cAo inserir a pessoa na corrente comum da vida, ela ir\u00e1 ingressar no sistema educacional com atendimento escolar e, por fim, diminuir os valores da educa\u00e7\u00e3o segregada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"4752\" height=\"3168\" src=\"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2019\/07\/IMG_8427-compressed.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-561\" \/><figcaption>O estudante Davi, agora bem integrado em sala, j\u00e1 teve dificuldades de se adaptar em outros Centros de Educa\u00e7\u00e3o Infantil. Foto: Lidia Neves<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cMas tamb\u00e9m houve outros esfor\u00e7os da sociedade civil\u201d, completa Sonia. \u201cOs movimentos sociais, o avan\u00e7o das tecnologias, das ci\u00eancias e das pol\u00edticas p\u00fablicas foram al\u00e9m dessa contradi\u00e7\u00e3o que o sistema antigo nos colocou\u201d. A evolu\u00e7\u00e3o do entendimento sobre o estudante com defici\u00eancia e seu aprendizado alavancou o surgimento de legisla\u00e7\u00f5es e normas muito significativas para entender esse processo de forma\u00e7\u00e3o humana. Diversas a\u00e7\u00f5es foram sendo estabelecidas pelo Estado, ao longo desse per\u00edodo, a fim de garantir a matr\u00edcula, a perman\u00eancia, a aprendizagem e a reintegra\u00e7\u00e3o desse p\u00fablico na escola comum e em outros \u00e2mbitos da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Resultados: a responsabilidade social<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>As pesquisas do Neesp e do Grupicis apontam que o antigo sistema, sob o prisma de integra\u00e7\u00e3o, afastava o estudante de uma situa\u00e7\u00e3o regular de ensino. Os alunos da educa\u00e7\u00e3o especial eram privados da conviv\u00eancia em salas comuns, nos hor\u00e1rios de aulas regulares, para se recolherem em servi\u00e7os exclusivos do atendimento especializado nas salas de recursos multifuncionais instaladas desde 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a professora Sonia, os preceitos da integra\u00e7\u00e3o, em vez da inclus\u00e3o, valorizam as pr\u00e1ticas cl\u00ednicas, como a estimula\u00e7\u00e3o precoce, em detrimento das pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sugest\u00e3o de leitura:<\/strong><br><a href=\"http:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2019\/08\/15\/brincadeira-de-lutinha-levada-a-serio\/\">Disserta\u00e7\u00e3o analisa o uso da agressividade em brincadeiras infantis<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando o modelo se volta para a quest\u00e3o biol\u00f3gica, o aluno \u00e9 responsabilizado pela n\u00e3o aprendizagem. Mas quando a sociedade compreende que tem um papel de inser\u00e7\u00e3o social a ser cumprido, ser\u00e1 dada uma rota de condi\u00e7\u00e3o de vida completamente diferente a esse sujeito\u201d, explica. Para ela, o ingresso da crian\u00e7a na educa\u00e7\u00e3o infantil desde cedo \u00e9&nbsp; imprescind\u00edvel para reconhecer as demandas e particularidades do aluno com necessidades especiais. \u201cAs pol\u00edticas p\u00fablicas t\u00eam de favorecer o atendimento das demandas desde a educa\u00e7\u00e3o infantil\u201d, defende.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse foi o caso de Davi, autista n\u00e3o verbal e aluno do Centro Municipal de Educa\u00e7\u00e3o Infantil (CMEI) Professora Cida Barreto. \u201cEle entende tudo, mas n\u00e3o fala\u201d, explica a m\u00e3e de Davi, Let\u00edcia Alcure. \u201cMeu filho tem dificuldade na coordena\u00e7\u00e3o motora fina. \u00c9 muito dif\u00edcil de ensinar ou de ter a aten\u00e7\u00e3o dele, mas a escola tem se esfor\u00e7ado muito para que ele se encaixe em todas as atividades\u201d. A m\u00e3e lembra que, devido a experi\u00eancias ruins em outro Centro, precisou deixar Davi um ano longe da sala de aula.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"333\" src=\"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2019\/06\/26_06_2019_14_59_06.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-506\" \/><figcaption> O estudante Davi, que tem autismo, foi inclu\u00eddo na educa\u00e7\u00e3o infantil e participa de todas as atividades junto com as outras crian\u00e7as. Foto: Lidia Neves<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cEste CMEI foi um divisor na vida do Davi, e na minha tamb\u00e9m. Ele se adaptou muito r\u00e1pido, e esse processo \u00e9 m\u00e9rito da escola\u201d, relata Let\u00edcia. Ela conta que, desde o primeiro dia no CMEI, o filho era acompanhado por um profissional nas aulas, e esta presen\u00e7a foi imprescind\u00edvel para faz\u00ea-lo se sentir mais confiante na classe regular. \u201cA tia Vivi, que ficou como Davi durante o ano passado, foi muito importante para que ele tivesse confian\u00e7a. Meu filho se apoia em algu\u00e9m para se sentir mais seguro\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>\u2013Por La\u00eds Santana\u2013 No Centro de Educa\u00e7\u00e3o da Ufes, dois grupos estudam a inclus\u00e3o no ambiente escolar. 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