{"id":51,"date":"2018-06-11T18:06:44","date_gmt":"2018-06-11T21:06:44","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/?p=51"},"modified":"2018-06-12T08:41:54","modified_gmt":"2018-06-12T11:41:54","slug":"pesquisas-tiram-escritoras-capixabas-da-escuridao-do-anonimato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2018\/06\/11\/pesquisas-tiram-escritoras-capixabas-da-escuridao-do-anonimato\/","title":{"rendered":"Pesquisas tiram escritoras capixabas da escurid\u00e3o do anonimato"},"content":{"rendered":"<p><em>\u2013 Por Let\u00edcia Nassar \u2013<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Descobrir. Explicar. Compreender. Esses s\u00e3o alguns verbos que pesquisadores de todas as \u00e1reas do conhecimento utilizam em seus projetos. Mas tamb\u00e9m pode ocorrer que, durante o desenvolvimento do trabalho, alguns pesquisadores, motivados por valores sociais de sua \u00e9poca, acabem por encobrir em seus trabalhos grupos \u00e9tnicos, raciais ou de g\u00eanero. Entre esses trabalhos est\u00e3o as pesquisas sobre produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria feminina. Durante d\u00e9cadas, historiadores, brasileiros ou n\u00e3o, publicavam suas antologias sem nem sequer mencionar uma escritora. Mas novas pesquisas est\u00e3o preenchendo essa lacuna.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Os verbos, ent\u00e3o, mudaram para ouvir relatos, escarafunchar ba\u00fas, mergulhar nos arquivos p\u00fablicos, ler di\u00e1rios e folhear jornais. Como Sherlock Holmes, pesquisadores e pesquisadoras descobriram a fortuna liter\u00e1ria produzida por mulheres nos quatro cantos do planeta. No Esp\u00edrito Santo, as pesquisas revelaram a exist\u00eancia de muitas escritoras capixabas do s\u00e9culo XIX que n\u00e3o s\u00f3 acompanhavam a literatura produzida por homens como tamb\u00e9m por suas ousadas contempor\u00e2neas. Estas \u00faltimas publicavam, principalmente, nos jornais.<\/p>\n<p>O diretor da Academia Esp\u00edrito-Santense de Letras, escritor e professor aposentado da Ufes, Francisco Aurelio Ribeiro, \u00e9 um dos principais pesquisadores da literatura feminina capixaba e, com mais de 20 anos de trabalho dedicado a trazer \u00e0 tona os nomes e as produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias dessas mulheres, permitiu que o universo feminino desde o s\u00e9culo XIX at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX fosse explorado por diferentes campos de pesquisa. \u201cPesquisar as escritoras capixabas \u00e9 desvelar um passado de discrimina\u00e7\u00e3o contra a mulher que escrevia\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O pesquisador explica que as mulheres do s\u00e9culo XIX n\u00e3o podiam publicar seus versos, para n\u00e3o se tornarem p\u00fablicas. Assim muita produ\u00e7\u00e3o feminina ficou retida entre quatro paredes, mas nem todas as mulheres aceitavam essa condi\u00e7\u00e3o e foram audaciosas para o seu tempo. Por\u00e9m, o pesquisador diz que as antologias liter\u00e1rias foram impiedosas com essas escritoras.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/2018\/05\/24\/pesquisas-tiram-escritoras-capixabas-da-escuridao-do-anonimato\/\">Leia tamb\u00e9m: Pesquisas tiram escritoras capixabas da escurid\u00e3o do anonimato<\/a><\/p>\n<p>Francisco Aurelio cita como exemplo o livro \u201cHist\u00f3ria da Literatura Esp\u00edrito-Santense\u201d, de Afonso Claudio, publicado em 1912, como uma das obras que n\u00e3o menciona escritoras capixabas do s\u00e9culo XIX. \u201cPesquisas comprovam que a primeira escritora capixaba a ter seus poemas publicados \u00e9 Adelina Tecla Correia L\u00edrio. Ao todo foram encontradas 13 poesias em dois jornais capixabas de grande circula\u00e7\u00e3o nos anos de 1879 a 1883. Inclusive no jornal que tinha Afonso Claudio como um dos seus colaboradores. Durante o s\u00e9culo XIX, havia tamb\u00e9m outras escritoras capixabas que estavam em constante di\u00e1logo com autoras nacionais e internacionais. Por\u00e9m nenhuma delas consta no livro de Afonso Claudio\u201d, diz Francisco. Essa aus\u00eancia se perpetuou por muitos anos, pois, segundo o pesquisador, o livro \u201cHist\u00f3ria da Literatura Esp\u00edrito-Santense\u201d era citado por muitos historiadores e pesquisadores.<\/p>\n<p>O pesquisador cita tamb\u00e9m como exemplo o livro \u201cPoetas Capichabas\u201d, uma antologia publicada em 1938, destacando 58 escritores. \u201cPor\u00e9m, s\u00f3 uma mulher \u00e9 citada, a Maria Antonieta Tatagiba. Ela foi a principal poetisa capixaba dos anos 1930 e a primeira a publicar um livro de poesias em 1927\u201d, salienta Francisco.<\/p>\n<h2><strong>Poesia e liberdade<\/strong><\/h2>\n<p>A liberdade de express\u00e3o da mulher capixaba nasceu sob o signo da poesia. Amor, aboli\u00e7\u00e3o, independ\u00eancia do Brasil e proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica foram alguns dos temas dos poemas publicados por mulheres nos jornais do Esp\u00edrito Santo. Se a cria\u00e7\u00e3o das escolas para o sexo feminino no Estado, a partir de 1845, abriu as portas da casa da mulher capixaba para o mundo, a leitura de textos publicados nos jornais por outras mulheres permitiu ampliar o olhar sobre a sua participa\u00e7\u00e3o no lar e na sociedade.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, escrever era uma atividade proibida para as mulheres. Como diz Francisco Aurelio em seu livro \u201cA literatura do Esp\u00edrito Santo: uma marginalidade perif\u00e9rica\u201d, \u201celas deveriam recitar poemas escritos por homens\u201d. O autor at\u00e9 destaca que havia uma quintilha popular, da \u00e9poca, para destacar o preconceito contra a mulher:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEstude a geografia,<br \/>\nleia alguma boa hist\u00f3ria,<br \/>\nmas n\u00e3o se atire \u00e0 poesia.<br \/>\nPorque mulher que se faz poeta<br \/>\np\u00f5e o marido pateta.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cAinda bem que muitas delas ousaram e publicaram ou criaram clubes liter\u00e1rios\u201d, acrescenta. Essas atividades n\u00e3o estavam restritas \u00e0 capital Vit\u00f3ria, mas aconteciam tamb\u00e9m em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Cal\u00e7ados, Cachoeiro de Itapemirim e S\u00e3o Pedro de Itabapoana (Mimoso do Sul). Foi nesse munic\u00edpio que nasceu, em 1895, a primeira escritora do Esp\u00edrito Santo, Maria Antonieta de Siqueira Tatagiba. \u201cA cidade era pr\u00f3spera, tinha muitas atividades voltadas para as artes, cultura musical e liter\u00e1ria e era engajada pol\u00edtica e socialmente com as transforma\u00e7\u00f5es sociais e ideais de liberdade e justi\u00e7a. Foi nesse ambiente que Maria Antonieta S. Tatagiba viveu. Ela morreu muito nova, com 33 anos, de tuberculose, mas construiu uma literatura que incorpora o nome feminino a um universo antes restrito aos homens\u201d, ressalta Francisco Aurelio.<\/p>\n<h2>Revolucion\u00e1rias<\/h2>\n<figure id=\"attachment_133\" aria-describedby=\"caption-attachment-133\" style=\"width: 339px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-133\" src=\"http:\/\/blog.ufes.br\/revistauniversidade\/files\/2018\/05\/jornal.jpg\" alt=\"p\u00e1gina da revista O Cruzeiro de 23\/01\/1930\" width=\"339\" height=\"1175\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-133\" class=\"wp-caption-text\">A escritora Hayd\u00e9e Nicolussi escreveu para jornais e<br \/>revistas capixabas, paulistas e cariocas. Acima, p\u00e1gina<br \/>da revista O Cruzeiro (23\/01\/1930) que d\u00e1 in\u00edcio ao<br \/>conto de Hayd\u00e9e<\/figcaption><\/figure>\n<p>Revisitar o passado por meio de pesquisas para construir aventuras que mesclam fatos hist\u00f3ricos com os imagin\u00e1rios. \u201cEu brinco com a hist\u00f3ria do Esp\u00edrito Santo\u201d, \u00e9 o que diz a escritora, pesquisadora e professora aposentada da Ufes Bernadette Lyra. Autora de dois livros em que suas personagens principais s\u00e3o mulheres que deixaram marcas profundas na hist\u00f3ria capixaba, Bernadette fala que a literatura mant\u00e9m essas mulheres vivas.<\/p>\n<p>Em seu \u00faltimo livro, \u201cA Capitoa\u201d, a autora conta a hist\u00f3ria da primeira mulher a governar uma capitania, no s\u00e9culo XVI \u2013 Luisa Grinalda. Entre tantos problemas, conta a hist\u00f3ria que Luisa ainda teve que enfrentar a invas\u00e3o do famoso pirata ingl\u00eas Thomas Cavendish, que j\u00e1 havia tomado a ent\u00e3o Vila de Santos, em S\u00e3o Paulo. \u201cTivemos uma capitoa e nesse contexto hist\u00f3rico \u00e9 resgatada, por meio da fic\u00e7\u00e3o, a vida dessas mulheres\u201d, destaca a escritora.<\/p>\n<p>Ainda falta muito a pesquisar sobre as mulheres capixabas. Entre elas est\u00e1 Hayd\u00e9e Nicolussi (1905-1970). Essa escritora nascida em Alfredo Chaves (Sul do Esp\u00edrito Santo) teve sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria reconhecida por escritores brasileiros de sua \u00e9poca. Hayd\u00e9e escreveu para jornais e revistas de Vit\u00f3ria (Vida Capixaba, Cana\u00e3) e Rio de Janeiro (O Cruzeiro, Di\u00e1rio de Not\u00edcias, Di\u00e1rio da Noite, O Jornal, A Noite) e de S\u00e3o Paulo (O Estado de S\u00e3o Paulo). Traduziu v\u00e1rias obras e suas poesias foram traduzidas para o espanhol e o franc\u00eas.<\/p>\n<p>\u201cHayd\u00e9e Nicolussi tinha uma paix\u00e3o pelo socialismo sovi\u00e9tico, que surgiu quando conheceu, em Vit\u00f3ria, o seu grande amor. Ela mudou-se para o Rio de Janeiro, na d\u00e9cada de 1930. As pesquisas ainda precisam se aprofundar a respeito desse envolvimento da Hayd\u00e9e com o Partido Comunista Brasileiro. Sabemos que ela foi presa pela pol\u00edcia de Get\u00falio Vargas, na revolta comunista de 27\/11\/1935. Quando ela faleceu, Carlos Drummond de Andrade a chamou de revolucion\u00e1ria rom\u00e2ntica\u201d, diz Francisco Aurelio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>\u2013 Por Let\u00edcia Nassar \u2013 Descobrir. Explicar. Compreender. Esses s\u00e3o alguns verbos que pesquisadores de todas as \u00e1reas do conhecimento utilizam em seus projetos. 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