Cápsulas de biocarvão desenvolvidas na Ufes contribuem para semear e fertilizar o solo

Cápsula de biocarvão ajuda a enriquecer o solo, ao mesmo tempo em que realiza o plantio. Foto: Divulgação/Ufes
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– Por Mikaella Mozer* –

O Laboratório de Energia da Biomassa (LEB) da Ufes desenvolveu cápsulas densificadas de finos residuais de carvão vegetal que melhoram a qualidade do solo em suas características químicas, físicas e biológicas, aumentando a CTC (capacidade de troca de cátions, que influencia a retenção de nutrientes e água), a microbiota e os nutrientes. Em seu interior é possível inserir sementes nativas, agrícolas e forrageiras para que o solo seja não só enriquecido, mas também plantado, tanto para reflorestamento, quanto para uso agrícola ou pecuário.

O projeto foi desenvolvido a partir da dissertação de mestrado de Alisson da Silva no Programa de Pós-Graduação em Ciências Florestais (PPGCFL), orientado pelo professor Ananias Dias Jr.

“A nossa grande sacada nesse projeto é o pH do carvão. O solo brasileiro tem um pH altíssimo, e a maioria tem baixa fertilidade por causa disso. O biocarvão que produzimos neutraliza o pH do solo e faz com que macro e micronutrientes antes indisponíveis para as plantas, devido à acidez da terra, fiquem acessíveis. Assim, as plântulas que não conseguiam se desenvolver passam a conseguir evoluir”, explica Silva.

Para desenvolver as cápsulas, os pesquisadores utilizaram finos residuais do carvão vegetal, que não são aproveitados no comércio e na indústria e que podem representar até 25% do que é produzido nas carvoarias. O projeto se aproveita da experiência prévia do professor Dias na área de compactação de materiais e conta com a parceria da Universidade de São Paulo (USP), onde Silva cursa seu doutorado, e da Soka University, do Japão. 

Saiba mais sobre este projeto no programa Dez, da TV Ufes

Além da troca de informações entre as instituições, os pesquisadores também conversaram com empresários da área, para identificar a necessidade do mercado e entender como ter o melhor uso valorativo do carvão. Isso porque esse produto é muito desvalorizado, devido aos custos financeiros e ambientais. “A valorização do carvão é importante também para o Brasil, onde é produzido em larga escala, e para a América Central e África Subsaariana, que têm forte cultura de uso. Isso pode representar um aumento econômico para essas regiões”, avalia Dias.

As cápsulas foram o meio de reversão desse quadro, pois elas barateiam o processo de semeadura, ao reduzir os gastos com força de trabalho e transporte. Para otimizar ainda mais o acesso a locais difíceis de chegar, há a possibilidade de levá-las com drones, já que elas são pequenas e leves. 

Produção

Para desenvolver a cápsula, os pesquisadores produziram o seu próprio carvão pelo processo de pirólise, que é o aquecimento da madeira sob condições controladas, de forma a evitar a combustão. “Embora a ideia seja usar resíduos de siderúrgicas, produzimos, inicialmente, o nosso carvão, pois é necessário entender as variáveis nesse processo. As indústrias utilizam temperaturas diferentes, produzindo, então, carvões diferentes. Com nossos ensaios, entendemos que as cápsulas podem ser produzidas em qualquer lugar e terão a mesma condição fisiológica, caso as sementes sejam de qualidade”, afirma o professor.

Os pesquisadores também introduziram algumas substâncias no biocarvão, para obter a aglutinação e assim, inserir uma semente no meio da cápsula. A semente deverá rompê-la ao brotar.

As sementes passaram por etapas de avaliação de seu desenvolvimento, para entender se suas características mudam conforme a composição do carvão vegetal ou pela força de compactação. Após um período de 90 dias de ensaio, em que foram verificados a temperatura, o diâmetro e a qualidade das plântulas durante as germinações, as sementes demonstraram as mesmas características das geradas na forma tradicional. 

As cápsulas estão em processo de reconhecimento de patente. Parcerias para sua posterior comercialização serão analisadas pelo projeto de inovação e empreendedorismo do Instituto de Pesquisa e Estudos Florestais (IPEF), o Radar IPEF de Inovação Florestal. Eles selecionam startups e pesquisas com potencial de impulsionar a inovação e trazer soluções para problemas das empresas associadas. A pesquisa está na segunda fase, na qual o projeto é apresentado às organizações.

*Bolsista em projeto de Comunicação

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