Pesquisa aponta o que a alimentação da mãe pode revelar sobre o leite materno

Adriana Damasceno

O leite que um bebê recebe nos primeiros dias de vida não é exatamente igual ao que será produzido semanas depois. Sua composição muda ao longo da amamentação. Mas será que aquilo que a mãe come também pode estar relacionado a essas mudanças? Uma pesquisa desenvolvida durante o doutorado da médica pediatra e professora do Departamento de Pediatria Racire Silva investigou essa relação ao analisar a alimentação de mulheres e amostras do leite produzido por elas em diferentes momentos após o parto.

A divulgação dessa pesquisa abre a programação da Revista Universidade para o Mês da Consciência Negra, promovida pela Secretaria de Comunicação (Secom) da Ufes. Ao longo de novembro, a Secom/Ufes dará visibilidade especial a pesquisas e trabalhos de integrantes do Banco de Fontes Negras da Universidade, do qual Racire Silva faz parte.

Publicado no periódico científico Journal of Human Lactation, dos Estados Unidos, o estudo intitulado Influência do padrão alimentar materno sobre o perfil pró-oxidante e antioxidante do leite materno analisou amostras de leite de 98 mulheres atendidas no Hospital Infantil e Maternidade Alzir Bernardino Alves (Himaba), em Vila Velha, nas três fases da amamentação: nos primeiros dias após o parto, quando é produzido o colostro, e nas etapas de produção do leite de transição e do leite maduro.

As análises mostraram maior capacidade antioxidante no colostro, o que é essencial nos primeiros dias de vida de um bebê, quando ele está se adaptando à vida fora do útero. Isso porque, no útero, o bebê vive em um ambiente com menor disponibilidade de oxigênio e, ao nascer, é exposto a uma quantidade muito maior. Segundo Silva, essa mudança leva à produção de radicais livres no organismo: “Esses radicais livres são altamente lesivos, pois matam células, atacam a parede dos vasos sanguíneos e danificam tecidos”. É nesse processo que os antioxidantes ganham importância, pois atuam na neutralização dos radicais livres, ajudando a diminuir os danos provocados por essas moléculas.

A professora ressalta que mesmo pequenas lesões nos vasos sanguíneos podem se acumular ao longo do tempo. “Quanto mais antioxidantes consumirmos e tivermos à disposição, mais esses radicais livres serão inativados e menos lesão vascular, morte celular e dano tecidual teremos”, explica.

Alimentação materna

Para investigar as associações entre alimentação materna e as características do leite produzido pelas mães, a pesquisa considerou a frequência de consumo de diferentes tipos de alimentos nos seis meses anteriores ao nascimento do bebê e relacionaram esses dados às análises do leite. Os resultados mostraram associações diferentes de acordo com o alimento consumido e a fase da amamentação.

Entre as mulheres que consumiam leite e derivados com maior frequência, o colostro apresentou menos sinais de oxidação das gorduras. No leite de transição, essa menor oxidação esteve associada ao maior consumo de óleos, predominantemente o de soja. Já no leite maduro, a associação foi observada com o maior consumo de vegetais.

O consumo de ovos também apresentou associação com as características do colostro: entre as mulheres que os consumiam com maior frequência, foi menor a presença de um indicador relacionado a danos causados pela oxidação das proteínas. Com os refrigerantes, ocorreu o contrário: quanto maior o consumo, maior a concentração desse indicador. Silva destaca esses dois resultados entre os principais achados da pesquisa.

Apoio nutricional

Os resultados colocam a alimentação materna no centro da discussão, mas o próprio estudo chama a atenção para um aspecto importante: nem tudo depende simplesmente de decidir o que colocar no prato. Os hábitos alimentares são influenciados por fatores como cultura, condições socioeconômicas e acesso a alimentos saudáveis. Essa questão ganha relevância diante do perfil das participantes: as 98 mulheres eram de baixa renda e foram atendidas no Himaba, onde, segundo dados da pesquisa, quase 99% dos pacientes pertencem a essa faixa socioeconômica.

Nesse contexto, se a alimentação materna está associada a características do leite, o acesso a uma alimentação adequada também entra na discussão sobre o cuidado oferecido a mães e bebês. Para Silva, os resultados reforçam a importância de iniciativas de apoio nutricional nas políticas de saúde materno-infantil.

Fontes negras

A médica Racire Silva integra o Banco de Fontes Negras da Ufes, iniciativa da Secom que reúne pessoas negras vinculadas à Universidade e busca ampliar sua presença como fontes especializadas para a imprensa e para os próprios canais institucionais. O Banco permanece aberto a novos cadastros durante todo o ano.

Fotos: Racire Silva (imagem editada com auxílio de IA) e Magnific

Edição: Sueli de Freitas

Revisão: Monick Barbosa

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