Estudo revela consumo excessivo de sal entre crianças e adolescentes brasileiros 

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Adriana Damasceno

Qual a  quantidade de sal que crianças e adolescentes brasileiros consomem diariamente? Um estudo realizado pelo Grupo de Pesquisa em Epidemiologia das Doenças Crônicas do Centro de Ciências da Saúde (CCS/Ufes) oferece a primeira estimativa sobre esse consumo no Brasil. Por meio da análise da urina de 24 horas (método considerado padrão-ouro para estimar a ingestão de sódio), a pesquisa avaliou estudantes de 6 a 17 anos e identificou um cenário que acende um alerta para a saúde pública: crianças e adolescentes de Vitória consomem em média 8,8 gramas de sal por dia, quase o dobro da quantidade recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Apenas 13% dos participantes apresentaram ingestão dentro dos limites adequados para a idade.

O Projeto Kids Sal, conduzido pelos pesquisadores Carolina Faria, Enildo Pimentel, Gabriela Quinte e Romildo Andrade, sob coordenação do professor do Departamento de Ciências Fisiológicas da Ufes José Geraldo Mill, mobilizou escolas, famílias e pesquisadores durante quase dois anos. Entre abril de 2024 e novembro de 2025, cerca de 1.060 estudantes de 12 escolas públicas e privadas de Vitória se inscreveram para participar do estudo. Destes, 619 concluíram todas as etapas e 516 tiveram a coleta de urina de 24 horas validada para análise, formando o primeiro conjunto de dados do país sobre o consumo de sal nessa faixa etária.

O procedimento de coleta de urina de 24 horas exigiu grande comprometimento dos participantes, que armazenaram toda a urina produzida durante um dia para análise. Além da coleta, os estudantes passaram por exames laboratoriais, avaliação cardiovascular, eletrocardiograma, bioimpedância, espirometria e responderam a questionários sobre alimentação, atividade física e hábitos de vida.

Hábitos alimentares

Os achados ajudam a explicar por que conhecer os hábitos alimentares desde a infância é essencial para a prevenção de várias doenças, principalmente das cardiovasculares. O efeito mais imediato do consumo excessivo de sal é o aumento progressivo da pressão arterial e maior risco de desenvolver mais cedo hipertensão arterial. De acordo com os pesquisadores, para cada grama consumido acima do limite recomendado, a pressão arterial dos jovens aumenta, em média, 1 milímetro de mercúrio. A longo prazo, esse quadro pode evoluir e aumentar o risco de infarto do miocárdio e acidente vascular encefálico (derrame), duas das principais causas de morte no Brasil e no mundo.

Crianças que se acostumam a consumir alimentos muito salgados desde cedo tendem a manter esse padrão alimentar ao longo da vida adulta. Os resultados da pesquisa mostraram que o consumo de sal aumenta com a idade e é mais elevado entre os meninos. Dos 14 aos 17 anos, eles ingerem em média 9,5 gramas de sal por dia, enquanto as meninas da mesma faixa etária consomem 8 gramas. Outro achado importante foi que cerca de 4% dos participantes já apresentavam níveis de pressão arterial compatíveis com pré-hipertensão ou hipertensão.

Embora a elevação da pressão arterial seja o efeito mais conhecido do consumo excessivo de sal, os pesquisadores alertam que os impactos desse hábito vão além, podendo, por exemplo, aumentar a formação de cálculos nos rins. Cálculo é um fator que predispõe à doença renal crônica, que é um problema grave de saúde que compromete a qualidade de vida do paciente.

Além do sal presente nos próprios alimentos e da prática de adicionar o produto no preparo das refeições, o consumo de comidas industrializadas – como embutidos, carnes salgadas, queijos e temperos prontos – também pode responder por grande parte da ingestão de sal. Por isso, as estratégias para reduzir o consumo devem considerar os hábitos alimentares de cada pessoa.

Recomendações

Com base nesse diagnóstico, a equipe da pesquisa elaborou recomendações voltadas a pais e responsáveis para reduzir o consumo de sal desde a infância: diminuir gradualmente a quantidade de sal utilizada no preparo dos alimentos, evitar o consumo frequente de produtos ultraprocessados e retirar o saleiro da mesa. Essas práticas permitem que o paladar se adapte e reconheça melhor o sabor natural dos alimentos.

Edição: Sueli de Freitas

Foto: Magnific

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