Pesquisas tiram escritoras capixabas da escuridão do anonimato

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– Por Letícia Nassar –

Descobrir. Explicar. Compreender. Esses são alguns verbos que pesquisadores de todas as áreas do conhecimento utilizam em seus projetos. Mas também pode ocorrer que, durante o desenvolvimento do trabalho, alguns pesquisadores, motivados por valores sociais de sua época, acabem por encobrir em seus trabalhos grupos étnicos, raciais ou de gênero. Entre esses trabalhos estão as pesquisas sobre produção literária feminina. Durante décadas, historiadores, brasileiros ou não, publicavam suas antologias sem nem sequer mencionar uma escritora. Mas novas pesquisas estão preenchendo essa lacuna.

Os verbos, então, mudaram para ouvir relatos, escarafunchar baús, mergulhar nos arquivos públicos, ler diários e folhear jornais. Como Sherlock Holmes, pesquisadores e pesquisadoras descobriram a fortuna literária produzida por mulheres nos quatro cantos do planeta. No Espírito Santo, as pesquisas revelaram a existência de muitas escritoras capixabas do século XIX que não só acompanhavam a literatura produzida por homens como também por suas ousadas contemporâneas. Estas últimas publicavam, principalmente, nos jornais.

O diretor da Academia Espírito-Santense de Letras, escritor e professor aposentado da Ufes, Francisco Aurelio Ribeiro, é um dos principais pesquisadores da literatura feminina capixaba e, com mais de 20 anos de trabalho dedicado a trazer à tona os nomes e as produções literárias dessas mulheres, permitiu que o universo feminino desde o século XIX até meados do século XX fosse explorado por diferentes campos de pesquisa. “Pesquisar as escritoras capixabas é desvelar um passado de discriminação contra a mulher que escrevia”, afirma.

O pesquisador explica que as mulheres do século XIX não podiam publicar seus versos, para não se tornarem públicas. Assim muita produção feminina ficou retida entre quatro paredes, mas nem todas as mulheres aceitavam essa condição e foram audaciosas para o seu tempo. Porém, o pesquisador diz que as antologias literárias foram impiedosas com essas escritoras.

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Francisco Aurelio cita como exemplo o livro “História da Literatura Espírito-Santense”, de Afonso Claudio, publicado em 1912, como uma das obras que não menciona escritoras capixabas do século XIX. “Pesquisas comprovam que a primeira escritora capixaba a ter seus poemas publicados é Adelina Tecla Correia Lírio. Ao todo foram encontradas 13 poesias em dois jornais capixabas de grande circulação nos anos de 1879 a 1883. Inclusive no jornal que tinha Afonso Claudio como um dos seus colaboradores. Durante o século XIX, havia também outras escritoras capixabas que estavam em constante diálogo com autoras nacionais e internacionais. Porém nenhuma delas consta no livro de Afonso Claudio”, diz Francisco. Essa ausência se perpetuou por muitos anos, pois, segundo o pesquisador, o livro “História da Literatura Espírito-Santense” era citado por muitos historiadores e pesquisadores.

O pesquisador cita também como exemplo o livro “Poetas Capichabas”, uma antologia publicada em 1938, destacando 58 escritores. “Porém, só uma mulher é citada, a Maria Antonieta Tatagiba. Ela foi a principal poetisa capixaba dos anos 1930 e a primeira a publicar um livro de poesias em 1927”, salienta Francisco.

Poesia e liberdade

A liberdade de expressão da mulher capixaba nasceu sob o signo da poesia. Amor, abolição, independência do Brasil e proclamação da República foram alguns dos temas dos poemas publicados por mulheres nos jornais do Espírito Santo. Se a criação das escolas para o sexo feminino no Estado, a partir de 1845, abriu as portas da casa da mulher capixaba para o mundo, a leitura de textos publicados nos jornais por outras mulheres permitiu ampliar o olhar sobre a sua participação no lar e na sociedade.

Aliás, escrever era uma atividade proibida para as mulheres. Como diz Francisco Aurelio em seu livro “A literatura do Espírito Santo: uma marginalidade periférica”, “elas deveriam recitar poemas escritos por homens”. O autor até destaca que havia uma quintilha popular, da época, para destacar o preconceito contra a mulher:

“Estude a geografia,
leia alguma boa história,
mas não se atire à poesia.
Porque mulher que se faz poeta
põe o marido pateta.”

“Ainda bem que muitas delas ousaram e publicaram ou criaram clubes literários”, acrescenta. Essas atividades não estavam restritas à capital Vitória, mas aconteciam também em São José dos Calçados, Cachoeiro de Itapemirim e São Pedro de Itabapoana (Mimoso do Sul). Foi nesse município que nasceu, em 1895, a primeira escritora do Espírito Santo, Maria Antonieta de Siqueira Tatagiba. “A cidade era próspera, tinha muitas atividades voltadas para as artes, cultura musical e literária e era engajada política e socialmente com as transformações sociais e ideais de liberdade e justiça. Foi nesse ambiente que Maria Antonieta S. Tatagiba viveu. Ela morreu muito nova, com 33 anos, de tuberculose, mas construiu uma literatura que incorpora o nome feminino a um universo antes restrito aos homens”, ressalta Francisco Aurelio.

Revolucionárias

página da revista O Cruzeiro de 23/01/1930
A escritora Haydée Nicolussi escreveu para jornais e
revistas capixabas, paulistas e cariocas. Acima, página
da revista O Cruzeiro (23/01/1930) que dá início ao
conto de Haydée

Revisitar o passado por meio de pesquisas para construir aventuras que mesclam fatos históricos com os imaginários. “Eu brinco com a história do Espírito Santo”, é o que diz a escritora, pesquisadora e professora aposentada da Ufes Bernadette Lyra. Autora de dois livros em que suas personagens principais são mulheres que deixaram marcas profundas na história capixaba, Bernadette fala que a literatura mantém essas mulheres vivas.

Em seu último livro, “A Capitoa”, a autora conta a história da primeira mulher a governar uma capitania, no século XVI – Luisa Grinalda. Entre tantos problemas, conta a história que Luisa ainda teve que enfrentar a invasão do famoso pirata inglês Thomas Cavendish, que já havia tomado a então Vila de Santos, em São Paulo. “Tivemos uma capitoa e nesse contexto histórico é resgatada, por meio da ficção, a vida dessas mulheres”, destaca a escritora.

Ainda falta muito a pesquisar sobre as mulheres capixabas. Entre elas está Haydée Nicolussi (1905-1970). Essa escritora nascida em Alfredo Chaves (Sul do Espírito Santo) teve sua produção literária reconhecida por escritores brasileiros de sua época. Haydée escreveu para jornais e revistas de Vitória (Vida Capixaba, Canaã) e Rio de Janeiro (O Cruzeiro, Diário de Notícias, Diário da Noite, O Jornal, A Noite) e de São Paulo (O Estado de São Paulo). Traduziu várias obras e suas poesias foram traduzidas para o espanhol e o francês.

“Haydée Nicolussi tinha uma paixão pelo socialismo soviético, que surgiu quando conheceu, em Vitória, o seu grande amor. Ela mudou-se para o Rio de Janeiro, na década de 1930. As pesquisas ainda precisam se aprofundar a respeito desse envolvimento da Haydée com o Partido Comunista Brasileiro. Sabemos que ela foi presa pela polícia de Getúlio Vargas, na revolta comunista de 27/11/1935. Quando ela faleceu, Carlos Drummond de Andrade a chamou de revolucionária romântica”, diz Francisco Aurelio.

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