Entrevista: “A literatura de sinais produz sentidos a partir das vivências”

Retrato da professora Professora Arlene Batista da Silva, do curso de Letras - Libras da Ufes
Foto: Ana Cristina Oggioni/ Ufes
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– Por Luiz Vital –

Criado em 2014, o curso de Letras – Língua Brasileira de Sinais (Libras) da Ufes, mesmo com a curta trajetória, amplia a sua produção acadêmica no ensino, na pesquisa e na extensão, atuando na formação de educadores, tradutores e intérpretes na língua de sinais. A temática ganha força na Universidade, inclusive com estudos em níveis de mestrado e doutorado. A professora Arlene Batista da Silva desenvolve pesquisas na pós-graduação, em que trabalha o uso da literatura na língua de sinais na formação de crianças surdas e o seu desenvolvimento na escola e na vida. Nesta entrevista, a pesquisadora aborda diferentes áreas relacionadas à comunidade surda: a escola básica, a universidade, o mercado de trabalho, as novas ferramentas tecnológicas direcionadas ao sujeito surdo, a literatura e o lugar que a pessoa sem audição e fala ocupa na sociedade.

Revista Universidade: De que forma a literatura contribui para a educação da pessoa surda?

Arlene Batista da Silva: É importante pontuar, primeiramente, que existem pessoas surdas que não se identificam com a língua e a literatura de sinais. Já aqueles que participam da comunidade surda que se identificam com a surdez e com essa forma visual de se expressar valorizam a literatura, pois ela permite o uso da língua, com criatividade, e para o surdo dizer sobre si e sobre o mundo. Em muitas produções literárias, o surdo fala de si e desse lugar que ele ocupa na sociedade –  majoritariamente ouvinte – e de como ele se relaciona com as pessoas, lançando mão do corpo como forma de expressão.

Qual a explicação para o surdo não se identificar com a língua de sinais?

De acordo com a pesquisadora surda Gladis Perlin, as identidades surdas são múltiplas e complexas. Cada surdo tem uma história, uma experiência de vida que irá marcar sua identidade. Há, por exemplo, muitas crianças surdas que nascem em famílias ouvintes que não conhecem a língua de sinais. Assim, o surdo será educado a partir da cultura ouvinte, sendo incentivado a falar em vez de sinalizar. Quando o surdo, jovem ou adulto, entra em contato com a comunidade surda, começam os embates, os encontros e desencontros culturais que resultam na identificação com a cultura surda e rejeição da cultura ouvinte. Resultam também na identificação com a cultura ouvinte e a rejeição da cultura surda, e a identificação com as duas culturas, constituindo uma identidade híbrida.

Como é operacionalizada a literatura como atividade pedagógica na escola?

Atualmente, no Brasil, há uma produção crescente de vídeos com traduções de obras literárias do português para a língua de sinais. Na Ufes, o grupo de Estudos de Língua de Sinais, Interpretação e Tradução (Lisit), que coordeno, investiga as produções literárias em línguas de sinais, e se percebe que existe muito material para ser traduzido e documentado. É o caso das manifestações artísticas das comunidades surdas em associações, por exemplo, que precisam ser estudadas.

A literatura é vista pelo livro físico no idioma português. Como é o acesso a ela na língua de sinais?

Hoje temos algumas produções que são impressas, como é o caso de “Cinderela Surda”, “Rapunzel Surda” e que são traduzidas para a língua de sinais em DVD. É uma produção sinalizada por surdos ou intérpretes. Há outras disponíveis apenas em DVD como as produções da coleção “Educação de Surdos”, produzidas pela TV Ines. E há também as produções da Editora Arara Azul, em CD-ROM, em versão bilíngue.

São produtos que existem e são adaptados para o surdo?

Sim. Existem diferentes formas de realizar a adaptação. Geralmente, as produções voltadas para o público infantil, que ainda está aprendendo a língua de sinais, são adaptadas com uma linguagem mais expressiva, gestual, com uso de incorporação dos personagens e ilustrações em plano de fundo para que a criança compreenda melhor a narrativa. Em outros casos, há ainda a adaptação com inserção de elementos próprios da cultura surda.

O conteúdo dos vídeos analisa ou narra as histórias?

O mais comum é um tradutor no centro do vídeo sinalizar a narrativa e incorporar os discursos, em primeira pessoa, de cada personagem.

Por exemplo?

No caso do clássico infantil “Cinderela”, há versões com diferentes adaptações. Numa versão, o tradutor sinaliza a narrativa, de acordo com o livro, incorporando as personagens. Em outra versão, o tradutor reconstrói a história, em que as personagens possuem identidade surda. Então, diferentemente do texto original, ela não perde o sapato, mas a luva, estabelecendo uma relação com as mãos e com a forma de comunicação dos surdos.

É significativa a produção desse material audiovisual?

Ainda não se tem uma produção ampla, pois os profissionais com formação técnica nessa área são insuficientes. Além disso, há um alto custo de produção para as editoras. No Brasil, as editoras mais conhecidas nesse ramo são a Arara Azul e a LSB Vídeo, que se dedicam à tradução de obras literárias e outros produtos para surdos.

Existem traduções de obras literárias direcionadas ao público adulto?

Sim. Existem produções de gênero lírico, épico e dramático. No Brasil, a poeta Fernanda Machado e os atores Rimar Romano e Nelson Pimenta são apenas alguns nomes de autores surdos que atuam com produções voltadas ao público adulto.

Humor e a poesia são ferramentas pedagógicas interessantes?

Sim. Nesse contexto, vale destacar a web TV Ines – parceria do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) e da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto, que viabiliza web TV em Libras com legendas e locução. Possui elevada produção cultural, com abrangência em diferentes áreas, como educação, entretenimento, especiais, filmes, documentários, humor, infantil e jornalismo.

Como funciona o conceito de alteridade no ambiente escolar?

Na visão clínica da surdez, o surdo é percebido como um deficiente. Ele não se enquadra no chamado padrão de normalidade estabelecido, pois lhe falta a audição. Na perspectiva antropológica da surdez, o surdo é visto como um sujeito que concebe o mundo pela experiência visual. Nessa linha, o surdo se percebe como um sujeito cultural, que se constitui a partir da diferença. Portanto, a escola que acolhe o surdo deve oferecer um ensino que contemple essa alteridade.

“É importante uma política pública para que o surdo realmente alcance dignidade, cidadania e acesso ao conhecimento”

A literatura, no formato que se conhece, atrai o surdo, mesmo quando apresenta conteúdos distantes da sua realidade e da sua memória?

É por isso que a literatura na língua de sinais é muito mais impactante para o surdo do que a literatura impressa. O surdo é muito visual e não fica na condição de passividade quando vê uma apresentação na língua de sinais, porque ela envolve o corpo e o corpo fala em um ato totalmente performático. Quanto à literatura impressa, da forma como a conhecemos, é, sim, acessada por surdos. Porém, a acessibilidade e a expressividade presentes na literatura visual não estão na literatura impressa, com isso não há o mesmo impacto, a mesma identificação.

Qual a condição do surdo hoje nas escolas do Espírito Santo?

Alguns pesquisadores, como Ana Dorziat e Neiva de Aquino Albres, no Brasil, e Lucyenne Matos da Costa Vieira Macho e Kelly Simões Xavier, particularmente no Espírito Santo, têm investigado esse tema. Um dos aspectos preocupantes apontados pelas pesquisadoras é a forma como a política de educação bilíngue para surdos é implementada nas escolas. É um equívoco pensar que a inserção do intérprete na sala de aula resolve todos os problemas e dá acessibilidade ao surdo. Para o surdo se apropriar do conhecimento é necessário que haja uma ampla transformação nos currículos, nas metodologias de ensino, na formação de professores, no processo de avaliação. Portanto, muito ainda precisa ser feito para que o surdo consiga efetivamente aprender na escola.

Há uma simplificação conveniente?

Exatamente. Para se ter uma ideia, muitas vezes, o intérprete chega à escola, começa a sinalizar e o surdo simplesmente não sabe Libras. Porque veio de uma família de ouvintes, os pais não sabem Libras e o estudante surdo vai para a escola habituado tão somente a fazer comunicação por gestos que aprendeu em casa, e não entende o que o intérprete quer dizer.

Tem de haver um movimento que envolva toda a escola?

Esse é o meu entendimento. É importante uma política pública para que esse sujeito realmente alcance dignidade, cidadania, acesso ao conhecimento. Os resultados de pesquisas na área da educação têm evidenciado que apenas a inserção do intérprete em sala de aula não garante isso.

“Os surdos têm muita produção, mas não existe a visibilidade necessária”

Quais as limitações para o acesso aos bens culturais?  

Eu conheço surdos que vão ao cinema todos os fins de semana, porque muitos filmes são legendados e, conhecendo o português, associado às imagens, é possível compreender o sentido. Em outros espaços, como no teatro, os intérpretes sinalizam todos os diálogos das peças e os surdos vão acompanhando. É importante destacar que os intérpretes em contextos artísticos são fundamentais para a apropriação desses bens culturais.

A formação bilíngue é a ideal?

É a proposta que tem sido mais aceita por pesquisadores desse campo. Contudo, há alguns pontos que precisam ser problematizados. O surdo é bilíngue, precisa se apropriar da Libras e do português na modalidade escrita. A língua do surdo é aceita, mas ele continua tendo que se esforçar para aprender o português, enquanto o Estado pouco faz para oferecer objetos culturais na língua do surdo. O surdo vai para a faculdade e não há conteúdos acadêmicos traduzidos para Libras. O surdo vai ao médico, à delegacia de Polícia e não há qualquer material em Libras para que ele possa acessar os conhecimentos em sua língua. Ao final, qual é a língua que valida a  apropriação do conhecimento de mundo?

Como é o aprendizado da língua portuguesa?

Na perspectiva bilíngue, Ronice Muller Quadros e Sueli de Fátima Fernandes, entre outras pesquisadoras, enfatizam que é muito importante que, primeiramente, a criança se aproprie da Libras. Se tiver fluência em língua de sinais, o surdo poderá se apropriar da língua portuguesa como uma segunda língua. O português será para ele como uma língua estrangeira. Se tiver o domínio da Libras, aprenderá a ler e escrever textos em língua portuguesa com mais facilidade, fazendo uma relação entre as duas línguas.

O que representa o curso de Libras na graduação da Universidade e a inserção da temática do surdo na pós-graduação?

A criação do curso na Ufes é uma conquista muito grande para a comunidade surda do Espírito Santo. O curso começou em 2014, e a primeira turma de bacharelado presencial se formou no ano passado. Mas, antes, em 2008, se iniciou o bacharelado e a licenciatura na modalidade a distância, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e muitos alunos se formaram. Aquela experiência representou um estímulo para a criação do curso presencial, que possui três turmas com 20 alunos, cada uma, aproximadamente.

E a pós-graduação?

Existe um trabalho intenso sendo desenvolvido pela professora Lucyenne de Matos na pós-graduação do Centro de Educação, que já formou vários mestres surdos, como Daniel Junqueira, Ademar Muller Junior e Eliane Telles Bruim. Atualmente, estou no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), desenvolvendo pesquisas no campo da literatura em língua de sinais, e tudo isso é uma contribuição muito grande que a Universidade oferece à comunidade surda e à sociedade. O professor Ademar Miller Junior, do curso de Libras, trabalha com a escrita de sinais, que é algo novo aqui no Estado. É uma forma de registro escrito da língua de sinais por meio de recursos tecnológicos e mesmo de modo manual. Algumas produções literárias já são traduzidas para a escrita de sinais, que representa a sinalização por meio de imagens ou símbolos.

Existem projetos de extensão universitária sendo desenvolvidos nessa área?

Quando concluí o doutorado, passei a atuar com produções culturais a que o surdo tivesse acesso. Montamos cursos de extensão de literatura nas escolas, porque identificamos que, na comunidade surda capixaba, quem mais precisa de acessibilidade aos bens culturais são as crianças. Fizemos eventos de literatura nas escolas da rede municipal de Vitória e, em 2017, promovemos curso de contação de histórias em Libras, numa escola municipal, em São Pedro. Em 2016 fizemos um sarau de literatura em Libras muito proveitoso, porque a equipe de educadores da Prefeitura de Vitória que atua na área de surdez se mobilizou totalmente e levou todos os alunos surdos da rede para assistir. Foi muito positivo. No ano passado, também realizamos um evento no campus de Goiabeiras, com a apresentação de literatura infantil em Libras e, em 2018, estamos planejando realizar outro evento. No ano passado, promovemos o curso de expressão corporal para os graduandos do curso Letras-Libras. Uma próxima etapa, muito importante, será direcionada a documentar as experiências das associações e grupos de surdos, porque isso não está sendo feito com efetividade. Os surdos produzem muita coisa que não é registrada.

 “O mercado está muito promissor e carente de intérpretes e  tradutores surdos”

Existe intercâmbio da Ufes com outras instituições?

Sim, e isso é muito importante. No ano passado, por exemplo, promovemos o primeiro congresso de Libras aqui no Departamento de Línguas e Letras da Universidade, organizado em parceria com a pós-graduação em Letras, quando recebemos pesquisadores e especialistas para palestras e surdos de diferentes regiões do Brasil.

Como está o mercado de trabalho para o surdo, considerando as diferentes demandas surgidas com a legislação?

O mercado está muito promissor e carente de intérpretes e tradutores surdos e ouvintes, com elevada demanda.

De que forma você adquiriu o especial interesse por essa área?

O meu interesse surgiu da indignação. Quando fui professora da educação básica, tive uma aluna surda na sala de aula, mas eu não conseguia me comunicar com ela. Era impraticável e inaceitável que eu tivesse uma aluna com a qual eu não podia me comunicar e ensinar o português. Tudo aquilo me causou indignação. Procurei a coordenação da escola e disse que precisava de ajuda. Nesse movimento de angústia para buscar ajuda, comecei a me preparar para o mestrado na área de Linguística, e coincidiu de encontrar a área de ensino de português para surdos. Me interessei imediatamente. Como tornar isso possível? Como fazer funcionar? Então, consequentemente, passei a ter contato com a comunidade surda e a aprender a língua de sinais. E desde então não parei mais.

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