Estudos mostram que o kefir contribui para o bom funcionamento dos rins e do coração

Pesquisadores preveem um aumento dos estudos com kefir, devido à sua eficácia no tratamento de doenças e à facilidade de obtenção. Imagem: Flickr
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– Por Mikaella Mozer 

Pesquisas para o estudo dos benefícios do probiótico kefir no tratamento de doenças são desenvolvidas na Ufes. Uma delas estuda os efeitos benéficos do kefir sobre a lesão renal aguda, doença que consiste na perda súbita da capacidade dos rins de filtrar resíduos, sais e líquidos em horas ou em poucos dias. A outra foi a primeira a mostrar que o kefir tem ação benéfica no sistema nervoso que controla o coração.

Os probióticos são microrganismos vivos encontrados em alimentos e contribuem para reforçar a microbiota, antes também conhecida como flora intestinal. O intestino humano possui trilhões de bactérias que atuam em benefício da saúde: facilitam a digestão e a absorção de nutrientes, fortalecem o sistema imunológico e previnem ou melhoram doenças.

Apesar da sua importância, os probióticos foram esquecidos por um tempo. Segundo o professor Elisardo Vasquez, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Fisiológicas (PPGCF) da Ufes, somente nas últimas duas décadas é que os pesquisadores começaram a valorizá-los.

O kefir passou a ser o probiótico mais utilizado em pesquisas nos últimos anos e tem ganhado protagonismo entre os alimentos funcionais. Originado nas montanhas do Cáucaso, na Europa, e também conhecido como grão do profeta Maomé, é composto de bactérias ácido-lácticas, bactérias ácido-acéticas e leveduras. Na presença do grão, produz-se um leite integral fermentado que, ao ser consumido, exerce ações anti-inflamatórias e antimicrobianas. 

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Funcionamento dos rins

A lesão renal aguda afeta milhares de brasileiros. Só no Centro de Diálise do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam-Ufes) são realizados 450 procedimentos por mês. Estudar os efeitos do kefir em doenças renais foi o objeto de pesquisa de doutorado de Jamila Barboza, orientada pela professora do PPGCF Ágata Gava. 

“Existe um processo intestinal conhecido como disbiose, no qual há um desequilíbrio entre as bactérias ‘boas’ e ‘ruins’ do trato gastrointestinal. Essa disbiose parece estar envolvida no desenvolvimento de diversas doenças, de diferentes sistemas, inclusive o cardiovascular e o renal”, explica a professora. Ela acrescenta que o kefir é capaz de reestabelecer esse equilíbrio, favorecendo a cura por reduzir os radicais livres, cujo excesso está ligado ao desenvolvimento de doenças.

A pesquisa foi realizada em ratos Wistar machos, por terem a fisiologia parecida com a dos seres humanos. Dois grupos desses ratos foram alimentados com kefir – o primeiro por 14 dias e o segundo, por 60 dias – e outros dois grupos foram nutridos com leite de vaca, para comparação. Após esse tempo, eles eram induzidos experimentalmente à insuficiência renal aguda por meio da técnica de isquemia-reperfusão bilateral, que consiste na interrupção do fluxo sanguíneo para os dois rins durante 45 minutos (isquemia), seguida da liberação do fluxo por 24 minutos (reperfusão). “Essa técnica é o modelo experimental que mais se aproxima da lesão renal aguda apresentada em humanos”, afirma Ágata Gava.

Após 24 horas da aplicação do procedimento, a função renal dos animais era analisada, observando-se a quantidade de sangue que era filtrada pelo rim por unidade de tempo e o fluxo de plasma que passa pelos rins. 

Os ratos que ingeriram kefir e leite de vaca durante 14 dias não apresentaram mudanças ou melhoras na quantidade de sangue filtrada pelo rim, já os que consumiram por 60 dias foram capazes de melhorar o fluxo de sangue para os rins, bem como sua capacidade de filtração. Em relação ao fluxo de plasma e de sangue renal, nenhum deles obteve melhoria mediante o consumo do probiótico testado. Nos testes sobre a resistência vascular renal (RVC), que ao aumentar ocasiona maior pressão sanguínea, o grupo de 14 dias apresentou pela primeira vez uma melhora superior ao de 60 dias, ou seja, diminuiu a RVC. Os que receberam leite animal apresentaram alta na pressão.

Os resultados também mostraram o auxílio do kefir na diminuição de elementos que prejudicam o funcionamento dos rins. “Os ânions superóxidos e o óxido nítrico, em quantidade anormal, são maléficos para o funcionamento do organismo. O óxido nítrico em níveis normais  desempenha um papel importante na regulação do fluxo sanguíneo dos rins”, explica a professora. O uso do kefir auxiliou na redução dessas espécies que reagem facilmente com oxigênio e que são um dos fatores desencadeadores da apoptose, processo no qual a célula “se mata”, o que leva à conclusão de que o kefir contribui para melhorar a função renal.

Impactos na tensão arterial

Outra pesquisa realizada na Ufes relacionada ao kefir é a avaliação do tratamento crônico com esse probiótico sobre o tônus do sistema nervoso autônomo que controla o coração, e seus benefícios a pacientes com hipertensão arterial. Em condições normais, o coração é freado para bater mais lento e com menos força, mas na hipertensão arterial, a predominância é a aceleração do ritmo e o aumento da força contrátil, denominada disautonomia cardíaca.

O tema foi tese de doutorado de Brunella Klippel, orientada pelo professor do PPGCF Elisardo Vasquez. “O número de pessoas hipertensas no Brasil vem aumentando, visto o estilo de vida cada vez mais estressante e corrido, por isso a necessidade desse estudo”,  indica Vasquez. “Esta foi a primeira pesquisa a mostrar que o kefir, agindo na microbiota intestinal, tem ação benéfica no sistema nervoso que controla nosso coração”, completa.

Os testes foram realizados em roedores de controle Wistar e SHR. Todos eram machos geneticamente idênticos com 4 meses divididos em três grupos: SHR-Kefir, Wistar e SHR. Durante 60 dias, eles foram alimentados da seguinte maneira:  o primeiro com o probiótico, o segundo e o terceiro com leite integral. Essa diferenciação foi feita para entender a eficácia da ação do kefir em relação a outros alimentos. Os grupos Wistar e SHR foram utilizados em análises de controle de pressão arterial normal e alta, já existente neles, respectivamente. A pressão arterial alta era aumentada ou abaixada por meio da injeção de drogas, para observar se o sistema nervoso corrigia as diferenças de modo semelhante entre os SHR tratados com kefir e os alimentados com leite normal. Foram avaliadas e comparadas as respostas por meio de medição dos batimentos do coração durante um minuto. Durante os processos, o grupo SHR também apresentou hipertrofia cardíaca.

A pesquisa demonstrou a eficácia do uso do probiótico: os animais que consumiram kefir obtiveram a diminuição da pressão arterial e a correção das disfunções neural e cardíaca. O reflexo de bradicardia (diminuição da frequência cardíaca) obteve melhora de 40% e o de taquicardia (aumento), 38%. Ambos também decaíram no descontrole da função cardiovascular em, respectivamente, 35% e 32%. 

Outra melhora foi observada no barorreflexo, ação de manutenção da pressão arterial, a qual garante variações internas e externas: entre aqueles que não consumiram kefir, o índice foi 50% menor do que o dos que consumiram. O mesmo resultado foi obtido em relação à chegada do sangue ao coração e à contribuição do sistema simpático cardíaco, responsável por diversas atividades, como aumento de batimentos cardíacos e constrição de vasos sanguíneos, entre outros. O grupo SHR-Kefir também apresentou diminuição na pressão arterial sistólica, diastólica e média, além da diminuição da hipertrofia cardíaca.

Além desse estudo na área dos probióticos, o professor Elisardo Vasquez esteve envolvido em uma pesquisa colaborativa entre a Ufes e a Universidade de Vila Velha (UVV), na qual foi verificado que o kefir melhora a memória de pessoas com Alzheimer. Ele está participando, atualmente, de um estudo sobre o uso do kefir na periodontite. Todas essas pesquisas foram feitas em ratos. No momento, há planos de testar em humanos somente a que trata sobre kefir e problemas cardíacos.

Edição: Lidia Neves

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