Areia de Meaípe tem maior nível de radiação e elementos de terra-rara, mas praia é ameaçada pela erosão

Torre instalada em Meaípe avalia diversos aspectos para ajudar a combater a erosão. Foto: Divulgação
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– Por Lidia Neves e Mikaella Mozer – 

O professor José Passamai Jr., do Departamento de Física da Ufes, pesquisou o nível de radiação do litoral de Guarapari e concluiu que a praia de Meaípe é a que concentra maior quantidade de minerais, além de possuir elementos de terra-rara. Além disso, a quantidade de minerais na praia varia conforme o local e o período do ano, apontam estudos. A praia, que apresenta tamanha riqueza mineral, sofre com a erosão, que diminui sua faixa de areia. Por isso, os pesquisadores também estudam formas de devolver a areia monazítica à praia.

As pesquisas da areia monazítica tiveram início há seis anos e são feitas em parceria com o professor Marcos Tadeu Orlando, do mesmo departamento. O município de Guarapari, na região metropolitana do Espírito Santo, é conhecido pela sua areia monazítica, com grande concentração natural de minerais, alguns deles com propriedades terapêuticas. Apesar de a legislação brasileira considerar aceitável a dose de radiação de, no máximo, 2,2 microSieverts (mSv), as praias do município apresentam doses maiores e, segundo os pesquisadores, elas são benéficas ao organismo humano, conforme demonstrado em estudos anteriores.

“Se fosse prejudicial, a população de Guarapari estaria toda doente, algo que dados do Sistema Único de Saúde analisados em nossa pesquisa nessas praias mostraram que não acontece. Acreditamos que o nível certo de radiação pode vir a estimular a defesa do organismo”, afirma Orlando. Ele acrescenta que os países europeus consideram aceitável um índice de até 200 mSv, o que seria mais alinhado ao que os pesquisadores da Ufes vêm verificando em seus estudos.

Nas medições, realizadas durante o período de um ano, a praia de Meaípe registrou os maiores índices, chegando a 40 mSv. Em seguida, fica a praia da Areia Preta, cujo índice varia de 10,2 a 150 mSv. Já a praia das Castanheiras registrou um nível de radiação considerado normal e a da Bacutia, baixo.

Passamai Jr. destaca também as variações de índices conforme o local e a época do ano. “Na praia de Meaípe, por exemplo, poucas vezes a radiação está no mesmo lugar. Já na das Castanheiras, é comum encontrar sempre tanto na borda esquerda quanto na direita. Na da Areia Preta, também fica em uma área fixa de 350 metros de extensão – apesar de em algumas épocas do ano ela sumir, sempre volta ao mesmo local, mas varia a intensidade”, conta.

Ele aponta que o diferencial de sua pesquisa em relação a outras feitas no município capixaba reside no fato de ter registrado não só a presença da radiação, mas também suas variações conforme o tempo e o espaço. “Nos artigos que temos visto, as pessoas fazem medição de um dia só e fazem o retrato dele, não fazem medida contínua, e isso não é o suficiente”, analisa o professor.

Gás radônio

Com o mesmo equipamento usado para medir a radiação da areia preta, foi possível analisar também a presença do gás radônio em Guarapari. “Esse radônio encontrado nas praias vem do tório, e não de produção humana, que usa o urânio e é perigoso. O radônio do tório tem tempo de vida de um segundo, atua rápido e não causa problema. É diferente do emanado pelo urânio, que fica no ar até quatro dias e causa câncer”, explica Orlando. O radônio proveniente do tório é considerado um gás nobre e é usado em terapias de combate ao câncer.

Durante as medições, Passamai Jr. registrou um bolsão de gás radônio se locomovendo para dentro do continente. Foram registrados altos índices do material no ar próximo ao posto da Polícia Militar, aos radares da rodovia, ao seringal de Viana e ao Hotel Radium. Perto desse antigo hotel cassino, o aparelho de medição registrou 400 mSv.

Elementos de terra-rara

Durante a radiometria na praia de Meaípe, foram encontrados elementos terra-rara na areia. Esses componentes são substâncias químicas utilizadas na produção de itens tecnológicos e não encontrados em nenhum outro litoral brasileiro. No mundo, elementos similares estão presentes somente em Querala, na Índia. Segundo Orlando, isso pode fazer da praia de Meaípe uma referência mundial em tratamentos com radiação.

Durante seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica da Ufes, Arthur Cavichini estudou as amostras da areia e encontrou, em maior quantidade, o tório, o cério e o samário, sob a orientação do professor Orlando. Esses são os materiais mais caros e estratégicos para o Brasil, segundo os pesquisadores, pois são usados na produção de lentes, circuitos eletrônicos e ímãs de alta potência. “Apesar de ser um material significativo para o país, é preciso se atentar que, para explorá-lo, destrói-se a natureza”, contemporiza o orientador.

Preocupações ambientais

Toda a riqueza encontrada em Meaípe, no entanto, encontra-se em risco, devido ao elevado grau de erosão da praia. Motivados por essa preocupação, os pesquisadores incluíram a questão ambiental no projeto de pesquisa. Em busca de informações mais precisas, foi instalada uma torre na praia, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), que reúne dados sobre a temperatura, a radiação, a velocidade dos ventos e a intensidade de radiação. O equipamento transmite informações on-line para o laboratório da Ufes e o da USP, onde quem coordena a pesquisa é a professora Jacyra Soares.

A erosão interfere na manutenção natural da areia monazítica, apontam os pesquisadores. Dois oceanógrafos da USP simularam e analisaram as configurações da areia e as informações obtidas por meio da torre. Eles concluíram que a praia está morrendo por falta de afluxo de areia.

“É como se a praia fosse um coração e algumas das veias estão entupidas. O mar vem e leva a areia; o rio e as correntes do próprio mar trazem. Então, se mantém um equilíbrio dinâmico: a areia entra e sai. Mas, algumas dessas veias foram entupidas e a reposição é lenta: a ala sul, que vem do porto, entupiu uma corrente. Além dela, tem a parte norte, a parte central e o rio”, explica Orlando, que coordena o projeto pela Ufes.

A Ufes recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) para continuar o estudo e fechou parceria com a Secretaria de Turismo de Guarapari e o Departamento de Edificações e Rodovias (DER) para intercâmbio de dados. A pesquisa busca entender os movimentos de reposição de areia, para indicar os canais de afluxo exatos e, assim, engordar a praia. “Enquanto não podemos dar um resultado preciso, indicamos ao governo e ao DER utilizar a areia monazítica no fundo do mar para a dragagem e engorda artificial para a situação não piorar”, aponta o coordenador.

O projeto da Ufes com a USP também está produzindo um modelo específico de mapas dos ventos para o hemisfério sul, pois os existentes não são específicos para a erosão. Além disso, está desenvolvendo um dispositivo inédito para mapear a areia, coordenado pelo professor Passamai Jr., que será patenteado pela Ufes.

Fornecer esses subsídios para reconstituir a praia, mantendo a areia monazítica, é essencial, aponta Orlando. “Se tudo ocorrer como foi proposto, a praia de Meaípe pode receber selo azul internacional de ecologicamente correta e ser incluída no roteiro das melhores praias do mundo. Isso ajuda a movimentar a economia. Estamos animados”, conclui o pesquisador.

Outras pesquisas

Além dessas pesquisas, os professores estão envolvidos em outros projetos. Um deles é feito em conjunto com as empresas ArcelorMittal e Petrobras, do Rio Grande do Sul, para fazer impressões 3D de aços mais leves, resistentes e que gastem menos carbono, para uso na indústria. Esse estudo é desenvolvido há cinco anos e envolve cinco teses de doutorado, cada uma com aços diferentes.

Eles utilizam a técnica de nanodestruição para reconstruir o aço a laser com novos componentes, como o titânio, e já alcançaram mais 10% de leveza e 20% de resistência, porém os planos são para elevar essas porcentagens. Os primeiros testes de tração e resistência mecânica serão realizados em 2021.

Também são desenvolvidos estudos com nanotecnologia a fim de desenvolver pílulas de cerâmica nanoestruturada para levar antígenos até a parte do organismo humano que deve absorvê-la. A chamada drug-delivery é feita por meio de parceria entre a Ufes, o Instituto Butantan e a USP e pode vir a ser utilizada em substituição a vacinas. “Tem um estudo de doutorado específico para analisar os efeitos desse antígeno quando colocado dentro da cerâmica, para entender se estraga ou se fica intacto”, explica Orlando.

Veja também:

No programa Dez, da TV Ufes, o pesquisador Marcos Tadeu Orlando explica sobre a presença da radiação natural nas praias do município e os benefícios trazidos ao sistema biológico das pessoas.

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