Pesquisadores da Ufes auxiliam na descoberta de primeiro incêndio florestal na Antártica

Ilustração dos incêndios vegetacionais ocorridos na Antártica durante o Cretáceo, produzida pelo paleoartista do Museu Nacional do Rio de Janeiro, Maurílio Oliveira
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– Por Noélia Lopes* –

Análises de amostras de plantas fossilizadas indicam a ocorrência de paleoincêndios na Ilha James Ross, localizada na Península Antártica, há 75 milhões de anos. Os resultados da descoberta, feita por pesquisadores brasileiros, foram publicados em um artigo na revista Polar Research e apresentam a primeira ocorrência de paleoincêndios florestais na Antártica. A hipótese mais provável, segundo os estudos, é que os incêndios tenham sido causados pela intensa atividade vulcânica da região durante o período Cretáceo.

Contribuíram para a pesquisa profissionais da Ufes, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), do Museu Nacional do Rio de Janeiro/UFRJ, da Universidade do Vale do Taquari (Univates), da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), do Centro Paleontológico da Universidade do Contestado (Cenpaleo) e da Universidade Regional do Cariri (Urca).

Liderado por Flaviana Lima, professora e paleontóloga da UFPE, em parceria com o projeto Paleoantar, o estudo foi realizado entre dezembro de 2015 e fevereiro de 2016, durante uma expedição ao continente antártico que durou cerca de 70 dias e contou com a participação de 15 pessoas, dentre as quais os professores Rodrigo Figueiredo e Taissa Rodrigues, da Ufes.

Figueiredo falou sobre sua experiência. “Estar na Antártica é desafiador, mas também é prazeroso para nós, enquanto paleontólogos. O trabalho de campo é um desafio grande, mas, por mais difícil que seja encontrar os fósseis, eles trazem respostas importantes, não só para a ciência brasileira, mas para o contexto de todo o planeta”, disse.

As amostras analisadas foram coletadas na unidade geológica conhecida por Formação Santa Marta, localizada no nordeste da Ilha James Ross. Segundo dados apresentados pela vice-diretora do projeto Paleoantar, Juliana Sayão, no total foram coletados cerca de uma tonelada de material para análise, entre fósseis, rochas e outros materiais necessários para a pesquisa.

Resultados

Durante a observação das amostras, a semelhança dos fósseis com o carvão utilizado atualmente chamou a atenção dos pesquisadores. Ao realizar as análises nos troncos e lenhos vegetais fossilizados usando microscópio eletrônico de varredura, eles descobriram que as plantas haviam sido queimadas antes de sofrer o processo de fossilização.

Além disso, devido às altas temperaturas durante os incêndios, as imagens do microscópio também demonstraram que as paredes celulares das plantas fossilizadas estavam completamente homogeneizadas, ou seja, não possuíam lamela média, estrutura interna que une as paredes celulares. A planta fossilizada foi classificada na família Araucariaceae, mesmo grupo da espécie de Araucária existente no Brasil.

A pesquisa concluiu ainda que os paleoincêndios florestais afetaram a biodiversidade do continente. “A Antártica era completamente diferente do que é hoje. Havia uma vegetação exuberante e uma atividade tectônica bastante grande acontecendo, mas, até o momento, só havia uma publicação que confirmava a ocorrência de paleoincêndios na Península Antártica. Agora, temos a prova de que isso efetivamente aconteceu”, afirmou o professor André Jasper, da Univates.

Importância da pesquisa

Para o professor Álamo Feitosa, da Urca, pesquisar os paleoincêndios é relevante para entender a atualidade, pois, em um mundo que se encontra no aquecimento global, as informações sobre fatos do passado podem dar exemplos de como lidar com essas variações e condições ambientais no presente.

O professor André Jasper ainda acrescenta que há um diferencial nesse trabalho e que ele pode contribuir para uma reflexão sobre o que está acontecendo com a biodiversidade hoje. “Naquele momento, as fontes de ignição eram naturais, mas hoje temos o fator antrópico. Então, é interessante estabelecer paralelos com a realidade atual e tentar avaliar qual a influência do homem nesse processo e o quanto nós estamos aumentando a ocorrência de incêndios”.

Por último, a paleontóloga Flaviana Lima ressaltou que, apesar dos registros de paleoincêndios na Antártica e das descobertas alcançadas, há muito o que estudar. “Não sabemos ainda a frequência com que esses incêndios aconteceram, mas a ideia é continuar procurando esses registros de incêndios no hemisfério sul e saber como eles mudaram os ambientes”.

* Bolsista de projeto de Comunicação
Imagem: Maurílio Oliveira, Museu Nacional do Rio de Janeiro
Edição: Thereza Marinho

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