Sueli de Freitas
Uma nova tecnologia para filtragem de óleos minerais emulsionados em água está sendo testada por uma equipe do Programa de Pós-Graduação em Energia (PPGEN) da Ufes, no Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), em São Mateus. A base do experimento é uma fibra vegetal encontrada no fruto da planta Calotropis procera, popularmente conhecida como flor-de-seda. Os resultados já alcançados até o momento apontam um menor consumo de energia no tratamento dos resíduos gerados em processos industriais, com manutenção ou até aumento da eficiência na remoção do óleo antes do descarte da água no meio ambiente.

Os estudos com a fibra da Calotropis procera tiveram início no PPGEN/Ufes em 2020. Duas dissertações de mestrado (dos estudantes Lucas Coutinho e Odilon de Oliveira) analisaram essa alternativa sustentável para tratar efluentes. Agora, Oliveira desenvolve sua tese de doutorado buscando o aperfeiçoamento do processo de filtragem, sob a orientação do professor Eduardo Muniz, coordenador do Laboratório de Medidas de Propriedades Físicas de Materiais do PPGEN/Ufes.
Essas pesquisas, e também estudos de iniciação científica desenvolvidos por estudantes de graduação, estão abrangidas pelo projeto Fibras Naturais para Remoção de Óleo em Água, coordenado por Muniz em parceria com o professor Nazareno Braga, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O projeto visa à construção e à avaliação de um sistema filtrante para separação de óleo emulsificado em água utilizando fibras de Ceiba pentandra (sumaúma), Calotropis Procera (flor-de-seda) e Typha domingensis (taboa).

Lubrificação
Um sistema de filtração de óleo mineral com uso de componentes que apresentam um desempenho melhor e menor custo atende à necessidade de tratamento de efluentes produzidos em indústrias, oficinas mecânicas e postos de combustíveis. De acordo com os pesquisadores, os compostos decorrentes da lubrificação de máquinas, carros e equipamentos apresentam, em geral, baixa biodegradabilidade, levando à formação de uma camada superficial de óleo que reduz a oxigenação da água de rios e lagos. O óleo sobrenadante é usualmente removido nas caixas de passagem de esgoto das empresas por meio de métodos físico-químicos de separação de misturas heterogêneas. No entanto, o óleo emulsificado na água não é retido de forma eficiente por esse processo, permanecendo disperso no efluente. Por essa razão, em determinadas situações, emprega-se um sistema de filtração específico para a remoção do óleo.
A fibra da Calotropis procera é oca e tem formato tubular. A adsorção ocorre em suas superfícies internas, sendo o processo de filtragem realizado com quatro camadas da fibra. Segundo o professor Muniz, “um grama de fibra retém 80 gramas de óleo”. Ele afirma que os presquisadores “estão testando outras plantas e poderemos ter, no futuro, esse filtro produzido em escala industrial”.
Além da Calotropis procera, os testes serão feitos com fibras da sumaúma, que também possui comprovada eficiência na remoção de óleo em água, e com a fibra da taboa, muito comum no Espírito Santo, cuja aplicação para filtragem tem menos evidências até o momento. “Já existem estudos sobre o uso dessas fibras, mas ainda não há uma comparação sistemática entre elas e um estudo de sua viabilidade para filtrar volumes maiores de efluentes”, ressaltou Muniz. Ele informou que no projeto será feita a caracterização detalhada das fibras, “procurando associar sua estrutura com a capacidade de absorção de óleo”.

As pesquisas do projeto Fibras Naturais para Remoção de Óleo em Água estão relacionadas ao sexto dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ODS-ONU), que tem como meta assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável da água potável e do saneamento básico para todas as pessoas até o ano de 2030.
O que é a Calotropis procera
A Calotropis procera é uma planta nativa do Norte da África e do Sudoeste da Ásia (Oriente Médio), já tendo se difundido por várias regiões tropicais do mundo. No Brasil, está presente na Região Nordeste e também no norte do Espírito Santo. É conhecida por ter uma seiva tóxica. A fibra que está sendo pesquisada está na parte interna do fruto, e assemelha-se a um algodão.
Revisão: Monick Barbosa
Imagens: acervo dos pesquisadores
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