Realidade, sabedoria e etc.

Há pessoas que confundem realidade com uma caricatura ou ilusão dela, cujo caráter pode variar de doce e desejável ao amargo e repugnante. Esse é um tema que remonta aos primórdios da filosofia, tendo sido um dos focos da filosofia socrática e tema da notória alegoria da caverna de Platão.

  • O oráculo de Delfos havia dito a Sócrates que ele era o mais sábio de todos os homens, pelo que Sócrates procurou saber se isso era verdade investigando seus contemporâneos – mas acabou concluindo que o deus de Delfos o considerava o mais sábios dos homens porque era o único que tinha consciência da própria ignorância, enquanto todas as pessoas notáveis acreditavam saber de coisas que realmente não sabiam.
    • “Assim, prossigo agora nessa busca, investigando, segundo o comando do deus, todo indivíduo, cidadão ou estrangeiro, que julgo ser sábio. Então se não julgo que é, presto assistência ao deus e mostro que a pessoa não é sábia.”
      (Platão: Apologia de Sócrates. Tradução: Edson Bini. Edipro: São paulo, 2011: p.36)

As discussões raramente ultrapassam o nível retórico, e quando isso acontece dificilmente a razão vence devido ao despeito ou mera hipocrisia. Sintoma dessa condição é o seguinte comportamento, tão estúpido quanto demasiado comum: argumentar contra alguém ou grupo com base no que se acredita serem as verdadeiras e ocultas razões para algo que essa pessoa ou grupo tenha dito ou feito. Assim, costumamos ouvir declarações do seguinte tipo: “Fulana aceitou o trabalho só para parezer boazinha”; “Sicrano não enfrentou a situação porque não tem culhão”; “Ele desconversou porque tinha medo do que eu poderia dizer”; etc. Como algúem pode saber o que se passa na mente de outras pessoas e conhecer suas reais razões por indícios tão fracos, especialmente quando há algo em disputa? Se formos levar a sério tais argumentos, precisaríamos primeiro acreditar que a maioria de nós possui clarividência ou a capacidade de ler mentes alheias! Acho mais provável que a maioria de nós não sabe o que se passa na própria cabeça, nem o que realmente fará quando houver ocasião de fazer.

Num debate, geralmente vence aos olhos do público quem fala mais grosso, mais alto ou de forma mais pedante (i.e., com ar de possuir elevada moral, vasto conhecimento, grande sabedoria ou qualquer característica que possa despertar admiração da turba – até mesmo ignorância, brutalidade ou depravação). Não raro, as disputas revelam traços de violência, geralmente verbais ou limitadas às ameaças hipotéticas – aquelas velhas ladainhas: “se fosse comigo, eu teria dito/feito isso e aquilo”, “caso se metam comigo, vão saber do que sou capaz”, “da próxima vez, vai ter troco”, etc. Sinceramente, pode até ser que tudo isso seja inofensivo na medida em que é apenas efeito e não a causa da nossa mediocridade; mesmo assim, não deixam de ser deprimente…

Digressões sobre o Estatuto e Regimento da UFES

Página da Atualização do Estatuto e Regimento da UFES:

Sobre as Finalidades e Princípios de Eficiência

Penso que o estatuto e regimento da Universidade devem estabelecer condições ideais para o desenvolvimento das suas atividades fundamentais: ensino, pesquisa e extensão. Para tanto, acredito na necessidade do estatuto incorporar os seguinte princípios:

  • Princípio dos Mínimos Encargos Administrativos: os docentes e discentes devem ser poupados de obrigações administrativas tanto quanto possível;
  • Principio da Máxima Autonomia e Responsabilidade: os docentes e discentes devem assumir tanto autonomia quanto responsabilidade pelo seu desenvolvimento/rendimento acadêmico.
    Este princípio pode ser implementado em três vias:

    • pela flexibilização dos currículos e das formas de condução das disciplinas;
    • pela valorização das ações e dos agentes que produzam melhores resultados acadêmicos (segundo critérios que subentendam a ética, a liberdade intelectual e o aprimoramento sócio-cultural);
    • os servidores técnico-administrativos devem participar mais ampla e efetivamente do planejamento e execução das tarefas administrativas, podendo assumir posições de chefia em órgãos colegiados em função da competência profissional e do reconhecimento pelos pares.

Considero inadequada qualquer proposta de estatuto ou regimento que não ataque os principais problemas vivenciados pela comunidade acadêmica, especialmente por estudantes e professores, dentre os quais:

  1.  uma estrutura organização e divisão de trabalho do corpo de servidores que acarreta o acúmulo de responsabilidades administrativas pelos docentes, que acabam por obstruir sua dedicação ao ensino, pesquisa e extensão;
  2. a persistência de um modelo de ensino, aprendizagem e avaliação na graduação que têm se mostrado ineficiente quanto aos resultados e  inadequado à conjuntura tecnológica e científica atuais.

Não creio que seja essencial a questão da Universidade possuir ou não departamentos para aglutinar professores. Este é um aspecto administrativo que pode ser bem resolvido de um jeito ou de outro, dependendo dos detalhes. Entretanto, acredito na importância dos departamentos para aquelas áreas que contribuem para diversos cursos, posto que neles os docentes podem mais naturalmente discutir e prover soluções para as questões que requeiram seu expertise e colaboração. Aqui, penso especialmente nas áreas básicas das ciências exatas e humanas – matemática, física e química, mas também filosofia e ciências sociais, por exemplo. Especificamente, proponho as seguintes sugestões para a caracterização, organização e administração dos departamentos:

  1. os departamentos devem ser unidades administrativas e deliberativas constituídos por professores e técnicos-administrativos;
  2. os professores devem possuir as atribuições de lecionar nas disciplinas dos cursos de graduação e pós-graduação; desenvolver projetos de ensino, pesquisa e extensão; colaborar na administração do seu departamento e da Universidade;
  3.  os professores devem decidir sobre questões didáticas relativas às disciplinas nas quais seus professores atuam, colaborando com os colegiados de curso na elaboração e atualização curricular (incluindo ementas e programas de disciplinas);
  4. as câmaras departamentais podem ter número flexível de integrantes, variando de 25% a 100% do número de docentes e com a seguinte composição mínima: chefe, subchefe, representante docente para questões de ensino, representante docente para questões de pesquisa, representante docente para questões de extensão; (Naturalmente, a composição das câmaras departamentais e algumas questões fundamentais devem ser deliberados por todos os membros do departamento – incluindo nessas questões, os critérios para distribuição/atribuição de encargos.)
  5. técnicos-administrativos dos departamentos podem ocupar  o cargo de chefia (após passar por um processo seletivo e ser eleito pelos membros do departamento); (A universidade pode criar um “curso para chefias” e exigir aprovação nesse curso para aqueles técnicos que quiserem assumir esta função.)

Algo parecido pode ser pensado para os colegiados, também permitindo que técnicos-administrativos sejam coordenadores de curso.

As ideias esboçadas acima naturalmente requerem detalhamentos para que possam ser incorporadas no estatuto ou regimento da Universidade, mas já apontam caminhos para uma “desoneração da carga administrativa” dos docentes.

Uma questão delicada diz respeito às prerrogativas de colegiados e departamentos na administração dos cursos de graduação. Em síntese, essas prerrogativas precisam contribuir para que as especificidades dos cursos sejam consideradas mais sensivelmente pelos departamentos, bem como as especificidades da área de atuação de um departamento sejam levadas em conta pelos colegiados dos cursos. Os cursos são um ponto de encontro entre colegiados e departamentos que têm gerado atrito na estrutura organizacional da Universidade, gerando dificuldades administrativas. A extinção dos departamentos é uma solução possível para esse problema, mas ao custo de gerar outras dificuldades –  dentre as quais está uma possível disseminação de disciplinas básicas específicas e inequivalentes – o que provavelmente demandará maior encargos didáticos para os professores. (Por exemplo, imagine uma disciplina de cálculo específica para o curso de administração, outra para o curso de economia, outra para o curso de física, outra para o curso de química, outra para o curso de matemática, etc. Além desse fenômeno aumentar o número de professores necessário para atender a oferta separada dessas disciplinas, ele vai contra a ideia de flexibilizar currículos – pois tal flexibilização pressupõe maior quantidade de disciplinas eletivas que possam ser aproveitadas por diversos cursos – e essas disciplinas podem ser tanto mais abrangentes quanto mais básicas forem.)

Finalmente, acho que a Universidade pode melhorar bastante os procedimentos relativos à progressão funcional dos professores. Atualmente, a progressão funcional é regulamentada na Universidade por resolução específica, mas poderia ter seus princípios gerais incorporados no estatuto ou regimento, tais como os seguintes:

  1.   definir uma unidade específica do setor de recursos humanos para cuidar de todos os processos de progressão funcional dos docentes;
  2. informatizar completamente e automatizar tanto quanto possível o registro das informações docentes e tramitação do processo de progressão;
  3. estabelecer que as progressões horizontais sejam automáticas, desde que sejam atendidos critérios mínimos de desempenho profissional e acadêmico;
  4. estabelecer que as progressões verticais exijam dos docentes tanto capacitação quanto produção acadêmica compatíveis com as metas institucionais de eficiência e produtividade. (Os critérios para progressão devem privilegiar largamente as atividades de ensino, pesquisa e extensão sobre as atividades administrativas).

Quanto à proposta da Comissão Especial da Universidade montada para tratar dessas questões, me parece que não avança muito nas ideias esboçadas aqui.

Sobre as Avaliações em Disciplinas de Graduação

O Estatuto atual no Art.75 e a Proposta de Estatuto no Art.91 declaram identicamente:

  • “O Regimento Geral da Universidade disciplinará as condições de ingresso nos diferentes cursos, o regime de estudos e a avaliação do aproveitamento, as áreas de habilitação acadêmica ou profissional e os demais aspectos relativos ao ensino, observadas às normas da legislação em vigor.”

O atual Regimento Geral da UFES estabelece:

  • “Art.104. A aprovação em qualquer disciplina somente será concedida ao aluno que, satisfeitas as demais exigências, obtiver um mínimo de ¾ (três quartos) ou 75% de freqüência às aulas dadas nessa disciplina.”
  • “Art.108. Será exigido um mínimo de 2 (dois) trabalhos escolares por período letivo em cada disciplina.”
  • “Art. 109. Ressalvada a hipótese contida no Parágrafo Único deste artigo, além dos trabalhos escolares previstos no artigo anterior, haverá, no fim do período letivo, em cada disciplina, uma verificação final, abrangendo o programa lecionado.
    Parágrafo único. Ficarão dispensados da referida verificação final apenas os alunos que obtiverem média igual ou superior a 7 (sete) nos mencionados trabalhos.
  • “Art. 113. As notas atribuídas, na avaliação dos trabalhos escolares e na prova prevista no art. 105 deste Regimento, serão expressas em valores numéricos, variando de zero a dez.”
  • “Art. 115. Será considerado aprovado, podendo obter os créditos oferecidos pela disciplina no período letivo, o aluno que, satisfeitas as exigências da freqüência, obtiver crédito – nota igual ou superior a 5 (cinco), no caso dos cursos de graduação, e igual ou superior a 6 (seis), no caso dos cursos de pós-graduação.”
  • “Art.116. Será considerado inabilitado o aluno que:
    I. Obtiver crédito-nota inferior a 5 (cinco) nas disciplinas dos cursos de graduação, e inferior a 6 (seis) nas disciplinas dos cursos de pós-graduação;
    II. Comparecer a menos de 75% das atividades escolares.”

Proponho as seguintes atualizações para o Regimento Geral:

Proposta para o novo Regimento Geral da UFES:

  • Art.X. Em cada disciplina, o aluno deve ser submetido a pelo menos duas avaliações regulares, com notas atribuídas numa escala de zero a dez, realizadas durante o período letivo.
    Parágrafo Único: Denomina-se Nota Regular (NR) do aluno numa disciplina a média entre suas avaliações regulares.
  • Art.Y. Caso o aluno obtenha Nota Regular (NR) entre 3 e 6 (inclusive), ele deve ter a oportunidade de realizar uma avaliação complementar, com nota atribuída numa escala de zero a dez denominada Nota Complementar (NC), após o término do período letivo.
  • Art.Z. A Nota Final de um aluno numa disciplina é calculada do seguinte modo:
    I. Será igual a Nota Regular, caso esta seja maior ou igual a 6;
    II. Será a média aritmética entre a Nota Regular e a Nota Complementar;
  • Art.Z. Para um aluno ser aprovado numa disciplina, é necessário:
    I. Frequência não inferior a 75% da carga horária da disciplina;
    II. Média Final maior ou igual a 6;

Por enquanto, é isso!

Micromath

Destaco aqui algumas pérolas encontradas no livro

  • Keith Devlin: Micromath: mathematical problema and theorems to consider and solve on a computer. Macmillan Publishers LTD, 1984.

 

1) O Polinômio de Euler

 f(n) = n^2 + n + 41.

(Verfica-se que f(-n) = f(n-1), de modo que os valores de f nos argumentos inteiros negativos repetem os valores de f dos argumentos inteiros não-negativos.)

O Polinômio de Euler é espetacular porque retorna números primos para qualquer argumento inteiro entre 0 e 39 (inclusive). Além disso, para o primeiro milhão inteiros, pouco menos da metade dos valores de f são primos. Tal comportamento é bastante peculiar…

Um programa que verifica a primalidade dos valores do Polinômio de Euler: Polinomio-Euler!

2) Números de Fermat

Fermat conjecturou que são primos todos os números da forma

F(n) = 2^(2^n)+1; n  = 0, 1, 2, …

Fermat verificou sua conjectura apenas para os argumentos 0, 1, 2, 3, 4, não conseguindo prová-la e nem exibir um contraexemplo.

Euler mostrou que F(5) = 4294967297 é divisível por 641, provando que a conjectura de Fermat é falsa.

Posteriormente, verificou-se também que F(7) e F(16) também não são primos. Hoje, conjectura-se que os valores de F são primos apenas para os argumentos 0, 1, 2, 3, 4 – quase o oposto da conjectura original de Fermat!

Conclusão: Indução é algo temerário – até os gênios erram!

3) Números perfeitos

Um número perfeito é um inteiro positivo que é igual à soma dos seus divisores próprios.

Os primeiros números seis números perfeitos são:

6, 28, 496, 8128, 33550336, 8589869056.

Um matemático grego do primeiro século A.D. chamado Nicomachus conjecturou com base nos quatro primeiros números perfeitos conhecidos na sua época que  o n-ésimo número perfeito teria exatamente n dígitos e que terminaria alternativamente em 6 e 8. Ambas conjecturas foram demonstradas serem falsas pelas descobertas do quinto (séc.XV) e sexto (sec. XVI) números perfeitos.

Euclides provou que: se para algum inteiro positivo n o número 2^n-1 é primo, então (2^n-1)2^(n-1) é um número perfeito par.

Euler provou o resultado inverso: todo número perfeito par tem a forma (2^n-1)2^(n-1), para algum número inteiro positivo n tal que 2^n-1 é primo.

Números primos da forma 2^n-1 são chamados primos de Mersene.

A relação entre primos de Mersene e números perfeitos descoberta por Euclides e Euler é totalmente  inusitada em face das suas definições. Este é um exemplo interessante das belezas surpreendentes da Matemática.

4) Bugs

Uma estimativa para o custo dos bugs em softwares comerciais (do que podemos deduzir que é muito importante desenvolvermos procedimentos eficazes para evitá-los):

  • “‘Debugging’ is one of the first words people learn when they start to write computer programs. It is well nigh impossible to write a program of more than half a dozen lines (if that) without some small and practically undetectable error creeping in which, inevitably, causes the program to produce mysteriously bizarre results when it is run (always assuming that it will run at all). ‘Bugs’ are what they are called, and ‘debugging’ is the art (if that is the word) of finding and removing them. / It has been estimated that around 80 per cent of all the time (and hence money) spent on writing commercial software is spent on debugging. And it is unlikely that any largescale program is ever rendered totally bug-free. This goes for the operating systems and language compilers upon which everyone’s programs ultimately depend, besides the programs written by computer users.” (p.92)
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Violência e comunicação: o que acontece quando as palavras não bastam…

Faz algum tempo que ouvi falar sobre uma disseminação de episódios de violência entre pessoas próximas, jovens amigos ou casais de namorados. Pelo que me lembro, o fenômeno chama atenção porque é relativamente recente e possui causas atípicas, não completamente compreendidas. Entretanto, uma explicação apresentada tem por base um problema de comunicação: os jovens estão usando atos agressivos para comunicar sentimentos e emoções porque a expressão verbal não está sendo mais efetiva para tanto. Ou seja, para dar um exemplo, não basta o rapaz dizer para a namorada que não gostou da sua atitude na festinha, ele tem que dar um tapa na cara dela para ela entender a mensagem (ou para ele ter certeza de que ela entendeu).

Agora, parece que o mesmo fenômeno está acontecendo entre a população brasileira e os políticos: estão surgindo iniciativas/campanhas para as pessoas hostilizarem os políticos que encontrarem pelo caminho – e eu estou acreditando que esta tendência também pode ser explicada pelo fato dos políticos não estarem dando ouvidos às manifestações pacíficas de indignação da população sobre sua generalizada incompetência e exacerbada corrupção moral (i.e., como diz um velho ditado popular, por eles fazerem na vida pública o que fazem na privada).

Considerando que até namorados estão se agredindo para serem ouvidos, eu não duvido de que os brasileiros são capazes de fazer muito pior com os políticos se eles continuarem a nos desprezar e agirem como bandidos.

De minha parte, desejo justiça e paz.

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Paradoxo Brasileiro

  • O paradoxo brasileiro é o seguinte. Cada um de nós isolaamente tem o sentimento e a crença sincera de estar muito acima de tudo isso que aí está. Ninguém aceita, ninguém aguenta mais: nenhum de nós compactua com o mar de lama, o deboche e a vergonha da nossa vida pública e comunitária. O problema é que, ao mesmo tempo, o resultado final de todos nós juntos é precisamente tudo isso que aí está! A auto-imagem de cada uma das partes – a ideia que cada brasileiro gosta de nutrir de si mesmo – não bate com a realidade do todo melancólico e exasperador chamado Brasil.”
    Como explicar o paradoxo brasileiro? Como entender essa sensação íntima de superioridade de cada um de nós, separadamente, diante do coletivo, e o fato de que todos nós juntos estamos tão aquém da somatória das nossas auto-imagens individuais? / A explicação básica, caro leitor, talvez não seja a hipocrisia. (…) Nosso verdadeiro problema, é o auto-engano. /se fôssemos capazes, cada um de nós, de olhar para nós mesmos como os outros nos vêem, descobriríamos que o /brasil nos habita e teríamos mais humildade no agir.”
    (
    Eduardo Giannetti: Vícios Privados, Benefícios Públicos? Companhia das Letras: São Paulo, 2005: p.12,15. Ênfases acrescentadas.)

Computador Quântico da IBM

A IBM anunciou o desenvolvimento de um computador quântico e disponibilizou acesso por uma plataforma online:

  • Cade Metz: IBM is now letting anyone play with its quantum computer. Wired, 05/04/2016. Link!
  • http://www.research.ibm.com/quantum/
  • https://quantumexperience.ng.bluemix.net/

A RBEF publicou um artigo que explica o que é um computador quântico e como os recursos da IBM podem ser usados:

Atualmente,  há uma corrida para se conquistar o domínio das tecnologias quânticas e alguns países já têm desenvolvido estratégias para garantir sua vanguarda. É ilustrativo o documento produzido pelo Conselho Consultivo para Estratégias em Tecnologia Quântica do Reino Unido (QT SAB):

  • UK Quantum Technologies Strategic Advisory Board (2015): National strategy for quantum technologies. Link!
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Alunos inconsequentes?

O que dizer de um jovem adulto que é aluno de uma universidade pública e gratuita, mas que sistematicamente deixa de estudar para dedicar-se a uma miríade de distrações fúteis? Que ele é inconsequente?

Viver inconsequentemente é arriscar o futuro; é despreocupação temerária; é agir com despeito pela vida. A inconsequência assume caráter antiético quando ela compromete os interesses de outras pessoas, quando implica no desperdício de recursos alheios – em particular, os recursos públicos. Exemplo hodierno bastante difundido: requerer direitos sem cumprir deveres.

É assim que a Universidade está cheia de alunos que não estudam de forma adequada, mas exigem dos professores melhor didática, critérios de avaliação mais flexíveis, tarefas mais fáceis, maior oferta de disciplinas e vagas para repetentes contumazes, etc. Ilustra o absurdo desta situação a seguinte analogia: são como pessoas fedidas que para o problema do mal cheiro apresentam a brilhante solução de todos tamparem os narizes!

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O custo da incompetência

A incompetência pode sair caro!

Infelizmente, muitos estudantes universitários parecem não estar muito preocupados com a qualidade de sua formação acadêmica. Não dedicam ao aprendizado o devido tempo, atenção e esforço; conversam durante as aulas e reclamam da quantidade das tarefas; há os que copiam trabalhos, colam nas provas e até hostilizam professores.

Também há os que optam pelas faculdades privadas em detrimento das públicas porque nestas serão exigidos um mínimo de empenho para serem aprovados nas disciplinas.

Qual é o efeito?

Desperdício de tempo e recursos econômicos; frustração dos que  pagam pelo trabalho de incompetentes (por não terem ou conhecerem alternativas), danos patrimoniais, danos morais, danos físicos e até mortes!

Mortes?

Sim, pois a cada 3 minutos 2 pessoas morrem no Brasil por causa de falhas médicas evitáveis:

http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2016/10/26/a-cada-3-minutos-mais-de-2-brasileiros-morrem-por-falhas-medicas-evitaveis.htm

Mesmo que metade dessas mortes possa ser atribuída, em última instância, às péssimas condições de trabalho dos médicos e enfermeiros nos hospitais, ainda assim, seria demasiado que uma morte a cada três minutos decorresse de falha médica.

Aptidões na Educação

Qual é o valor didático de agrupar estudantes segundo critérios que desconsiderem suas aptidões, suas predisposições, seus interesses?

Penso que a Educação deve buscar a formação integral das pessoas: intelectual, emocional, cultural, política, etc. No campo profissional, deve visar o desenvolvimento das aptidões/talentos pessoais e ampliar ao máximo as chances de todos conquistarem seus objetivos (idealmente escolhidos de modo tão autônomo e crítico quanto possível).

Algo fundamental que está fora de consideração no âmbito da educação formal (especialmente pública) são as aptidões pessoais. Dificilmente o sistema educacional atual pode ser mais repressor do que é, posto que agrupa em turmas pessoas com as mais diferentes aptidões, características intelectuais, aspectos emocionais ou interesses na perspectiva de que todos aprendam as mesmas coisas, do mesmo jeito e no mesmo ritmo. Tal arranjo tende fortemente a gerar uma situação em que todos perdem: os alunos, na medida em que não conseguem aprimorar suas aptidões e nem desenvolvem as capacidades para tomar decisões e iniciativas de modo racional; os professores, que têm que lidar com o desinteresse dos alunos e assumir a responsabilidade pelo seu aprendizado; a sociedade, que desperdiça muitos recursos financeiros e humanos no sistema educacional ineficiente e bastante castrador.

Naturalmente, o sistema educacional formal não deve ser guiado pelas vontades dos jovens, mas também não pode ser totalmente indiferente a elas. Em particular, as escolas deveriam constituir turmas por afinidade de interesses e nível de conhecimento pertinente – o que seria um modo razoável de respeitar as diferenças que realmente devemos levar em conta nas pessoas, com repercussões promissoras nos âmbitos social e econômico.

 


 

Aquilo de bom que a intelectualidade e os políticos não conseguem fazer pela educação, podem acabar sendo realizadas pela própria sociedade por imposição das circunstâncias: as mudanças das atividades econômicas e do mercado de trabalho estão alterando as necessidades de formação profissional e gerando novos modos de ensinar e aprender! Já há muitos exemplos disso e podemos encontrar inumeráveis discussões do que está acontecendo e das tendências para o futuro; enumero algumas:

  • Palestra TED de Andrew McAfee, “Como serão os empregos no futuro?”:
    • < https://www.ted.com/talks/andrew_mcafee_what_will_future_jobs_look_like?language=pt-br >
  • Palestra TED de Wingham Rowan, “A new kind of job market:
    • < https://embed.ted.com/talks/wingham_rowan_a_new_kind_of_job_market >
  • Documentário NT Jornalismo “O trabalho do futuro”:
    • < https://www.youtube.com/watch?v=oDcgWE_3VII >
  • Episódio do programa Globonews Especial “A crise do emprego e o mercado de trabalho no futuro” (abordando as mudanças no trabalho, alternativas para formação profissional e iniciativas empreendedoras):
    • < https://www.youtube.com/watch?v=VQ7SDizld8w >

 

Diamantes a porcos…

Se as pessoas não querem ou não conseguem seguir orientações médicas para viver melhor, por que acreditar que jovens estudantes vão seguir as sugestões de estudo de seus professores, especialmente quando essas sugestões contrariam seus desejos imediatos (tanto quanto imaturos)?

Infelizmente, parece que é típico desperdiçar tempo na juventude e se lamentar isso depois; mas se dar bons conselhos aos jovens estudantes não os ajuda, pelo menos nos livra da culpa de não avisar…

 

  • Theodore Dalrymple: Qualquer Coisa Serve. Ano 2011. Tradução: Hugo Langone. É Realizações: São Paulo, 2016: p.81, p.208:
    • “Como médico e psiquiatra, passei um terrível período de minha carreira tentando levar pessoas por um caminho que se me afigurava adequado e benéfico a elas. Não nutro quaisquer ilusões acerca do quanto fui bem-sucedido: acho que tive pouquíssimo sucesso. Na melhor das  hipóteses, plantei as sementes da mudança em vez de tê-la suscitado de modo propriamente dito. Meus pacientes muitas vezes haviam seguido rumos tão autodestrutivos que, se encarados de maneira imparcial e com um mínimo de bom senso, não poderiam conduzir a nada além de angústia, desespero e caos. Com efeito, não raro os próprios pacientes percebiam isso, ao menos do ponto de vista intelectual.”
    • “Lamento dizer que não fui um aluno muito bom: não levava jeito para aquilo [estudar fisiologia] e, para ser honesto, também não fui muito consciencioso. Hoje, gostaria de ter sido mais atento, mas à época eu só tinha ciência intelectual, e não emocional, de que a flecha do tempo só voa numa direção. Ainda achava que minha vida seria tão longa que haveria tempo para tudo e estava certo de que nenhuma omissão de minha parte teria consequências duradouras ou irrecuperáveis.”