Fraude Acadêmica

Harvard é uma das universidades mais prestigiadas do mundo, no entanto:

  • “No começo dos anos 1950 a comunidade médica americana estava incomodada com o rápido aumento nas taxas de doenças cardiovasculares. Suspeitava-se que o algo consumo de açúcar pela população era, ao menos em parte, responsável pelo fenômeno. A associação parecia coisa certa até três professores da Universidade de Harvard publicarem um artigo na revista New England Journal of Medicine (NEJM) que redimiu a substância doce. De acordo com o trabalho, havia relação entre doenças cardíacas e dieta, mas omelhor que se poderia fazr para proteger o coração era reduzir o consumo de colesterol e gorduras saturadas. / O trabalho feito pelos pesquisadores de Harvard fez a gordura ocupar o lugar de vilã soliltária por décadas. Hoje, sabe-se que o açúcar desempenha papel importante nas doenças cardiovasculares. Em 2016, pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Francisco tiverem acesso a documentos antigos que revelaram que os pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Francisco tiveram acesso a documentos antigos que revelaram que os pesquisadores de Harvard receberam na ocasião US$49 mil cada um de uma fundação de empresas produtoras de açúcar.” (Rafael Ciscati: Uma voz contra a indústria. Revista Época, no.1030 (26.03.18): pp.64-69.)

Sugestão de leitura:

  • Marion Nestle: Food politics – How the food industry influences nutrition and health.
    • Rafael Ciscati: Uma voz contra a indústria. Revista Época, no.1030 (26.03.18): p.69: “Explora as táticas usadas pelas empresas para conquistar os consumidores, influenciar o trabalho de agências reguladoras e cientistas e, eventualmente, destruir a reputação de pesquisadores.”

Educação garante desenvolvimento econômico?

Elemento do senso comum atual é a ideia de que a educação proporciona desenvolvimento econômico. No nível individual ela é bem fundamentada, já que há uma correlação positiva entre nível educacional e renda média individuais; entretanto, os dados mostram que a ideia não vinga no âmbito nacional: o aumento do nível educacional de um país não garante seu desenvolvimento econômico (Pritchett, 2011; especificamente Table 1, p.371 ). Ou seja, a educação pode ser condição necessária, mas não é suficiente para um país ficar mais próspero e rico.

Pensando bem, é natural que a educação não garanta o desenvolvimento econômico de um país, pois este depende de vários outros fatores – por exemplo, conjuntura sociopolítica estável, sistema tributário favorável, cultura que valoriza/incentiva o empreendedorismo.

Uma conclusão importante disso é que investimentos governamentais em educação podem não dar o retorno esperado! Noutras  palavras, não basta o Estado investir em educação, é necessário algo mais.

Embora possa parecer frustrante  (especialmente para instituições de ensino e professores que defendem sua própria importância em termos da prosperidade individual ou social), há um aspecto positivo na dissociação entre educação e riqueza/economia: isso confronta a concepção (reducionista) de educação como valor econômico, mas deixa intocada a ideia (antiga) de que a educação é um valor humano.

Quer saber mais? Então leia:

  • Alison Wolf: Does Education Metter? Myths About Education and Economic Growth. Penguin: Londres, 2002.
  • L. Pritchett: Where has all the education gone? World Bank Economic Review Vol.15, no.3 (September 2001): 367. Link!

Universidade ou Diversidade?

Concorda?

  • “Na realidade, a universidade secular é assim impropriamente designada, pois ela se constitui em uma diversidade, em vez de em uma universidade. Isto é, encontramos diversificação, incoerência, visão dissociada das coisas, inversão de valores, e assim por diante. A norma é a “cola” ao invés dos princípios de honestidade. Os líderes estudantis não são aqueles que mais se destacam do ponto de vista acadêmico, mas, pelo contrário, justamente aqueles que dedicam o menor tempo possível à procura do conhecimento. O paradoxo, é que a universidade secular não preenche a sua finalidade, não atende as necessidades e nem fornece as respostas às pessoas. O homem moderno perdeu sua confiança e segurança. Ele não confia na sociedade e no seu desenvolvimento; é desprovido do seu relacionamento com o passado. Está solitário e vaga no escuro, resignado ao fato de que ninguém pode justificar a vida, que um padrão válido não pode ser localizado em lugar nenhum e que é vã a procura por um significado em sua existência.”
    > Solano Portela: O Que Estão Ensinando aos Nossos Filhos? Editora Fiel: São José dos Campos – SP, 2012.! Link! Link! (Excerto extraído de: A Educação Escolar Cristã na Universidade. http://ministeriofiel.com.br, 26 de Janeiro de 2018. Link!)

 

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Sócrates sob suspeita

Sócrates foi um filósofo notável, não tanto preocupado em compreender o mundo quanto ocupado em instigar as pessoas e as tornar aptas para a reflexão filosófica.

Sobre ele, contam que disse que a vida não refletida não vale a pena ser vivida.

De minha parte, apesar de achar que existe verdade no dito e até querer concordar plenamente, suspeito que seja inválido…

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Academia, segundo Taleb

Ler nos permite conhecer coisas novas, e também confirmar coisas que já sabemos por experiência própria. Por exemplo, eu já sabia que os acadêmicos não são mais inteligentes, mais gentis, mais nobres ou mais sábios do que as demais pessoas; talvez sejam mais sofisticados, mas somente no sentido da capacidade de proferir palavrões em francês. Se eu lamento? Só…

  • “Depois de mais de vinte anos trabalhando como operador transacional e empresário no que chamei de ‘profissão estranha’, tentei o que se chama de carreira acadêmica. E tenho algo para contar – na verdade, esse era o condutor por trás dessa ideia de antifragilidade na vida e a dicotomia entre o natural e alienação do antinatural. O comércio é divertido, emocionante, alegre e natural; o mundo acadêmico, como está atualmente profissionalizado, não é nada disso. E, para aqueles que pensam que a academia é mais ‘silenciosa’ e representa uma transição emocionalmente relaxante após a vida volátil dos negócios e da assunção de riscos, uma surpresa: quando em ação, novos problemas e sustos surgem a cada dia para deslocar e eliminar as dores de cabeça, os ressentimentos e os conflitos do dia anterior. Um prego desloca outro prego, com espantosa variedade. Porém, os acadêmicos (especialmente nas ciências sociais) parecem desconfiar uns dos outros; eles vivem de pequenas obsessões, invejas e ódios mortais, com pequenas indelicadezas se convertendo em rancores, fossilizados ao longo do tempo na solidão da transação com a tela do computador e a imutabilidade de seu ambiente. Sem falar de um nível de inveja que praticamente nunca presenciei no mundo dos negócios… Minha experiência é que o dinheiro e as transações purificam as relações; ideias e assuntos abstratos como ‘reconhecimento’ e ‘crédito’ as deformam, criando uma atmosfera de rivalidade perpétua. Passei a considerar as pessoas ávidas por credenciais repugnantes, repulsivas e não confiáveis.”
  • “Quero ser feliz sendo humano e estar em um ambiente em que as outras pessoas estejam reconciliadas com seu destino – e nunca, até meu encontro com a academia, havia considerado que este ambiente era uma certa forma de comércio (combinado com uma solitária bolsa de estudos).”
    > Nicholas Nassim Taleb: Antifrágil. Tradução: Eduardo Rieche. Best Business: Rio de Janeiro, 2014. pp.37, 38, 39.
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Valor e Sabedoria

  • “Uma mosca sem valor
    pousa com a mesma alegria
    na careca de um doutor
    como em qualquer porcaria.”
    (Aleixo)

Tenho duas interpretações desse breve poema, dependendo da mosca representar uma pessoa ou uma ideia.

Interpretando a mosca como pessoa, sua falta de valor significa carecer de discernimento para distinguir virtude e vício, nobre e degradante, o que é bom e o que é ruim, o bem e o mal.

Interpretando a mosca como ideia, sua falta de valor significa que pode ocorrer indistintamente na mente de sábios e tolos. Nesse caso, os sábios se distinguem dos tolos pela capacidade que aqueles têm de gerar boas ideias – pois ideias tolas, todos as temos.

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Disciplina discente no sistema de ensino antigo

Excerto de: Yuval Noah Harari: Homo Deus: uma breve história do amanhã. Tradução: Paulo Geiger. Editora Companhia das Letras: 2015. Capítulo 7 – Sobrecarga de memória. Seção As maravilhas da burocracia. (Citando: Stephen D. Houston (org.): The First Writing: Script Invention as History and Process. Cambridge University Press: Cambridge, 2004: p.222.)

“Um exercício de escrita de uma escola na antiga Mesopotâmia que foi descoberto por arqueólogos modernos nos dá uma ideia da vida desses estudantes, por volta de 4 mil anos atrás:

Eu entrei e me sentei, e meu professor leu minha tábua.

Ele falou: “Tem algo faltando!”.

E me castigou com a vara.

Uma das pessoas responsáveis falou: “Por que você abriu a boca sem minha permissão?”.

E me castigou com a vara.

O responsável pelas regras falou: “Por que você se levantou sem minha permissão?”.

E me castigou com a vara.

O porteiro falou: “Por que você está saindo sem minha permissão?”.

E me castigou com a vara.

O guardião do caneco de cerveja falou: “Por que você se serviu sem minha permissão?”.

E me castigou com a vara.

O professor sumério falou: “Por que você falou em acadiano?”.

E me castigou com a vara.

Meu professor falou: “Sua caligrafia não é boa!”.

E me castigou com a vara.”

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Estatística

Excerto sobre Estatística extraído de: Yuval Noah Harari: Homo Deus: uma breve história do amanhã. Tradução: Paulo Geiger. Editora Companhia das Letras: 2015. Capítulo 14 – A descoberta da ignorância. Seção: O dogma científico.

“Ao longo dos últimos 200 anos, desenvolveu-se um novo ramo da matemática para lidar com os aspectos mais complexos da realidade: a estatística.

Em 1744, dois clérigos presbiterianos na Escócia, Alexander Webster e Robert Wallace, decidiram criar um fundo de seguro de vida que pagaria pensões a viúvas e órfãos de clérigos falecidos. Eles propuseram que cada um dos pastores de sua igreja dedicasse uma pequena parte de sua renda para o fundo, que investiria o dinheiro. Se um pastor morresse, sua esposa receberia dividendos sobre os lucros do fundo. Isso lhe permitiria viver confortavelmente pelo resto da vida. Porém, para determinar quanto os pastores tinham de pagar a fim de que o fundo tivesse dinheiro suficiente para honrar suas obrigações, Webster e Wallace precisavam ser capazes de prever quantos pastores morreriam a cada ano, quantas viúvas e órfãos eles deixariam e quantos anos as viúvas viveriam a mais do que os maridos.

Observe o que os dois clérigos não fizeram. Eles não rezaram para que Deus lhes revelasse a resposta. Nem procuraram a resposta nas Escrituras Sagradas ou nas obras de teólogos antigos. Tampouco entraram em uma discussão filosófica abstrata. Sendo escoceses, eram sujeitos práticos. Então, contataram um professor de matemática da Universidade de Edimburgo, Colin Maclaurin. Os três reuniram dados sobre a idade em que as pessoas morriam e usaram esses dados para calcular quantos pastores provavelmente morreriam em determinado ano.

Seu trabalho se baseou em vários avanços recentes no campo da estatística e da probabilidade. Um desses avanços foi a Lei dos Grandes Números, de Jacob Bernoulli. Bernoulli havia codificado o princípio de que, embora fosse difícil prever com certeza um acontecimento específico, como a morte de uma pessoa em particular, era possível prever com grande precisão o resultado médio de muitos acontecimentos similares. Isto é, embora Maclaurin não pudesse usar a matemática para prever se Webster e Wallace morreriam no ano seguinte, ele podia, com dados suficientes, dizer a Webster e Wallace quantos pastores presbiterianos na Escócia quase certamente morreriam no ano seguinte. Por sorte, eles já contavam com os dados que poderiam usar. Tábuas atuariais publicadas 50 anos antes por Edmond Halley mostraram-se especialmente úteis. Halley havia analisado registros de 1.238 nascimentos e 1.174 mortes, obtidos da cidade de Breslávia, na Alemanha. As tábuas de Halley permitiram constatar, por exemplo, que uma pessoa de 20 anos de idade tinha uma chance em 100 de morrer em determinado ano, mas uma pessoa de 50 anos de idade tinha uma chance em 39.

Processando esses números, Webster e Wallace concluíram que, em média, haveria 930 pastores presbiterianos escoceses vivendo em um dado momento, e uma média de 27 pastores morria por ano, 18 dos quais deixariam viúvas. Cinco dos que não deixariam viúvas deixariam filhos órfãos, e dois dos que deixariam viúvas deixariam também filhos de casamentos anteriores que ainda não haviam completado 16 anos de idade. Posteriormente, eles calcularam quanto tempo deveria se passar até a viúva morrer ou se casar novamente (em ambos os casos, o pagamento da pensão cessaria). Com esses números, Webster e Wallace puderam determinar quanto dinheiro os pastores que aderissem ao fundo teriam de pagar para garantir o futuro de seus entes queridos. Contribuindo com 2 libras, 12 xelins e 2 pence por ano, um pastor podia garantir que a esposa viúva receberia pelo menos 10 libras por ano – uma soma considerável naqueles dias. Se achasse que isso não era suficiente, podia escolher pagar mais, até o limite de 6 libras, 11 xelins e 3 pence por ano – o que garantiria à viúva a soma ainda mais atraente de 25 libras por ano.

De acordo com seus cálculos, no ano 1765 o Fundo de Pensão para as Viúvas e os Filhos dos Pastores da Igreja da Escócia teria um capital totalizando 58.348 libras. Seus cálculos se mostraram incrivelmente precisos. Quando esse ano chegou, o capital do Fundo era 58.347 libras – apenas uma libra esterlina a menos que o previsto! Isso era ainda melhor do que as profecias de Habacuque, Jeremias ou são João. Hoje, o fundo de Webster e Wallace, conhecido simplesmente como Scottish Widows, é uma das maiores empresas de seguros e pensões do mundo. Com ativos no valor de 100 bilhões de libras, oferece garantias não só a viúvas escocesas, mas a qualquer um disposto a comprar suas apólices.”

Realidade, sabedoria e etc.

Há pessoas que confundem realidade com uma caricatura ou ilusão dela, cujo caráter pode variar de doce e desejável ao amargo e repugnante. Esse é um tema que remonta aos primórdios da filosofia, tendo sido um dos focos da filosofia socrática e tema da notória alegoria da caverna de Platão.

  • O oráculo de Delfos havia dito a Sócrates que ele era o mais sábio de todos os homens, pelo que Sócrates procurou saber se isso era verdade investigando seus contemporâneos – mas acabou concluindo que o deus de Delfos o considerava o mais sábios dos homens porque era o único que tinha consciência da própria ignorância, enquanto todas as pessoas notáveis acreditavam saber de coisas que realmente não sabiam.
    • “Assim, prossigo agora nessa busca, investigando, segundo o comando do deus, todo indivíduo, cidadão ou estrangeiro, que julgo ser sábio. Então se não julgo que é, presto assistência ao deus e mostro que a pessoa não é sábia.”
      (Platão: Apologia de Sócrates. Tradução: Edson Bini. Edipro: São paulo, 2011: p.36)

As discussões raramente ultrapassam o nível retórico, e quando isso acontece dificilmente a razão vence devido ao despeito ou mera hipocrisia. Sintoma dessa condição é o seguinte comportamento, tão estúpido e comum: argumentar contra alguém ou grupo com base no que se acredita serem as verdadeiras e ocultas razões para algo que essa pessoa ou grupo tenha dito ou feito. Assim, costumamos ouvir declarações do seguinte tipo: “Fulana aceitou o trabalho só para parecer boazinha”; “Sicrano não enfrentou a situação porque não tem culhão”; “Ele desconversou porque tinha medo do que eu poderia dizer”; etc. Como alguém pode saber o que se passa na mente de outras pessoas e conhecer suas reais razões por indícios tão fracos, especialmente quando há algo em disputa? Se formos levar a sério tais argumentos, precisaríamos primeiro acreditar que a maioria de nós possui clarividência ou a capacidade de ler mentes alheias! Acho mais provável que a maioria de nós não sabe o que se passa na própria cabeça, nem o que realmente fará quando houver ocasião de fazer.

Num debate, geralmente vence aos olhos do público quem fala mais grosso, mais alto ou de forma mais pedante (i.e., com ar de possuir elevada moral, vasto conhecimento, grande sabedoria ou qualquer característica que possa despertar admiração da turba – até mesmo ignorância, brutalidade ou depravação). Não raro, as disputas revelam traços de violência, geralmente verbais ou limitadas às ameaças hipotéticas – aquelas velhas ladainhas: “se fosse comigo, eu teria dito/feito isso e aquilo”, “caso se metam comigo, vão saber do que sou capaz”, “da próxima vez, vai ter troco”, etc. Sinceramente, pode até ser que tudo isso seja inofensivo na medida em que é apenas efeito e não a causa da nossa mediocridade; mesmo assim, não deixam de ser deprimente…